‘Tav’aqui pensando, eu, com a
minha violinha… (a bênção, Almir Sater): Deus não existe sem o
Diabo. Porque, como cêis sabem, o Diabo é a fraqueza, a ignorância,
a doença, a solidão, a desesperança. Qual cidadão iria procurar
Deus se não houvesse essas desgraceiras?
Já ia eu falando na infinita
bondade de Deus, mas isso é conversa. Porque Deus sabe ser mau.
Experimenta pisar na bola, pra ver o que acontece. Então, essa
estória de infinita bondade é conversa. Deus é apenas — apenas!
— poderoso. Todo-poderoso. Onipotente!
Bem, essa onipotência toda
também não é tanto assim não, senão não precisaríamos temer o
Diabo. Se Deus fosse tão poderoso assim e tão bom assim, como dizem
seus propagandistas, nós, seus filhos e filhas, estaríamos no
bem-bom, não precisaríamos ficar nessa correria toda, fazendo o
pelo-sinal-da-santa-cruz na frente de toda igreja, após todo chute
em que a bola passa raspando…
E aquela estória da onisciência
de Deus? Se ele realmente soubesse esse tanto todo, por que exige que
confessemos nossos pecados? Porque um cara onisciente está lá,
acolá, aqui dentro do meu sistema neurológico… Era só eu bater o
olho na vizinha do 46 e, pimba! Um a zero pra ele, lá no seu
onisciencial.
Mas não. Para que Ele fique
sabendo, meu pecado precisa transpor o milenar e infernal sistema
hierárquico católico. Eu conto ao padre, o padre conta ao bispo, o
bispo ao arcebispo, que conta ao papa, que conta pra Deus. Porque o
papa é o único terráqueo que tem ligação direta com Deus.
Quer dizer, essa expressão
“único terráqueo” é um vício deste cidadão forjado na
cultura branco-europeica. Mas, sem dúvida, nesse mundo ocidental
branco e europeu, o papa é o único que tem ligação direta com
Deus. Senão, como explicar sua monarquia absoluta, duzentos anos pós
Robespierre? Entra milênio, sai milênio, e seu reinado permanece
firme e absoluto.
Senão, como explicar a relativa
rapidez e eficiência da chegada dos nossos pecados aos ouvidos de
Deus? Ora, o padre, o bispo, o arcebispo, sabem, afinal, que na ponta
da burocracia está Ele. Então não ficam enrolando, não engavetam,
não assinam o ponto e vão tomar café no boteco, passam pra frente
tudo rapidinho, sob pena de exaltar a ira divina.
Outra coisa que faz essa enorme e
intrincada — mas leve — hierarquia absolutista funcional é o
peso dos pecados. Porque, diferente de quando a gente faz uma
caridade ou conta um segredo, na confissão dos pecados nós
transferimos todo o peso deles — cem por cento — ao padre.
Quando fazemos caridade,
dividimos a culpa: transferimos metade dela para o beneficiário e
mantemos a outra metade. O mesmo ocorre quando contamos um segredo a
alguém: se for algo bom, compartilhamos a alegria; se for uma
maledicência, dividimos o rancor. Mas quando confessamos os pecados
não dividimos nada: transferimos tudo, ficamos leves(e o padre fica
pesado, por isso transfere logo...).
É verdade, tenho experiência.
Até os 13 anos, eu confessava regularmente meus pecados ao padre.
Saía realmente leve (se é que isso fosse possível para aquele
magrelo rsrs). Depois que virei hômi, criei juízo e não pequei
mais, daí porque não tive mais necessidade de comparecer ao
confessionário.
Aliás, deve ser por isso que a
Igreja não admite mulheres pastoras. Primeiro, porque elas aguentam
muito mais o peso dos pecados alheios: demorariam pra repassar,
atravancariam a burocracia; segundo, que elas são muito mais
sofisticadas, criativas, repassariam parte desses pecados alheios às
respectivas vizinhas e amigas, pra compensar eventuais atrasos.
Ora, administrar homens, esses
seres primários, é muito mais fácil, Deus sabe disso. Deus sabe
quanto o Cristianismo é responsável pelo machismo…
Quanto aos delatores, Deus não
gosta: devolve-lhes em dobro o peso do malfeito dedado. Tudo para
fazer desaforo ao seu Inimigo. Porque dedo-duro é filho do Diabo.
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