sábado, 22 de julho de 2017

DA ARROGÂNCIA.

A arrogância é um subproduto da autoestima. A autoestima é o sal da terra: ninguém vive por muito tempo sem autoestima. A vida boa consiste em gostar de si próprio. Você é feliz quando você gosta de você. Então, é difícil escapar desse subproduto, porque todo mundo se gosta. Da mesma forma que o narcisista, a paisagem que o arrogante mais gosta é o espelho. A própria imagem, os próprios atos. Tudo que ele pesquisa e aprende é para outras coisas que não clarear as próprias ideias. Ao final, sua vida é uma sucessão de trejeitos.
Pense num fiel saindo da missa, após deixar seus pecados com o padre. Limpo e leve, passa na frente dum boteco e vê três amigos jogando palitinho e tomando cerveja e dando gargalhada. É claro que ele lamenta a inocência dos amigos, tão ingênuos, tão bobos a ponto de não perceberem que, quando Jesus voltar, estarão no mato sem cachorro. Perceberam que a arrogância pode estar logo ali, pertinho da ingenuidade?
A arrogância é a desclassificação do outro. Arrogância e desprezo andam juntos. A arrogância é o produto da ausência de empatia. A arrogância é a primazia do eu. Mas há a arrogância inocente: a moça, já velha, acorda em meio à borrasca e vê a TV e pensa que viu a uva. E me pergunta por que, sendo um sujeito tão inteligente, continuo votando nos candidatos do partido condenado. Me chama de burro assim, na cara dura. Ou será que ela me chamou de ladrão?
Arrogante é o ateu, que debocha do crente. É o estudante da USP, que debocha do estudante da UNISSETE. O cara de exatas, que despreza o de humanas. Um citadino, que torce o nariz para quem mora na roça. E tudo vice-versa. Os confrontos entre paulistas e cariocas, cearenses e pernambucanos, brasileiros e argentinos: todos decorrentes da arrogância generalizada de uns e outros.
Compreende-se mais a arrogância de um jovem do que a de um velho. O jovem está chegando agora, deslumbrando-se com as primeiras descobertas, sempre julgando-as definitivas. Mas o velho não tem perdão.
A arrogância ideológica seria cômica, se não fosse trágica. E perigosa (porque pode resultar em fascismo, por exemplo). Mas, duro de amar Teresa, é a arrogância cultural. O cara da bossa-nova que detesta rock, a música carioca versus a música caipira, a Escola de Frankfurt contra a Escola de Chicago. Porque o arrogante não é nada eclético.
Há a arrogância institucionalizada. É aquela decorrente da carreira acadêmica. Um doutor é, por definição, um arrogante em seu assunto. Haveria perdão, se, ao menos, ele se interessasse por outros assuntos… Ao contrário dos iluminados, o arrogante é aquele que iluminou a luz. Cuidado, ele queima!
Arrogância e intolerância e ignorância têm muito mais em comum que a rima.

Outra difícil de digerir é a arrogância linguística. Essas normas todas, essa coisa de certo e errado, esses gurus que aparecem na TV explorando a fraqueza da gramática alheia. Críticos literários sob encomenda… Agora, insuportável é um cronista, que, para ser cronista, precisa parecer arrogante. Entenderam a sutileza? Da arrogância do dono: da fábrica, da fazenda e da bola. E da crônica. 

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