(Não se trata de nenhum ladrão 'batedor de carteiras' não)
De repente ouço uma voz falando alto e sem parar. Não entendo quase nada, pareço um estrangeiro. Porque é uma fala em bom português, confirmo depois. Não sei não o que ele está vendendo. Mas sei que é macia e comporta dezesseis cartões. Ele fala muito; quando enche as medidas, torço para ele parar em prol da eficácia de seu recado. Ele para, mas não por causa da minha torcida e sim porque o vagão abriu as portas na estação Ponte Pequena, que agora se chama Armênia. É macaco velho, sabe que tem de desaparecer na hora do embarque e desembarque. No caso, emudecer. O trem parado, as portas abertas, os fiscais entram ou esticam o pescoço pra dentro do vagão caçando vendedores. Em geral, os vendedores aproveitam essas paradas para mudar de vagão. É uma temeridade permanecer no mesmo vagão por dois trechos consecutivos. Sempre tem um delator com seu celular que avisa o serviço contra vendedores ambulantes do metrô.
Mas o vendedor de carteiras... sim, só descubro que ele vende carteiras quando desliga seu discurso e passa a mostrar seu produto aos usuários. Carteira de carregar documentos, dinheiro... não, não, acho que ninguém leva mais dinheiro na carteira — disso tenho certeza —, nem documentos. Todo mundo só leva cartões, a julgar pela ênfase do moço nos dezesseis cartões que cabem na carteira que está vendendo. De fato, ninguém mais leva dinheiro vivo, se até o vendedor ambulante de salgadinho aceita cartões. E documentos — tenho observado, ainda não estou certo, mas desconfio — as pessoas levam a foto do RG no smartphone. E o guarda aceita! Antigamente, pra não ser autuado por vadiagem, o jovem precisava exibir a carteira profissional. Só o RG não bastava. Agora, nestes tempos de terceirização, pejotização, desregulamentação, o guarda é o primeiro a esquecer da carteira profissional. E os rapazes mais prevenidos ainda levam, no celular, pra reforçar o RG, fotos da conta de luz, da rua onde moram, da mãe...
De início, achei um exagero, 16 cartões. Porém, pensando bem, está de acordo com a necessidade média dos cidadãos. Tem cartão do transporte, do SUS, do convênio médico, da escola, do sindicato, do clube, da firma, do prédio, do estacionamento, da torcida, da academia, do bar, da igreja... ééééhhh! bar e igreja já entraram na onda dos cartões de acesso e promoções. E cada loja tem seu cartão próprio, que dá direito a descontos. Dezesseis é pouco.
Mas como eu ia dizendo e não disse, o vendedor de carteiras não seguiu a regra de mudar de vagão na primeira parada. Falou demais, quando terminou seu discurso era hora de sair. Então, pra não perder a conversa, ele arriscou e ficou. E lavou a égua, como se diz lá na minha terra. Vendeu umas quinze, a dez reais cada. Parece que o tempo de exposição da imagem do vendedor faz diferença. A confiança que ele desperta nos sonolentos usuários vai aumentando conforme os segundos que ele vai aguentando no mesmo vagão. É a mesma lógica do comercial de TV, quanto mais insistente, mais eficaz. O ponto de virada é a venda da segunda unidade. A primeira venda não conta muito, porque sempre há um fácil que compra rápido. Mas quando a segunda peça é vendida, o vagão inteiro levanta e orelha. Opa! será que estou perdendo uma pechincha?! Parece que foi o Sílvio Santos que descobriu essa lei e então passou a levar consigo, para comprar suas duas primeiras canetas, dois compradores...
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