Dante,
guiado por Virgílio, chega em frente à porta do Inferno. É uma
porta larga e alta. No alto dela, em letras escuras (isso quer dizer
que a porta é clara), está escrito:
PER
ME SI VA NE LA CITTÀ DOLENTE,
PER
ME SI VA NE L'ETTERNO DOLORE,
PER
ME SI VA TRA LA PERDUTA GENTE.
GIUSTIZIA
MOSSE IL MIO ALTO FATTORE;
FECEMI
LA DIVINA PODESTATE,
LA
SOMMA SAPIENZA E'L PRIMO AMORE.
DINANZI
A ME NON FUOR COSE CREATE
SE
NON ETTERNE, E IO ETTERNA DURO.
LASCIATE
OGNE SPERANZA, VOI CH'INTRATE.
Vejam
que a porta é grande mesmo. Tudo isso aí parecia uma plaquinha no
cimo dela. Vejam também que não está nem em latim, nem em inglês.
Naquela terra estrangeira, cada um lê sua própria língua, para
todo mundo entender bem, para que não reste dúvida. Como Dante é
toscano, está escrito na língua toscana. O poeta vivente fica
impressionado e questiona seu mestre, sobre a dureza da inscrição:
Queste
parole di colore oscuro
vid'io
scritte al sommo d'una porta;
per
ch'io: “Maestro, il senso lor m'è duro”.
Então,
Virgílio o reconforta:
Ed
elli a me, come persona accorta:
“Qui
si convien lasciare ogne sospetto;
ogne
viltà convien che qui sia morta.
Noi
siam venuti al loco ov' i' t'ho detto
che
tu vedrai le genti dolorose
c'hanno
perduto il bem de l'intelletto”.
Mas
a alma do poeta romano (Dante está vivo, mas Virgílio morreu faz
tempo) pega, de leve, a mão de Dante e lhe fala: Dêxa di sê
besta, cara, vem comigo. E atravessam o umbral daquela sinistra
porteira:
E
poi che la sua mano a la mia puose
con
lieto volto, ond'io mi confortai,
mi
mise dentro a le segrete cose.
Quivi
sospiri, pianti e alti guai
risonavan
per l'aere sanza stelle,
per
ch'io al cominciar ne lagrimai.
Diverse
lingue, orribili favelle,
parole
di dolore, accenti d'ira,
voci
alte e fioche, e suon di man con elle
facevano
un tumulto, il qual s'aggira
sempre
in quell'aura sanza tempo tinta,
come
la rena quando turbo spira.
Dante,
espantado, pergunta a Virgílio: que gente mais doida é essa? Doida
no sentido figurado dos jovens daquele tempo, porque era uma gente
desinquieta, reclamando baixo pelos cantos. Então o Virgílio
explica-lhe: gente amarga, não? É uma gente que, ainda que
barulhenta em seu clamor, caminha feito gado, derrotada. Uma gente
sonsa, no pior sentido do termo, que não se compromete, que não se
arrisca, que serve a dois senhores, que serve a quem lhe convém, que
dá uma no prego e outra na ferradura, que foge igualmente do perigo
e da glória, gente que acende uma vela pra deus e outra pro diabo,
gente sem infâmia e sem louvor. Viveu tão isolada no mundo, tão
descompromissada, que agora, nem deus nem o diabo quer. (note que aí
ainda é o átrio do Inferno, ainda não atravessaram o Aqueronte,
porque é do outro lado que o bicho pega).
Aí
Dante fica, assim, meio sem entender: mas, afinal, por que reclamam
tanto, se não sofrem nenhuma pena, apenas esse inferno de
pernilongos? Aí o Virgílio, meio já sem paciência com todo aquele
interesse de Dante para com aquele povo pobre de espírito: —
Escuta, de uma vez por todas. Serei curto e grosso; mais sucinto que
aquela inscrição lá da porta:
“Questi
non hanno speranza di morte,
e
la lor cieca vita è tanto bassa,
che
'invidiosi son d'ogne altra sorte.
Fama
di loro il mondo esser non lassa;
misericordia
e giustizia li sdegna:
non
ragioniam di lor, mas guarda e passa”.
Por
fim, Virgílio, como bom romano, arremata: cara! Ninguém mais se
lembra desse povo. Esquece essa gente! São cheios de picuinhas,
invejosos, rancorosos; medíocres. Deles não cuides mais, mas olha e
passa. Vamos em frente.
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