Ainda
bem que o tampo era de granito, podia quicar com o garfo à vontade
que não estragava, o garfo como se fora o tridente, ela como a
diaba, as formiguinhas as danadas. A estrutura da mesa era de
madeira, mas o tampo era de granito, pedra dura, indestrutível às
manias da mulher, que sempre que acabava de comer ficava caçando as
formiguinhas inacabáveis que surgiam não sei de onde, quicando o tetradente sobre as pecadoras, pegasse, pegasse, coisa
sádica, as pobres formiguinhas inconscientes do terrível monstro e
sua ferramenta metálica que vinha do céu, quer dizer, de cima,
guiada pelos olhos atentos da mulher, que ficava naquele toc toc
quase automático, enquanto conversava com o marido sobre a mostra do
MASP, a última do prefeito, a nova canção do Chico disponível no
Youtube… nisso, João, o marido, desafinou completamente do assunto
pedindo ríspido para ela parar com aquela batucada na mesa, que
ninguém aguentava aquilo, que enchia o saco, que era insuportável…
Maria
não só parou, como gelou. É, gelou, sabe aquela onda, acho que
elétrica, que percorre nosso corpo quando entramos debaixo de uma
ducha de água fria? Só que lenta, imperceptível, por isso mais
letal, porque completa todo o circuito dando tempo ao cérebro de
acompanhar as alterações, até fechar, na boca do estômago, sob a
forma de um esmagamento interno. Aquela onda que esfria e, em
seguida, esquenta, fazendo o sangue afluir à superfície daquilo que
temos de mais escancarado, que são as nossas faces, mas não somente
as faces e sim toda a cabeça, os vasos todos, os mais recônditos
dos mais insignificantes escaninhos do cérebro, um fenômeno tão
brusco e tão intenso que, vira e mexe, explode e derrama e desarruma
a vida do vivente.
Mas
Maria não explodiu não, quer dizer, seus vasos, sua aorta, seu
miocárdio aguentaram o tranco. Mas sua paciência danou-se:
puta-que-pariu, João, como você é fraco! Que saco minúsculo que
você tem! Já tô cansada da quantidade de minúsculas coisas e
fatos que você não aguenta. Caralho, nunca vi um saco tão raso
quanto o seu, que se enche tão rápido de coisas pequenas. Porra! A
gente tava conversando numa boa, elevados assuntos, de repente você
corta, impossível retomar, cê não percebe? Isso é broxante, meu!
Você já se deu conta das inúmeras vezes que faz isso comigo? É o
jeito que estendo a toalha, o pentelho que deixo no sabonete, a
janela que deixo semiaberta, um pronome esquecido, uma opinião que
atravesso, uma torneira pingando… sempre em meio a uma conversa
decente, até no meio da trepada você desafina com algum conceito
intransigente, ainda bem que sou mulher, porque se fosse homem o pau
amolecia na hora, coisa rapidíssima, já disse, é broxante,
broxante para a alma…
Ora,
você quer que eu engula, retrucou o João, quer que eu aguente
calado esses seus pequenos gestos deselegantes? É feio batucar a
mesa após as refeições, estou te fazendo um favor, te ajudando a
educar-se, refinar-se… e você sabe que não faço por mal, é o
meu jeito, tem coisa que não suporto, falo…
Fala
e me esfria, responde Maria. Não, me gela. Não suporta, não
tolera, não aguenta… Quando a gente não suporta, não tolera, a
gente reclama mesmo, explode, senão não seria insuportável,
intolerável. Intolerável é o que nos faz deixar de tolerar. O que
acontece — continuou a Maria, terrivelmente calma — é que você
deixa de tolerar minhas muitas e ínfimas idiossincrasias, pequenas
manias que todos temos. Se você não aguenta permanecer calado
diante de algum gesto meu que te desagrade, tem de se manifestar
mesmo, denunciar. Até aí tudo bem. O problema é o seu nível de
tolerância, cara, que pode ser alto pra sua mãe, mas é baixo
demais pra mim. Sendo que já tenho 40 anos e mais nenhuma vontade de
corrigir esses pequenos defeitos.
Você
é intolerante demais, meu! E eu também já tô de sacola cheia. Acho que já adquiri o direito de te mandar à puta que te pariu, assim a gente se entende.
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