terça-feira, 23 de maio de 2017

VALE A PENA APOSTAR CONTRA A RALÉ?

     Escrevo RALÉ porque quero sangue. Quer dizer, quero provocar. Se dissesse  POVO, ficaria parecendo um panfleto. E ninguém lê panfleto, né não? Mas o mundo gosta de sangue. Ralé é povo. O povo-mundo. Povo cheio de ódio.

     Não confundam ralé com lúmpen. Ralé somos eu, você, todo mundo. Até quem excursiona pra Miami em suaves prestações trienais é ralé, aqui em minha licença crônica. Lúmpen são aqueles que já não contam. Já dobraram o Cabo da Boa Esperança, já se entregaram a uma seita, já se empenharam num ácido, já se esqueceram num mundo virtual, já se amarraram num seriado deveras intrigante e sem fim, já se perderam num dos labirintos da vida. E rico é um bicho fora do mundo.

     Portanto, a ralé é o mundo. Mundo cheio de ódio. Como uma notícia de jornal, rancorosa com a felicidade. Faça uma pesquisa nas cinco mais lidas de todos os sites. Ao menos três são de natureza policial. A ralé é a tragédia cotidiana das notícias dos jornais. Aquela que se desenvolve na lentidão dos astros e que só rende títulos noticiosos secundários que ninguém lê. Já RICO é o texto literário, pleno de figuras e metáforas, ainda menos lido, embora mais cheiroso.

     Rico é um bicho fora do mundo, mas nem por isso menos odiado. Rico não pode nem cagar sossegado. Além de viver na ignorância da não-vida. Rico não sabe o preço do pão, da gasolina, do metrô. Rico nunca anda de metrô, nem aqui, nem em N.York. Rico não conhece a dor e a ludicidade de limpar a própria casa, prover a própria comida, ir ao supermercado. Dia desses, corri ao lado duma rica, no Ibirapuera. Quatro seguranças giravam em torno da moça, numa distância de 50 metros, um para cada ponto cardeal. Sendo que "corri ao lado" é uma licença mais que poética da minha parte...

     Ser rico é apostar contra a ralé. Ser rico é se declarar impedido de ir ao cabeleireiro, de frequentar a academia (academia, nestes tempos — todos sabem — é aquela de fazer ginástica). Rico não vai nem à igreja. É a igreja que vai a ele, é o cabeleireiro que vai a ele, é a academia em casa, é a modista, o pedicuro que vão a ele. Nem ao hospital rico vai; só quando está morrendo, quando precisa de UTI, e olhe lá... Enfim, rico é aquele ser inteligente e poderoso, tanto que decreta a própria prisão.

     Porque o rico sabe que a sua prisão é a sua sobrevivência. A moça-corredora lá do Ibirapuera é uma temerária e sua audácia é semelhante àquela dos astronautas, quando saem da nave, livres no espaço, seguros apenas por um cabo. Porque rico é o diabo e a ralé é Deus.Tem dinheiro que pague a dor e o desamparo de ser odiado por Deus?  Que fique claro, em prol da desilusão: tal ódio não decorre da Injustiça, mas da Inveja.

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