Tudo bem, o circo tá pegando fogo, hoje é dia de exercer a cidadania na Paulista, mas insisto no ferro frio de uma crônica. Faz sentido um assunto nada a ver, num momento em que nenhum cidadão tem o direito de permanecer alheio? Ora, alguém que insiste nos textões, na era dos 140 caracteres, está acostumado a remar contra a corrente. Mas saibam todos vocês, oh ignorantes nas artes da cozinha, que uma gota fria numa frigideira em óleo fervente provoca um fumação. Não tenho esperança, mas minha gota não é tão fria nem o óleo está tão quente. Se provocar um leve chiado, já me dou por satisfeito.
Subia eu pela Ministro Rocha Azevedo, no Jardim América, quando despontou ao meu encontro, lá na esquina da Oscar Freire, quatro pedestres, uma ao lado da outra, tomando quase toda a calçada. Duas mulheres e duas crianças. (recomenda-se, para a saúde mental, viver e caminhar na vida real ao menos uma vez por dia). Todas pareciam em trajes sociais. Nós viventes e moventes temos a capacidade e necessidade inata de avaliar e julgar tudo e principalmente todos que nos caem em nosso campo de visão. As duas mulheres eram esbeltas, de meia idade, fomos nos aproximando...
O rosto de uma pessoa é quase tudo. Embora seja raro dois estranhos cruzarem seus olhares, a rápida visão dos olhos, dos lábios, dos movimentos, revela quase tudo do estranho. A dois metros das duas mulheres, levei um susto. Uma era a mãe e a outra era a filha. Tudo bem, hoje em dia há muitas mulheres de 50 anos com jeito de 25. Não, a mocinha tinha 15 anos, no máximo. Tudo bem, tinha um corpão de 25, mas o rosto, os olhos... A mocinha tinha a camisa abotoada até a garganta e a saia 5 cm abaixo do joelho. A mocinha andava feito um canguru desengonçado, a reboque da mãe, a reboque da cultura e da religião milenares e imutáveis, temerosa de qualquer ponta fora do lugar, de qualquer passo fora da risca, temerosa de pensar no mais íntimo aceno de rebeldia ou desleixo.
Em seguida, a Rocha Azevedo dá um pinote, para alcançar a Paulista lá em cima. O coração vai a 140. O fluxo sanguíneo abundante é um perigo para as artérias enfraquecidas e para a mente fértil de quem não tem o cabresto muito justo. Ser pai ou mãe consiste em saber soltar os filhos. O maior prejuízo que um pai ou uma mãe podem legar aos filhos é a perpetuação, neles, da personalidade própria ou familiar ou até religiosa. Um filho precisa de arroz, feijão e... a liberdade da ganja, sim, se assim o decidir as circunstâncias. Os filhos têm o direito de serem apresentados ao mundo real. Os pais não têm o direito de limitar e editar e manipular e circunscrever o mundo apresentado aos filhos. Um pai não pode mandar um filho calar a boca. Não tem cabimento uma mãe sufocar uma filha com uma saia cinco centímetros abaixo dos joelhos, enquanto um jato cruza o céu em direção ao Nordeste, neste nublado outono de 2017.
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