quarta-feira, 3 de maio de 2017

CHURRASCO GREGO DEVE SER DELÍCIA.

Eta vida besta, meu Deus, acho que nunca vou comer churrasquinho grego em minha vida. Perto da esquina da 25 de março com a Ladeira Porto Geral, num nicho de bar, vi  um tolete de churrasco grego. 5 real com direito a suco. E uma bandeja de molhos e cremes, cada um mais doentiamente saboroso que o outro, como se fora remédios de matar mosca. Além da vinagrete e da salada de repolho. Quem copiou quem, esses caras, que estão na vida desde o começo do mundo, ou o mac-mac?

     Poderia comer ali, o cara me venderia tranquilamente, eu, com esta cara de sonso apressado de periferia, e desavisado e faminto e querendo lucrar até na comida. Mas não comi, espiei de longe, rápido, prometi que espiaria mais de perto no próximo. Examinaria os quetixupi da bandeja, os acompanhamentos, havia muitos na Florêncio, na Boa Vista,  na São Bento, na Direita. Será que nunca vou comer um churrasquinho grego nesta vida?

     Havia muitos em 1975. Agora não há mais não, só fui encontrar na Praça da Sé. Treis real e cinquenta, com direito a suco e uma impressionante bandeja de deliciosas drogas viciantes para acompanhar.  Foi o mac-mac que copiou esses caras: quanto mais barato, mais impressionante. Aglomera-se, nas imediações, uma multidão de... como diria, sem ser grosso ou preconceituoso? Lúmpen? Sim, corro o risco, em benefício da concisão: lúmpen.

     (O lúmpen é diferente do noia, lá da cracolândia. O lúmpen come, o noia cheira; ou fuma; ou bebe. O lúmpen também é um desesperado, só que não tem certeza. Por isso é triste, mas ainda come. O noia é um desesperado e sabe disso, por isso se consome e se alegra todo no presente).

     Aliás, vi dois toletes de churrasco grego, ali naquele pedaço da Sé. Aquele heterodoxo embutidão deve ser uma delícia, assim como qualquer linguiça, qualquer salame. As sucessivas camadas de carne entremeadas com pimentão e tudo mais do gênero que se queira, com muito alho e cebola e cheiros e iguarias e noz-moscadas, carne gorda de preferência, o visual se parece com o perfil de uma rocha sedimentar curtida e assada lentamente em aparelho próprio desde o começo das eras, aquilo deve ser uma delícia.

     Só que ali eu não poderia comer não. Aqueles churrasquinhos gregos da Praça da Sé têm um viés classista. Eu, com esse meu tipo urbano classe média cheio de certezas e raízes e cepêéfes, não conseguiria comprar. Não me venderiam. Sei como isso funciona. Primeiro, que eu chegaria ressabiado, olhando dos lados, dando tempo e bandeira para o vendedor desconfiar e ficar puto. Então ele tentaria me ignorar. Depois, iria me deixando pra trás, na fila imaginária que se forma em torno. Se continuasse insistindo, ele desfecharia alguma simulação de falta de higiene, sabendo que gente como eu é sempre muito limpinha e cheia de nojos, tem horror de morrer de caganeira, ser passado pra trás, porque está  pagando... Porém, eu continuaria ali, firme, esperando bovinamente minha vez, instilando no comerciante uma gota de dúvida. Eu chegaria mais perto, ele quase conformado alçaria a faca na tangente do tolete, a saliva inundaria minhas papas, ele encontraria meu olhar que, apesar de guloso, continuaria insolente. E desmoronaria, direto e cru: não vendo, não posso. Pô, meu, não me faça sofrer. Peça um misto quente ali no balcão. E minhas palavras fora do lugar nada poderiam retrucar ali e eu engoliria minha estéril saliva e seguiria arcado sob o peso do meu preconceito.

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