quinta-feira, 28 de maio de 2020

O INFERNO DE DANTE.

Dante, guiado por Virgílio, chega em frente à porta do Inferno. É uma porta larga e alta. No alto dela, em letras escuras (isso quer dizer que a porta é clara), está escrito:

PER ME SI VA NE LA CITTÀ DOLENTE,
PER ME SI VA NE L'ETTERNO DOLORE,
PER ME SI VA TRA LA PERDUTA GENTE.
GIUSTIZIA MOSSE IL MIO ALTO FATTORE;
FECEMI LA DIVINA PODESTATE,
LA SOMMA SAPIENZA E'L PRIMO AMORE.
DINANZI A ME NON FUOR COSE CREATE
SE NON ETTERNE, E IO ETTERNA DURO.
LASCIATE OGNE SPERANZA, VOI CH'INTRATE.

Vejam que a porta é grande mesmo. Tudo isso aí parecia uma plaquinha no cimo dela. Vejam também que não está nem em latim, nem em inglês. Naquela terra estrangeira, cada um lê sua própria língua, para todo mundo entender bem, para que não reste dúvida. Como Dante é toscano, está escrito na língua toscana. O poeta vivente fica impressionado e questiona seu mestre, sobre a dureza da inscrição:

Queste parole di colore oscuro
vid'io scritte al sommo d'una porta;
per ch'io: “Maestro, il senso lor m'è duro”.

Então, Virgílio o reconforta:

Ed elli a me, come persona accorta:
Qui si convien lasciare ogne sospetto;
ogne viltà convien che qui sia morta.
Noi siam venuti al loco ov' i' t'ho detto
che tu vedrai le genti dolorose
c'hanno perduto il bem de l'intelletto”.

Mas a alma do poeta romano (Dante está vivo, mas Virgílio morreu faz tempo) pega, de leve, a mão de Dante e lhe fala: Dêxa di sê besta, cara, vem comigo. E atravessam o umbral daquela sinistra porteira:

E poi che la sua mano a la mia puose
con lieto volto, ond'io mi confortai,
mi mise dentro a le segrete cose.
Quivi sospiri, pianti e alti guai
risonavan per l'aere sanza stelle,
per ch'io al cominciar ne lagrimai.
Diverse lingue, orribili favelle,
parole di dolore, accenti d'ira,
voci alte e fioche, e suon di man con elle
facevano un tumulto, il qual s'aggira
sempre in quell'aura sanza tempo tinta,
come la rena quando turbo spira.

Dante, espantado, pergunta a Virgílio: que gente mais doida é essa? Doida no sentido figurado dos jovens daquele tempo, porque era uma gente desinquieta, reclamando baixo pelos cantos. Então o Virgílio explica-lhe: gente amarga, não? É uma gente que, ainda que barulhenta em seu clamor, caminha feito gado, derrotada. Uma gente sonsa, no pior sentido do termo, que não se compromete, que não se arrisca, que serve a dois senhores, que serve a quem lhe convém, que dá uma no prego e outra na ferradura, que foge igualmente do perigo e da glória, gente que acende uma vela pra deus e outra pro diabo, gente sem infâmia e sem louvor. Viveu tão isolada no mundo, tão descompromissada, que agora, nem deus nem o diabo quer. (note que aí ainda é o átrio do Inferno, ainda não atravessaram o Aqueronte, porque é do outro lado que o bicho pega).

Aí Dante fica, assim, meio sem entender: mas, afinal, por que reclamam tanto, se não sofrem nenhuma pena, apenas esse inferno de pernilongos? Aí o Virgílio, meio já sem paciência com todo aquele interesse de Dante para com aquele povo pobre de espírito: — Escuta, de uma vez por todas. Serei curto e grosso; mais sucinto que aquela inscrição lá da porta:

Questi non hanno speranza di morte,
e la lor cieca vita è tanto bassa,
che 'invidiosi son d'ogne altra sorte.
Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, mas guarda e passa”.

Por fim, Virgílio, como bom romano, arremata: cara! Ninguém mais se lembra desse povo. Esquece essa gente! São cheios de picuinhas, invejosos, rancorosos; medíocres. Deles não cuides mais, mas olha e passa. Vamos em frente.

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