segunda-feira, 10 de julho de 2017

PADRE, PAPA, PATRIARCADO. E DELATOR.

Tav’aqui pensando, eu, com a minha violinha… (a bênção, Almir Sater): Deus não existe sem o Diabo. Porque, como cêis sabem, o Diabo é a fraqueza, a ignorância, a doença, a solidão, a desesperança. Qual cidadão iria procurar Deus se não houvesse essas desgraceiras?
Já ia eu falando na infinita bondade de Deus, mas isso é conversa. Porque Deus sabe ser mau. Experimenta pisar na bola, pra ver o que acontece. Então, essa estória de infinita bondade é conversa. Deus é apenas — apenas! — poderoso. Todo-poderoso. Onipotente!
Bem, essa onipotência toda também não é tanto assim não, senão não precisaríamos temer o Diabo. Se Deus fosse tão poderoso assim e tão bom assim, como dizem seus propagandistas, nós, seus filhos e filhas, estaríamos no bem-bom, não precisaríamos ficar nessa correria toda, fazendo o pelo-sinal-da-santa-cruz na frente de toda igreja, após todo chute em que a bola passa raspando…
E aquela estória da onisciência de Deus? Se ele realmente soubesse esse tanto todo, por que exige que confessemos nossos pecados? Porque um cara onisciente está lá, acolá, aqui dentro do meu sistema neurológico… Era só eu bater o olho na vizinha do 46 e, pimba! Um a zero pra ele, lá no seu onisciencial.
Mas não. Para que Ele fique sabendo, meu pecado precisa transpor o milenar e infernal sistema hierárquico católico. Eu conto ao padre, o padre conta ao bispo, o bispo ao arcebispo, que conta ao papa, que conta pra Deus. Porque o papa é o único terráqueo que tem ligação direta com Deus.
Quer dizer, essa expressão “único terráqueo” é um vício deste cidadão forjado na cultura branco-europeica. Mas, sem dúvida, nesse mundo ocidental branco e europeu, o papa é o único que tem ligação direta com Deus. Senão, como explicar sua monarquia absoluta, duzentos anos pós Robespierre? Entra milênio, sai milênio, e seu reinado permanece firme e absoluto.
Senão, como explicar a relativa rapidez e eficiência da chegada dos nossos pecados aos ouvidos de Deus? Ora, o padre, o bispo, o arcebispo, sabem, afinal, que na ponta da burocracia está Ele. Então não ficam enrolando, não engavetam, não assinam o ponto e vão tomar café no boteco, passam pra frente tudo rapidinho, sob pena de exaltar a ira divina.
Outra coisa que faz essa enorme e intrincada — mas leve — hierarquia absolutista funcional é o peso dos pecados. Porque, diferente de quando a gente faz uma caridade ou conta um segredo, na confissão dos pecados nós transferimos todo o peso deles — cem por cento — ao padre.
Quando fazemos caridade, dividimos a culpa: transferimos metade dela para o beneficiário e mantemos a outra metade. O mesmo ocorre quando contamos um segredo a alguém: se for algo bom, compartilhamos a alegria; se for uma maledicência, dividimos o rancor. Mas quando confessamos os pecados não dividimos nada: transferimos tudo, ficamos leves(e o padre fica pesado, por isso transfere logo...).
É verdade, tenho experiência. Até os 13 anos, eu confessava regularmente meus pecados ao padre. Saía realmente leve (se é que isso fosse possível para aquele magrelo rsrs). Depois que virei hômi, criei juízo e não pequei mais, daí porque não tive mais necessidade de comparecer ao confessionário.
Aliás, deve ser por isso que a Igreja não admite mulheres pastoras. Primeiro, porque elas aguentam muito mais o peso dos pecados alheios: demorariam pra repassar, atravancariam a burocracia; segundo, que elas são muito mais sofisticadas, criativas, repassariam parte desses pecados alheios às respectivas vizinhas e amigas, pra compensar eventuais atrasos.
Ora, administrar homens, esses seres primários, é muito mais fácil, Deus sabe disso. Deus sabe quanto o Cristianismo é responsável pelo machismo…

Quanto aos delatores, Deus não gosta: devolve-lhes em dobro o peso do malfeito dedado. Tudo para fazer desaforo ao seu Inimigo. Porque dedo-duro é filho do Diabo.   

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