segunda-feira, 6 de março de 2017

ME EMPRESTA FARINHA OVOS ÓLEO LEITE FERMENTO...

...e um vidro de leite de coco pra mór de regá por cima.

     De repente o cara sentiu uma alegria incontrolável de fazer um bolo. Algum ingrediente que faltasse ele pedia pra vizinha, moça previdente.

— Me empresta aí farinha ovos óleo leite fermento... e um vidro de leite de coco pra jogar por cima do bolo quente. Ah, e uma colher de açúcar.

— Péra aí, você quer tudo? retrucou a  vizinha, que era bem esperta, ainda que previdente.

— Não, eu tenho o forno e a forma. E a vontade.

     O cara tinha a disposição de fazer. E isso é muito importante. Porém, se o sujeito tiver disposição, mas nenhuma ousadia, morre na vontade. Morre, literalmente. É, vai acumulando vontades, chega uma hora explode.

     Ah, sim;  e além do forno, da forma e da disposição, também tinha a receita. Sabia fazer. Não, não era um aproveitador e nem estava usando a desculpa pra cantar a vizinha. Solitário era sim, mas um simples vivente, que, de repente, desejou mais que qualquer outra coisa assar um bolo, ver o milagre do trigo que se fez pó e depois, quente, se fez flor. Que o desabrochar de uma massa na forma, sob muito calor, é aquele da flor que se faz pétalas, doce, bomba calórica de lipídeos, carbohidratos e proteínas, coisa cheirosa de se comer com muita saliva. Desolado, abriu os armários. Sim, havia armários em sua cozinha, mas ocupados apenas dos carunchos dos últimos grãos há tempo não repostos.

     Que a vida do cozinheiro é dura e magra. Antes precisa ir ao comércio comprar os ingredientes; depois, precisa lavar panelas, assadeiras e muito mais. Mas se o cara fosse ao supermercado, na volta ele se igualaria à vizinha: teria farinha, óleo, ovos, leite, fermento; forno e forma. E cansaço. Então ele achou melhor não arriscar. Ou melhor, ele se arriscou a ser chamado de folgado-atrevido, e teve a sorte de encontrar uma vizinha bem humorada.

     E aí, quando farinha ovos óleo leite fermento se encontram numa massaroca e se misturam com o bom humor e a disposição e ainda são submetidos a 250 ºC o resultado é um bolo, alimento de muita sustança, que, afinal, foi devidamente repartido, metade pra fornecedora dos ingredientes, metade pro imprevidente moço disposto.

     Quem me contou a história foi o moço. Vocês perceberam que ela lhe é levemente favorável. Eu embarquei em sua versão: enquanto ele explodia de alegria, disposição e miséria, a vizinha implodia de acumulação e inércia. E os ingredientes e a tecnologia jaziam improdutivos. E para evitar tal desperdício, nada melhor que produzir e repartir o bolo. Mas agora penso que o cara era machista. Chegou a me florear que, "enquanto a vizinha só chutava dentro da faixa,  ele só cheirava fora do cocho". Minha conclusão provisória e parcial é que o impossível acontece, desde que não haja tanto recato.

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