A
arrogância é um subproduto da autoestima. A autoestima é o sal da
terra: ninguém vive por muito tempo sem autoestima. A vida boa
consiste em gostar de si próprio. Você é feliz quando você gosta
de você. Então, é difícil escapar desse subproduto, porque todo
mundo se gosta. Da mesma forma que o narcisista, a paisagem que o
arrogante mais gosta é o espelho. A própria imagem, os próprios
atos. Tudo que ele pesquisa e aprende é para outras coisas que não
clarear as próprias ideias. Ao final, sua vida é uma sucessão de
trejeitos.
Pense
num fiel saindo da missa, após deixar seus pecados com o padre.
Limpo e leve, passa na frente dum boteco e vê três amigos jogando
palitinho e tomando cerveja e dando gargalhada. É claro que ele
lamenta a inocência dos amigos, tão ingênuos, tão bobos a ponto
de não perceberem que, quando Jesus voltar, estarão no mato sem
cachorro. Perceberam que a arrogância pode estar logo ali, pertinho
da ingenuidade?
A
arrogância é a desclassificação do outro. Arrogância e desprezo
andam juntos. A arrogância é o produto da ausência de empatia. A
arrogância é a primazia do eu. Mas há a arrogância inocente: a
moça, já velha, acorda em meio à borrasca e vê a TV e pensa que
viu a uva. E me pergunta por que, sendo um sujeito tão inteligente,
continuo votando nos candidatos do partido condenado. Me chama de
burro assim, na cara dura. Ou será que ela me chamou de ladrão?
Arrogante
é o ateu, que debocha do crente. É o estudante da USP, que debocha
do estudante da UNISSETE. O cara de exatas, que despreza o de
humanas. Um citadino, que torce o nariz para quem mora na roça. E
tudo vice-versa. Os confrontos entre paulistas e cariocas, cearenses
e pernambucanos, brasileiros e argentinos: todos decorrentes da
arrogância generalizada de uns e outros.
Compreende-se
mais a arrogância de um jovem do que a de um velho. O jovem está
chegando agora, deslumbrando-se com as primeiras descobertas, sempre
julgando-as definitivas. Mas o velho não tem perdão.
A
arrogância ideológica seria cômica, se não fosse trágica. E
perigosa (porque pode resultar em fascismo, por exemplo). Mas, duro
de amar Teresa, é a arrogância cultural. O cara da bossa-nova que
detesta rock, a música carioca versus a música caipira, a Escola de
Frankfurt contra a Escola de Chicago. Porque o arrogante não é nada
eclético.
Há
a arrogância institucionalizada. É aquela decorrente da carreira
acadêmica. Um doutor é, por definição, um arrogante em seu
assunto. Haveria perdão, se, ao menos, ele se interessasse por
outros assuntos… Ao contrário dos iluminados, o arrogante é
aquele que iluminou a luz. Cuidado, ele queima!
Arrogância
e intolerância e ignorância têm muito mais em comum que a rima.
Outra
difícil de digerir é a arrogância linguística. Essas normas
todas, essa coisa de certo e errado, esses gurus que aparecem na TV
explorando a fraqueza da gramática alheia. Críticos literários sob encomenda…
Agora, insuportável é um cronista, que, para ser cronista, precisa
parecer arrogante. Entenderam a sutileza? Da arrogância do dono: da
fábrica, da fazenda e da bola. E da crônica.
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