quarta-feira, 6 de maio de 2020

De pobres & palácios

Leio que Lula disse que Nelson Teich, atual ministro da saúde, parece nunca ter entrado numa UBS. Leio também que a Associação dos Moradores da Favela de Paraisópolis contratou, sem ajuda do governo, um serviço privado de saúde 24 horas, incluindo 3 ambulâncias, dois médicos, dois enfermeiros, três socorristas, com a condição de que passassem a morar dentro da própria favela. Li, tempos e governos atrás, que foi instituído um programa específico para alocar médicos em localidades remotas(parece que tiveram de recorrer aos estrangeiros, para conseguirem os tais).

São três leituras, três notícias. O que elas têm em comum, além do tema (saúde)? Elas têm em comum o pertencimento social. É o ministro-médico que desconhece (ou parece desconhecer) a realidade do serviço público de saúde; são os profissionais de saúde que são obrigados a morar no mesmo mundo dos seus pacientes se quiserem ser contratados; são os médicos normais que não querem trabalhar e muito menos viver nas cidades pequenas ou afastadas nem nas periferias pobres.

O problema seria menos terrível se ocorresse apenas na área da saúde. Vejamos o caso dos transportes coletivos: relacione todos os vereadores, o prefeito, todos os secretários e respectivos assessores do município de S.Paulo: no quesito “quem já pisou dentro de um ônibus urbano da cidade” (não vale em época de eleição), é certo que a maioria vai responder sim, mas estará mentindo. A maioria dessas pessoas que cuidam (decidem, modelam) do transporte coletivo da cidade nunca pisou, para uso ordinário, num coletivo do sistema.

A maioria dos psicólogos nunca pisou num hospício (tudo bem, tô sabeno que não se usa mais essa nomenclatura…), a maioria dos consultores empresariais nunca requereu um CNPJ, a maioria dos comentaristas de futebol nunca chutou uma bola, a maioria dos realizadores de casamentos nunca casou…

Paradoxalmente, a maioria dos policiais militares pertence ao mesmo mundo da bandidagem. Será que é mesmo isso uma contradição, um ponto fora da curva? Ou essa aparente exceção está dentro da lógica de que a PM existe apenas para cuidar da pequena bandidagem, aquela decorrente da pobreza miserável e, para tanto, nada melhor do que colocar o aluno mais tímido para vigiar a classe enquanto o professor vai ao banheiro?

Leio, volta e meia, que o primeiro-ministro da Dinamarca (ou da Suécia, ou da Noruega…) foi trabalhar de metrô. Eu, se um dia vier a me tornar presidente do Brasil… (pelamordedeus!), não, se um dia vier a me tornar um simples vereador desta megalópole (pelamordedeus nº 2!), nunca mais pisarei dentro de um ônibus, a menos que esteja sob pesado disfarce. Não sou doido. Nesta opulência tão minoritária, é mais que inviável, é temerário, aos edis, pertencerem de verdade ao mundo popular. Neste fedor desigual e tropical, os mais de mil milhões miseráveis me… abbiano mangiato; e eu seria mastigado e manjado.


Nenhum comentário:

Postar um comentário