"Pessoaaal !! Sou mãe de família, tô pidindo pra alimentar meus filhos, pessoal !"
"Pessoaaal !! Eu cozinhei minha última xicra de arroiz ontem, pessoal !"
"Pessoaall !! Eu tenho quatro filhos pequenos, pessoal. Tô desempregada."
(— Deus lhe pague, senhora.)
"Pessoaaal, vocês sabem o que é uma mãe não poder dar leite pra criança, pessoal !?"
"Ontem à noite, pessoaal, meu filho de 2 anos pediu a mamadeira, pessoal. Eu não tinha leite pra dar pra ele, pessoal."
(— Obrigado, senhor. Deus lhe ajude.)
"Pessoaal ! Aceito qualquer ajuda, pessoal. Me ajuda, pessoal !"
(— Deus lhe acompanhe, de coração.)
"Pessoal, tô eu e minha filha mais velha aqui, pessoal."
"Eu sei que vocês não tem nada a ver com isso, pessoal, mas eu tô pidindo, pessoal."
Foi nessa hora que O Inusitado apareceu. Quando a mulher absolveu todos nós que estávamos no vagão do metrô — gente de todo tipo, umas 300 pessoas, dizendo que, sim, ela estava passando fome, mas a gente não tinha nada com isso. Foi nessa hora que O Inusitado ergueu a voz e falou no mesmo tom:
"Agora sim que fodeu de vez!"
Era uma voz de homem. Se fosse uma mulher, o impacto não teria sido tão forte, porque muitos poderiam confundir com a própria pedinte, louca talvez, saindo do tom. Havia muita gente de pé no corredor, de maneira que eu não estava vendo nem um, nem outro. O homem, ouvindo o silêncio provocado por sua frase, sentiu-se autorizado a continuar:
"Eu já tava com o saco cheio dessa sua ladainha de miséria e, inclusive as suas vestes calculadamente miseráveis e fora de moda e esse lenço na cabeça me lembraram as velhas esmolentas que vi estrategicamente prostradas nas imediações do Vaticano, em Roma. E isso já tava me dando nos nervos. Sabe o que você tá parecendo? Tá parecendo aquelas figuras de velhas que ilustram a Bíblia representando judias piedosas do tempo de Cristo. Agora sei onde os ilustradores se inspiraram: nas velhas pedintes da idade média romana, cujo figurino até hoje faz sucesso."
Nisso o trem abriu as portas na estação e a pedinte escafedeu-se. Mas o homem continuou falando. Não sei se porque não percebeu que a mulher saiu ou se falava para todos nós:
"Eu já tava farto da sua miséria, mas agora, com essa sua conversa de que ninguém tem culpa, de que nós não temos nada a ver com sua miséria, você esgotou minha paciência".
Silêncio no vagão, todo mundo esticando o pescoço pra tentar ver o falante, mas de onde eu estava não dava para ver, apesar de ligeiro esvaziamento do corredor. Acho que ele permaneceu sentado num canto obscuro, não tendo necessidade de maior esforço para se fazer entender, com sua voz poderosa e bem articulada. Até eu que sou meio surdo entendia tudo.
"Se você diz que nós — ninguém — não temos nada a ver com sua miséria, então você, e somente você, é culpada da sua miséria. E se somente você é culpada, você que espie sozinha a sua culpa."
"Eu sei que você decorou o script, que você é uma atriz. Isto não exclui o fato de que você seja uma miserável de verdade. Mas por favor, reescreva o roteiro, não diga bobagem."
"É claro que todos nós temos a ver com sua miséria".
"A sua fome não é de carbohidrato. Tá cheio de gente com a consciência pesada distribuindo arroz e feijão e farinha e marmitas e sopas pelos guetos e praças da cidade. A sua fome é de justiça."
"Não a justiça engravatada de leis e bacharéis. Você não tem noção de que sua ladainha é por justiça social. Você não suporta mais o sufoco do superlotado subsolo da senzala."
"Mas você não tem noção da tragédia que está a representar. É por isso que você aguenta e persevera e elege o Dória".
"Mas, por favor, moça. Não me isente de culpa. Eu não aguento mais o peso dessa desigualdade pornográfica".
Não sei se o que prendia era o discurso ou a voz do homem. O fato é que o trem passou por mais três estações e ninguém desceu e alguns subiram. Por fim, chegamos ao Tucuruvi e todo mundo desceu. E eu não consegui ver o dono da voz. Acho que era Deus.
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