segunda-feira, 17 de julho de 2017

ESMOLA PRA CUECA.

Destrancava a Bicy pra voltar pra casa, após os 10Km no parque, quando o sujeito chegou e me pediu dinheiro pra comprar uma cueca. Estou acostumado a receber pedidos de dinheiro pra completar a passagem, pra comprar um pastel, até pra comprar pinga, mas pra comprar cueca foi a primeira vez. Em minha megalomaníaca mania de exclusividade, creio que nenhum dos meus milhões de leitores jamais foi abordado na via pública por um mendigo pedindo dinheiro pra comprar cueca. Vai ver, estou muito desavisado, essa é a nova moda na cadeia produtiva da esmola…
Sou do tempo em que nenhum pedinte ousava pedir, senão pra alimentar seus filhinhos, que, para maior credibilidade, levava consigo no seu esmolar. Depois foram-se modernizando, deixavam os filhinhos em casa. Sequer ousavam pedir para si próprios, saudáveis que estavam, em pé, ali em nossa frente. Pedir roupas para vestir os filhinhos era uma modalidade concomitante à de pedir alimentos. Depois veio a moda do passe de ônibus, do ticket do almoço e, mais recentemente, dado o esgotamento dos argumentos elementares de comer, vestir, ir e vir, almoçar, surgiu um ramo ousado que pede dinheiro pra comprar pinga.
O cidadão está parado em seu carro, esperando o farol abrir, e vê o pedinte se aproximar. Já se prepara para negar e, na bucha, desancar o pobre: “vai trabalhar vagabundo, para de gastar o dinheiro com droga e compre coisa de comer”. Mas aí o drogado vagabundo pede dinheiro, exatamente, pra comprar droga. Claro, a droga legal nossa conhecida, nunca citada na TV, a famosa cachaça… O cidadão moralista é pego no contrapé e, não raro, invadido por uma fugaz simpatia, que passa rápido mas não o suficiente para ele continuar negando; contribui com o pedinte ousado, justificando-se que, afinal, era um pedinte sincero. (já perceberam como os necessitados preferem os cidadãos imóveis em seus bólidos? É que é nessa situação que nossa consciência fica mais pesada...).
Há dois tipos de pedintes: aqueles que pedem dinheiro pra comprar determinado produto e aqueles que pedem o próprio produto. Os mais experientes e bem-sucedidos nunca pedem dinheiro: pedem sempre o produto. Alguns mais sofisticados pedem para o cidadão comprar o produto, que sempre está à venda ali por perto. Entretanto, nenhum — NENHUM — pedinte gosta de receber produtos em espécie, muito menos alimentos e roupas. Também não gostam de atenção e carinho. Em geral, os pedintes odeiam aquelas senhoras piedosas que os abordam dando conselhos, querendo ajudar… Todo pedinte quer mesmo é receber dinheiro vivo. Contudo, nós cidadãos achamos insolentes os pedintes que nos pedem dinheiro vivo. É por isso que os pedintes experientes pedem o produto, contando com nossa aversão em pôr a mão na massa e, assim, sacarmos logo 2 ou 5 reais e nos livrarmos logo daquele incômodo… Outra coisa que pedinte pede é moeda. Não acredite, todo pedinte odeia moedas.
Mas o rapaz do parque subvertia toda minha teoria da esmola. Tudo bem que ele estava molambento, roupa suja, tênis desbeiçado, cabelos e barbas desgrenhados, mas andava ereto, me olhava nos olhos, me pedia dinheiro pra comprar uma cueca. Primeiro, que uma cueca custa algo mais que os 2 ou 5 reais de praxe. Segundo, que cueca não se come e, quer saber, nem é tão imprescindível assim. Passadas 24 horas, creio que se tratava de um agente avançado testando uma nova tática de abordagem para dinamizar a linha de produção... Ou então, foi chegando, me viu, mediu, sacou que eu era invencível pelos métodos normais. Meus óculos escuros me faziam distante e refratário e minha carga de endorfina me fazia autossuficiente. Como todo bom vendedor, resolveu ousar, ciente e já conformado com a baixa taxa de retorno. Uma negativa a mais, uma esculhambação a mais… Sim, ele me pegou no contrapé: eu não portava sequer documentos, que dirá dinheiro e cueca. Enfim, o golpe de misericórdia: “Estou com a mesma cueca faz 15 dias”, me disse ele, coçando o saco.

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