sábado, 23 de maio de 2020

CERIMONIAL, PROTOCOLO, DECORO

O CERIMONIAL, O PROTOCOLO, O DECORO. Esse vídeo dessa reunião ministerial, que só sei pelos comentários, me lembrou Ruth Cardoso. E também uma professora de matemática da 3ª série do ginásio, de quem esqueci o nome, mas não a fisionomia.
Fiquei sabendo agora que Ruth Cardoso foi a primeira primeira-dama com diploma universitário no Brasil. Mas isso não tem nada a ver. Também não tem nada a ver o fato dela ser pós-doutora orientadora de doutores em antropologia e outras sociologias pelas USPs e Columbias e Sorbones da vida.
Entretanto, o fato dela ser filha de Araraquara e de contador com farmacêutica já começa a pegar. Ruth Cardoso era uma dessas pessoas opacas, embora ilustradas. Pacata. E detestava o título de primeira-dama, o cerimonial do palácio, o protocolo do cargo do marido. Mas, como antropóloga, sabia do valor e da importância e da necessidade e do significado do ritual.
Isso foi o que ela respondeu, certa feita, aos jornalistas que, sacanas, sabedores de quem era Ruth Cardoso, conhecedores daquela catedrática austera — alguns provavelmente vítimas do seu rigor metodológico —, perguntaram a ela como se sentia naquele anacrônico papel. “Como antropóloga, sei o valor do ritual”, respondeu curto e grosso aos gozadores. E fim de papo.
Essa reunião presidencial — o vídeo, ou melhor, os comentários sobre o vídeo — desencadeou em mim, como pedras de dominó colocadas de pé em sequência, uma derrubando a outra, a lembrança da dona Ruth e, imediatamente, a lembrança da minha professora de matemática da 3ª série do ginásio, que eu cursava no IEEF, 560 quilômetros a oeste da Praça da Sé.
Não lembro o nome dela. Mas lembro a pessoa. Cerca de 45 anos de idade, cabelos grisalhos que nunca haviam visto tinta e que um dia foram bem pretos, pele morena clara muito lisa, perfeita de longe, ainda quase nenhuma ruga. Professora inexpressiva, ensinava equação do segundo grau de forma burocrática, ar cansado, devia ser daquelas que davam 40 aulas semanais para conseguir comprar um fusca, nos anos 1960.
Certo dia essa professora apagou a lousa inteirinha, que ia de parede a parede, coisa que não era usual. E apagou de forma mais lenta e caprichada que de costume. E escreveu, no centro dela, em letras cursivas de tamanho normal, uma frase de cerca de dez palavras, da qual só me lembra INTELECTUAL. Não disse nada, apenas bateu o giz sobre a lousa, mostrando-nos a frase. Caminhou pra lá e pra cá, respirou fundo, e retomou a matéria corriqueira.
Não me lembro da frase, mas do que ela queria dizer, nunca esqueci. A frase demonstrava uma séria preocupação com a formação INTELECTUAL da juventude, em meio à barbárie que vivenciávamos. Me lembro da minha reação: fiquei perplexo, pela matéria inesperada. Saquei na hora que aquela atitude e aquela palavra tinham a ver com algo sério e profundo, de que eu não fazia a menor ideia. Deve ter acontecido algo grave, em nível nacional — corria o ano de 1970 —, para aquela pacata e metódica professora preencher uma lousa inteira com uma frase de apenas dez palavras, que não tinha nada a ver com álgebras e aritméticas.


2 comentários:

  1. andarilho bicicleteiro em quarentena, o feice nos escraviza, ou quase... depois de um bom tempo resolvi acessar a caixa de mensagens do Verso e Conversa e notei que você andarilhou por lá. abraço, com um bom atraso.

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    1. Verdade. Esses blogs não funcionam mais. Eu uso como registro público.

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