domingo, 30 de julho de 2017

QUEM TOLERA ISSO?

Ainda bem que o tampo era de granito, podia quicar com o garfo à vontade que não estragava, o garfo como se fora o tridente, ela como a diaba, as formiguinhas as danadas. A estrutura da mesa era de madeira, mas o tampo era de granito, pedra dura, indestrutível às manias da mulher, que sempre que acabava de comer ficava caçando as formiguinhas inacabáveis que surgiam não sei de onde, quicando o tetradente sobre as pecadoras, pegasse, pegasse, coisa sádica, as pobres formiguinhas inconscientes do terrível monstro e sua ferramenta metálica que vinha do céu, quer dizer, de cima, guiada pelos olhos atentos da mulher, que ficava naquele toc toc quase automático, enquanto conversava com o marido sobre a mostra do MASP, a última do prefeito, a nova canção do Chico disponível no Youtube… nisso, João, o marido, desafinou completamente do assunto pedindo ríspido para ela parar com aquela batucada na mesa, que ninguém aguentava aquilo, que enchia o saco, que era insuportável…
Maria não só parou, como gelou. É, gelou, sabe aquela onda, acho que elétrica, que percorre nosso corpo quando entramos debaixo de uma ducha de água fria? Só que lenta, imperceptível, por isso mais letal, porque completa todo o circuito dando tempo ao cérebro de acompanhar as alterações, até fechar, na boca do estômago, sob a forma de um esmagamento interno. Aquela onda que esfria e, em seguida, esquenta, fazendo o sangue afluir à superfície daquilo que temos de mais escancarado, que são as nossas faces, mas não somente as faces e sim toda a cabeça, os vasos todos, os mais recônditos dos mais insignificantes escaninhos do cérebro, um fenômeno tão brusco e tão intenso que, vira e mexe, explode e derrama e desarruma a vida do vivente.
Mas Maria não explodiu não, quer dizer, seus vasos, sua aorta, seu miocárdio aguentaram o tranco. Mas sua paciência danou-se: puta-que-pariu, João, como você é fraco! Que saco minúsculo que você tem! Já tô cansada da quantidade de minúsculas coisas e fatos que você não aguenta. Caralho, nunca vi um saco tão raso quanto o seu, que se enche tão rápido de coisas pequenas. Porra! A gente tava conversando numa boa, elevados assuntos, de repente você corta, impossível retomar, cê não percebe? Isso é broxante, meu! Você já se deu conta das inúmeras vezes que faz isso comigo? É o jeito que estendo a toalha, o pentelho que deixo no sabonete, a janela que deixo semiaberta, um pronome esquecido, uma opinião que atravesso, uma torneira pingando… sempre em meio a uma conversa decente, até no meio da trepada você desafina com algum conceito intransigente, ainda bem que sou mulher, porque se fosse homem o pau amolecia na hora, coisa rapidíssima, já disse, é broxante, broxante para a alma…
Ora, você quer que eu engula, retrucou o João, quer que eu aguente calado esses seus pequenos gestos deselegantes? É feio batucar a mesa após as refeições, estou te fazendo um favor, te ajudando a educar-se, refinar-se… e você sabe que não faço por mal, é o meu jeito, tem coisa que não suporto, falo…
Fala e me esfria, responde Maria. Não, me gela. Não suporta, não tolera, não aguenta… Quando a gente não suporta, não tolera, a gente reclama mesmo, explode, senão não seria insuportável, intolerável. Intolerável é o que nos faz deixar de tolerar. O que acontece — continuou a Maria, terrivelmente calma — é que você deixa de tolerar minhas muitas e ínfimas idiossincrasias, pequenas manias que todos temos. Se você não aguenta permanecer calado diante de algum gesto meu que te desagrade, tem de se manifestar mesmo, denunciar. Até aí tudo bem. O problema é o seu nível de tolerância, cara, que pode ser alto pra sua mãe, mas é baixo demais pra mim. Sendo que já tenho 40 anos e mais nenhuma vontade de corrigir esses pequenos defeitos.
Você é intolerante demais, meu! E eu também já tô de sacola cheia. Acho que já adquiri o direito de te mandar à puta que te pariu, assim  a gente se entende.

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