quarta-feira, 5 de julho de 2017

QUASE APANHEI NO TUCANISTÃO.

Ia eu passando vagarosamente por uma espécie de praça-parque da cidade de São Paulo, onde as pessoas costumam passar e ficar um pouco, às vezes sentam. Era toda cimentada, com alguns bancos e nenhuma árvore, boa para a hora da fresca. Havia bastante gente, muitos parados de pé conversando em grupinhos, outros passando devagar. De repente, alguém discursou uma frase, para todos ouvirem: “O imposto de renda leva todo meu salário, bando de parasitas!”. Do outro lado, uma voz de mulher continuou: “Minha filha teve de fechar a loja, aonde vamos parar?”. “É tudo culpa desse torneiro mecânico e daquela guerrilheira”, emendou um quarentão de topete e gravata quase ao meu lado, enquanto levantava o paletó que segurava numa das mãos. Alguém lá do outro lado continuou: “É, os nordestinos ainda estão bem, melhoraram de vida com nosso dinheiro”. “Isso mesmo”, falou um sujeito magrelo de bigode que estava no centro da praça, “arrecadavam nossos impostos e mandavam pra lá”. Uma senhora de óculos redondos que passeava com o cachorrinho de 600g emendou: “A diária da faxineira ainda está pela hora da morte, graças àquela safadeza do bolsa-família”. “É o nosso dinheiro sustentando vagabundo”, ajuntou um velho gordo que se levantou do banquinho só pra discursar a frase. “Meu filho foi demitido ontem”, falou raivosa uma mulher cinquentona com cara de séria. “Acabaram com nosso país”, emendou um cara ainda novo, de camisa branca e gravata. “É, tudo culpa desses sindicalistas safados”, emendou um seu colega do grupinho. “Corruptos!”, gritaram em coro duas gêmeas em minha frente.

Nessa altura, eu não aguentava mais tanta tucanice. Apenas a transcrição fria das frases não basta para ter clareza sobre a tucanice delas. Porque o tucanismo é mais que ideias soltas blandidas em praça pública: é um modo de ser, de parecer, é um sotaque, um vocabulário, um comportamento. Somente quem vive aqui no centro do Tucanistão tem condições de avaliar o tipo pelo ar, de longe, pelas aparências… porque essa tucanidade que anda na praça junto com a gente é muito zelosa com o verniz cultural que se auto impregna para disfarçar o cheiro e a textura da própria pele popular. E se você chega mais perto e os ouve, descobre que tucano é bom de bico e mau de mão; sim, porque esse espécime descende de ou almeja a uma suposta aristocracia perdida, aquela uma escravagista que abominava o trabalho manual (aliás, esse é um mal que afeta a esquerda em geral dos países muito desiguais). Evidente que falo da classe média tucana, aquela que é obrigada a se misturar conosco: microempresários, delegados de polícia, diretores de escola, funcionários públicos, médicos, advogados, profissionais liberais em geral, assessores diversos, mordomos, gerentes de banco… porque há um contingente nada desprezível de tucanos concentrados em SP que a gente não cruza nem pra remédio, vivem em outras esferas inalcançáveis, cujos modos e trejeitos nem faço ideia.


E a ladainha ia continuar tarde afora, não fora meu talento. Porque já na segunda frase saquei o presente e o futuro do contexto. E me pus a batucar uma maneira de interromper o comício. Sem elaborar nada previamente, me dirigi a um canto da praça, saquei uma banana que levava no bolso (não aconselho levar banana no bolso, amassa), deitei no chão para melhor disfarçar, dei uma mordida na banana, engoli, enchi os pulmões e emendei ao discurso coletivo, da forma mais audível possível para alguém deitado: “TUCANISTÃO!!”. Imediatamente estabeleceu-se o silêncio. E comecei a passar mal de medo; e tive a certeza de ter me lascado quando vi alguém ao meu lado olhando para o meio da praça e me indicando, deitado comendo banana. Deitei melhor e fechei os olhos, enquanto ouvia um tropel da debandada e outro específico que crescia pro meu lado. Então, recebi um chute na cabeça. Levantei-me sem sentir nenhuma dor. A praça estava vazia, só eu e meus agressores. O chute acertou em cheio, sim, mas não na parte sólida, só atingiu a minha vasta cabeleira. Foi um sonho. Tanto que nem acordei. Ainda vi os três capangas se afastando prum lado, enquanto eu ia pro outro, todo pimpão.

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