Ia
eu passando vagarosamente por uma espécie de praça-parque da cidade
de São Paulo, onde as pessoas costumam passar e ficar um pouco, às
vezes sentam. Era toda cimentada, com alguns bancos e nenhuma árvore,
boa para a hora da fresca. Havia bastante gente, muitos parados de pé
conversando em grupinhos, outros passando devagar. De repente, alguém
discursou uma frase, para todos ouvirem: “O imposto de renda leva
todo meu salário, bando de parasitas!”. Do outro lado, uma voz de
mulher continuou: “Minha filha teve de fechar a loja, aonde vamos
parar?”. “É tudo culpa desse torneiro mecânico e daquela
guerrilheira”, emendou um quarentão de topete e gravata quase ao
meu lado, enquanto levantava o paletó que segurava numa das mãos.
Alguém lá do outro lado continuou: “É, os nordestinos ainda
estão bem, melhoraram de vida com nosso dinheiro”. “Isso mesmo”,
falou um sujeito magrelo de bigode que estava no centro da praça,
“arrecadavam nossos impostos e mandavam pra lá”. Uma senhora de
óculos redondos que passeava com o cachorrinho de 600g emendou: “A
diária da faxineira ainda está pela hora da morte, graças àquela
safadeza do bolsa-família”. “É o nosso dinheiro sustentando
vagabundo”, ajuntou um velho gordo que se levantou do banquinho só
pra discursar a frase. “Meu filho foi demitido ontem”, falou
raivosa uma mulher cinquentona com cara de séria. “Acabaram com
nosso país”, emendou um cara ainda novo, de camisa branca e
gravata. “É, tudo culpa desses sindicalistas safados”, emendou
um seu colega do grupinho. “Corruptos!”, gritaram em coro duas
gêmeas em minha frente.
Nessa
altura, eu não aguentava mais tanta tucanice. Apenas a transcrição
fria das frases não basta para ter clareza sobre a tucanice delas.
Porque o tucanismo é mais que ideias soltas blandidas em praça
pública: é um modo de ser, de parecer, é um sotaque, um
vocabulário, um comportamento. Somente quem vive aqui no centro do
Tucanistão tem condições de avaliar o tipo pelo ar, de longe,
pelas aparências… porque essa tucanidade que anda na praça junto
com a gente é muito zelosa com o verniz cultural que se auto impregna
para disfarçar o cheiro e a textura da própria pele popular. E se
você chega mais perto e os ouve, descobre que tucano é bom de bico
e mau de mão; sim, porque esse espécime descende de ou almeja a uma
suposta aristocracia perdida, aquela uma escravagista que abominava o
trabalho manual (aliás, esse é um mal que afeta a esquerda em geral
dos países muito desiguais). Evidente que falo da classe média
tucana, aquela que é obrigada a se misturar conosco:
microempresários, delegados de polícia, diretores de escola,
funcionários públicos, médicos, advogados, profissionais liberais
em geral, assessores diversos, mordomos, gerentes de banco… porque
há um contingente nada desprezível de tucanos concentrados em SP
que a gente não cruza nem pra remédio, vivem em outras esferas
inalcançáveis, cujos modos e trejeitos nem faço ideia.
E
a ladainha ia continuar tarde afora, não fora meu talento. Porque já
na segunda frase saquei o presente e o futuro do contexto. E me pus a
batucar uma maneira de interromper o comício. Sem elaborar nada
previamente, me dirigi a um canto da praça, saquei uma banana que
levava no bolso (não aconselho levar banana no bolso, amassa),
deitei no chão para melhor disfarçar, dei uma mordida na banana,
engoli, enchi os pulmões e emendei ao discurso coletivo, da forma
mais audível possível para alguém deitado: “TUCANISTÃO!!”.
Imediatamente estabeleceu-se o silêncio. E comecei a passar mal de
medo; e tive a certeza de ter me lascado quando vi alguém ao meu
lado olhando para o meio da praça e me indicando, deitado comendo
banana. Deitei melhor e fechei os olhos, enquanto ouvia um tropel da
debandada e outro específico que crescia pro meu lado. Então,
recebi um chute na cabeça. Levantei-me sem sentir nenhuma dor. A
praça estava vazia, só eu e meus agressores. O chute acertou em
cheio, sim, mas não na parte sólida, só atingiu a minha vasta
cabeleira. Foi um sonho. Tanto que nem acordei. Ainda vi os três
capangas se afastando prum lado, enquanto eu ia pro outro, todo
pimpão.
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