terça-feira, 18 de julho de 2017

SAUDADE DA BICY.

          Levaram a Bicy hoje cedo e já estou com saudade. É claro que não me pediram, nem me avisaram. Antes, esperaram eu chegar ao outro extremo da volta de 1500 metros, atrás do arvoredo, o ponto mais distante dela. Melhor assim, sabiam que eu não concordaria, que faria escândalo. Sensíveis, evitaram meu sofrimento maior.
          Ela tava nova ainda, esbelta, tudo em cima. Cismava com minhas segundas intenções, outras viagens quilométricas. Toda hora vivia rangendo os percalços da nossa viagem à foz do Rio Grande, sugerindo novas travessias. A gente sempre se deu bem. Claro que ela não era santa. Sim, admito, tinha um gênio ruim. No dia que entrei numa loja e fiquei olhando mais demorado para uma quadro 21, na volta, ela deu um pinote, me jogou lá em cima e me viu cair em sua frente, sem mover um raio. Saiu ilesa e me deixou com 10 costelas quebradas.
          Mas ela tinha razão. Cheguei até a passar a mão na quadro 21… De minha parte, tudo bem, não fiquei com rancor. Ao contrário, logo que voltei dos três dias internado, já dei uma voltinha nela, que permaneceu muda, embora satisfeita com a minha rápida recuperação, tenho certeza.
          Então, já era usada, mas estava em forma, era bem cuidada. No início do nosso relacionamento, pensei que não ia dar certo. Ela era pequena pra mim, quadro 19. Mas estiquei o canote o máximo e ficou na medida. A gente se encaixava direitinho, era uma felicidade. Com a vantagem de que eu podia chamá-la de minha pequena, sem agredir os fatos.
          Agora vou arranjar uma quadro 21, porque não posso ficar sozinho. Mas já estou prevendo problemas. Porque, pensando bem, prefiro as pequenas. E uma 21 é grande. Não estou acostumado com uma parceira enorme, cheia de vontades. A Bicy era simples, barata, e me respeitava…Vai ser trabalhoso acomodar essa grandona nos bagageiros dos ônibus...
          Quer dizer, respeito era o que eu gostava. Mas, às vezes, ela me aprontava: como quando demorei pra trocar os pneus e ela me deixou a pé, subindo a Rebouças. Tenho certeza que foi birra dela, porque no pneu havia um simples grampinho, desses de grampeador vagabundo. Sim, sabia ser caprichosa, mas ela fazia por merecer porque, afinal, me dava o que realmente importa: prazer.
          Ainda mais depois que a deixei nos trinques, com pneus novos, raios de aço inoxidável, movimento central selado. E um bagageiro na garupa dos mais charmosos e leves. E como era discreta! Deslizava sibilina, feito uma gata, tocando o mínimo no chão, com seus pneus 38C. Sendo mulher, seria corredora e dançarina. Até a corrente, que andava seca ultimamente, eu havia engraxado semana passada.
          Tudo bem, eu tinha consciência da inveja que sua posse despertava nos outros homens. Bola pra frente. E mais: espero que seja feliz nas mãos de outro. Se ela for generosa com esse outro, como foi comigo, tenho certeza que vai dar certo, por mais brutamontes que seja o tal. Da parte dela não haverá problemas, ia bem com todo mundo, a safada. Considerando a iniquidade reinante, ficou barato.

          Enfim, como já deixei claro acima, ela formava um conjunto gracioso e ainda tinha uma vida inteira pela frente. Tinha não, tem. Pra ajudar o novo casal, prometo não ir atrás, esquecer. Espero que não a esquartejem. 

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