Leio
que Lula disse que Nelson Teich, atual ministro da saúde, parece
nunca ter entrado numa UBS. Leio também que a Associação dos
Moradores da Favela de Paraisópolis contratou, sem ajuda do governo,
um serviço privado de saúde 24 horas, incluindo 3 ambulâncias,
dois médicos, dois enfermeiros, três socorristas, com a condição
de que passassem a morar dentro da própria favela. Li, tempos e
governos atrás, que foi instituído um programa específico para
alocar médicos em localidades remotas(parece que tiveram de recorrer
aos estrangeiros, para conseguirem os tais).
São
três leituras, três notícias. O que elas têm em comum, além do
tema (saúde)? Elas têm em comum o pertencimento social. É o
ministro-médico que desconhece (ou parece desconhecer) a realidade
do serviço público de saúde; são os profissionais de saúde que
são obrigados a morar no mesmo mundo dos seus pacientes se quiserem
ser contratados; são os médicos normais que não querem trabalhar e
muito menos viver nas cidades pequenas ou afastadas nem nas
periferias pobres.
O
problema seria menos terrível se ocorresse apenas na área da saúde.
Vejamos o caso dos transportes coletivos: relacione todos os
vereadores, o prefeito, todos os secretários e respectivos
assessores do município de S.Paulo: no quesito “quem já pisou
dentro de um ônibus urbano da cidade” (não vale em época de
eleição), é certo que a maioria vai responder sim, mas estará
mentindo. A maioria dessas pessoas que cuidam (decidem, modelam) do
transporte coletivo da cidade nunca pisou, para uso ordinário, num
coletivo do sistema.
A
maioria dos psicólogos nunca pisou num hospício (tudo bem, tô
sabeno que não se usa mais essa nomenclatura…), a maioria dos
consultores empresariais nunca requereu um CNPJ, a maioria dos
comentaristas de futebol nunca chutou uma bola, a maioria dos
realizadores de casamentos nunca casou…
Paradoxalmente,
a maioria dos policiais militares pertence ao mesmo mundo da
bandidagem. Será que é mesmo isso uma contradição, um ponto fora
da curva? Ou essa aparente exceção está dentro da lógica de que a
PM existe apenas para cuidar da pequena bandidagem, aquela decorrente
da pobreza miserável e, para tanto, nada melhor do que colocar o
aluno mais tímido para vigiar a classe enquanto o professor vai ao
banheiro?
Leio,
volta e meia, que o primeiro-ministro da Dinamarca (ou da Suécia, ou
da Noruega…) foi trabalhar de metrô. Eu, se um dia vier a me
tornar presidente do Brasil… (pelamordedeus!), não, se um dia vier
a me tornar um simples vereador desta megalópole (pelamordedeus nº
2!), nunca mais pisarei dentro de um ônibus, a menos que esteja sob
pesado disfarce. Não sou doido. Nesta opulência tão minoritária,
é mais que inviável, é temerário, aos edis, pertencerem de
verdade ao mundo popular. Neste fedor desigual e tropical, os mais
de mil milhões miseráveis me… abbiano mangiato; e eu seria
mastigado e manjado.
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