UM
FLAGRANTE NA VIDA ENTRE FILHA & PAI.
Bistecão
era o chefe de uma família tradicional brasileira. Sabe o
patriarcalismo? Então, e, para agravar, era uma família rural, do
interior, Bistecão era fazendeiro. E mais: ao contrário de quase
todos, morava na fazenda e não na cidade, como agora é costume
entre os fazendeiros. Rúcula era sua filha primogênita. Ao
completar 18 anos, veio morar em São Paulo, para estudar.
Bistecão
era um sujeito sistemático, como se diz lá na terra dele. Tradição,
respeito, propriedade. Nada de frescuras. Muita couve, muito feijão,
muita fritura, tudo no toucinho, tudo gordo... Rico, modo de dizer:
tinha muitos ativos imobilizados: terras. Em geral, os fazendeiros
têm pouco dinheiro vivo e nenhuma previsão confiável de realização
financeira. Mas Bistecão, além de caprichoso, era ladino.
Pechinchava com Deus e o Diabo por míseros detalhes, extraía o
máximo mediante o mínimo dos peões e tarefeiros e boias-frias e
pesquisava muito antes de vender a produção. Assim, ao contrário
da maioria de seus confrades, sua conta bancária também era gorda.
Em
São Paulo, Rúcula, a filha, estudava em escola cara, tinha
apartamento, carro, empregada, despesas gerais, tudo pago pelo pai.
O
fazendeiro tinha uma ruma de filhos, inclusive alguns homens, mas,
não sei que diabos, gostava mais daquela uma, Rúcula, a única que
achou de sair de casa e, pior, para a capital. De tal maneira que, a
cada três meses, Bistecão se abalava lá da fazenda para São
Paulo, para ver a filha, cuidar, fiscalizar… A mulher-mãe não
vinha, não gostava, tinha muitos afazeres, Bistecão vinha só, de
ônibus, preferia.
O
pai ficava uns três dias na capital, hospedado num cinco estrelas.
Vinha para fiscalizar, mas não se atrevia a pisar no apartamento da
filha. Tinha medo do que viesse a encontrar… Mas almoçava e
jantava com ela todos os dias. Sempre numa churrascaria, para
desespero da filha, vegetariana.
Esclareça-se
que filha e pai eram como rato e gato. O pai caçando a filha,
cobrando seus destemperos, criticando-a, não a perdoando por
escolher o curso História da Arte, que não dá camisa pra ninguém,
além de caro pra caramba… nada gostando do jeito relaxado dela se
vestir, dos olhos vermelhos, da cara de sono, do resfriado
constante, da preguiça...dos amigos, dos horários, dos assuntos…
da frescura de não comer carne. E tinha sérias desconfianças de
que a filha fumava e cheirava… E não gostava nada daquela magreza
da filha, daquela mania de correr em volta do quarteirão todo dia,
olhos fundos, pelo no subaco…
Para
a filha, aqueles três dias de churrascarias era um suplício. Ver
seu pai se afogando naquelas picanhas em marés de gorduras
ferventes, que os garções, já íntimos, caprichavam. Ver seu pai
se estufando com aquela mini bomba de chopp atravancando a mesa... E
ainda, comer aquela salada meio murcha e cheirando a banha de porco,
naquele ambiente de carne grossa e música brega... E debaixo de um
sermão paterno do começo ao fim … e sob uma inquirição visual e
olfativa capaz de ressuscitar a cannabis que deixara de pitar há
três dias, capaz de espreitar nos internos do olfato os possíveis
vermelhos da farinha de uma semana atrás… E quando acabava o
sermão, começava o interrogatório, depois vinha os conselhos…
— Minha
filha, você tá muito magra. Cê tá com cara de rapariga. Cê tá
comendo direito, dormindo direito?
— Minha
filha, quando é que você vai virar gente, tomar vergonha na cara?
— Tá
bom, pai, vamo sair daqui!
E
saíam. Ela forçava o pai a andar dois quarteirões…
— Rúcula,
tô preocupado com você… não gosto daquele seu amigo skatista nem
daquela uma de cabeça raspada.
— Tá
bom, pai, mas vira essa fumaça pra lá, que já estou de abstinência
faz três dias…
— Rúcula,
isso aqui é legal, comprado na padaria…
— Então,
pai, mas essa sua pança de 130 Kg não é nada legal. Nem essa
papada nesse seu rosto inchado. Nem essa perna fina nessa bunda
murcha…
— Qualquer
dia você explode, pai.
De
fato, Bistecão parecia um tanque de guerra. Não dava dois passos
por conta própria. Aliás, orgulhava-se do seu quadriciclo que
comprara na última viagem a Miami, segunda mão do exército lá dos
americanos. Da casa pro mangueiro, ia de quadriciclo. Levava o
brinquedo na caçamba da caminhoneta nas andanças da fazenda. Para
ir aonde a 4x4 não chegava. Quando moço, ia a cavalo. Mas agora,
aos cinquenta, não conseguia mais montar. Sendo que a máquina
americana era bichareda de boa… não tinha brejo nem capoeira nem
roça nem morro que não passasse. E quando viu a moda da bicicleta
em São Paulo, gostou, comprou uma. Só que motorizada, nada de
bateria — essa porcaria que precisa pedalar…
— Tá
bão! Mas você fuma! E tô desconfiado que cheira, também.
— Eu
fumo e cheiro. Você fuma e bebe.
— Mas
eu como três vezes por dia…
— Você
se empanturra, três vezes por dia — tudo no creme, na nata, no
toucinho... Enquanto eu como folhas, grãos e farinhas.
— Eu
fumo e bebo legal, e como comida de Deus. Você inventa moda, come
comida de fresco e gasta meu dinheiro com farinha…
— Tá
bom, pai, você fuma, bebe, engorda, explora e acumula. Eu fumo,
cheiro, jejuo, trepo e gasto. Bobeira por bobeira, noves fora, zero.
Estamos empatados…
E,
de fato, empatados estavam. O pai, que saíra da fazenda falando
grosso, agora falava manso; a filha, que virara santa uma semana
antes, temendo as comidas de rabo, fazia valer o fator campo jogando
em casa e saía ilesa... Porque cada um voltava pro seu mundo sem
nenhum arranhão. Não sei se a insolência da rica filha era a causa
da preferência do pobre pai...
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