segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

SOU DE HUMANAS

(Aliviado, tive a impressão que ele babava, quando entrou no carro)

     Não gosto da expressão 'sou de humanas'. Prefiro 'sou humanista'. Até porque, um humanista pode ser de exatas. Alguém que saiba gramática e goste de matemática só pode ser um cara legal. Gosto dos ecléticos, mas desconfio dos ecumênicos. Quanto aos ortodoxos, dia desses enfrentei um.

     Perambulava pela garagem do condomínio quando vi uma bicicleta com três cadeados. Um deles prendia um cabo que passava pela roda da frente e se enroscava pelo garfo e o guidão; um outro prendia outro cabo que segurava a roda traseira, a corrente e o selim; e o outro prendia uma corrente grossa que amarrava a bicicleta à coluna do prédio. Por coincidência, enquanto eu olhava, chegou o dono da vaga. Acho que ia trabalhar, vestia traje social completo e rigoroso, cabelo sem nenhum fio fora do lugar, barba escanhoada, parecia que ia para o próprio casamento, como diria meu avô. Conheço-o pouco, sei que é muito religioso, tem mais ou menos a minha idade e altura e uns 40 quilos a mais. Eu estava indignado com a quantidade de cadeados da bici mas, ao contrário do que fiz com a ciclista desavisada da Rafael de Barros, com quem dialoguei algum tempo atrás, preferi com esse, por prudência, dialogar só na ficção:

— Pô, meu! Três trancas?! — indaguei, olhando pra ele com firmeza e estendendo a mão espalmada no rumo da bici, como se tivesse acabado de lançar milho aos pombos.

— É, prevenção. Há muito roubo de bike — respondeu ele, surpreso com minha atrevida abordagem.
— Mas precisava três cadeados? — continuei.

— Eu poderia usar uma corrente maior que prendesse todos os itens juntamente com a coluna e usar apenas um cadeado, mas tem bandido que consegue abrir cadeado. Com três, ele desanima e vai numa bike mais desprotegida — respondeu ele, deixando-me atônito, porque vi que ele estava induzindo e direcionando o 'bandido' para a minha doce Bicy, que fica ali perto, totalmente livre. Mas não acusei o golpe e continuei:

— Mas aqui é área interna, só passam os moradores do prédio. Você acha que tem bandido morando no prédio?

— O prédio é grande, nunca se sabe...

— Quer dizer que todos nós somos suspeitos? inquiri-o, firme, mas calmo.

— Não é bem assim... é que eu prefiro orar e vigiar — respondeu ele, meio sem graça.

— Que  o  senhor  vigia, estou  vendo. Mas  não  sabia que o senhor orava  — respondi meio sarcástico.

— Oro sim. Sou crente metodista kardecista católico ortodoxo do opus dei — informou-me ele, sentindo-se revigorado. E antes que eu continuasse com meu sarcasmo, continuou ele:
— Ajudo a servir a hóstia aos domingos e distribuo sopa toda quarta aos mendigos da Praça da Sé —  me revigorando na contenda, com tal resposta. Primeiro pensei que meu interlocutor era uma espécie de compadre Quelemém do Riobaldo, para depois retrucar:

— Tô entendendo. O senhor carrega dentro de si desconfiança e culpa. Aliás, é a culpa que leva à desconfiança e à benemerência. O senhor tem muita fé em Deus e nenhuma fé na Humanidade.

— Alto lá — retrucou ele — cumpro todas as leis e faço caridade. Tenho a consciência tranquila — me dirigindo um olhar desafiador. Então eu vi os dois carrões enormes em sua vaga dupla e arrisquei:

— O senhor não tem nenhuma multa de trânsito? Nunca fez gambiarra no Imposto de Renda?

— Peraí!! O senhor está me desrespeitando! — ameaçou ele.

— O senhor me desrespeitou primeiro.

— Como assim?
— Suspeitou que eu pudesse roubar sua bicicleta.

— Quando eu disse isso?

— Lá no começo da nossa conversa. Mais que suspeito, o senhor me considera culpado. Para o senhor, todos somos culpados, até prova em contrário.

— Só Cristo salva — retrucou ele, apoplético, com as veias do pescoço estufadas e os olhos arregalados e vermelho como um tomate, em posição de enfrentar e expulsar o Satanás. Então respondi, num tom mais baixo, para conter as labaredas:

— Acabo de entender o sentido exato dessa frase, que também vejo colada no vidro do seu carro. Na frase, 'Cristo' é objeto. De todos nós vagabundos safados, só Cristo salva. Todos somos culpados, só Cristo não é culpado. O senhor é coerente com suas três trancas... — ao que ele me deixou falando sozinho, após balbuciar algo ininteligível. Aliviado, tive a impressão que ele babava, quando entrou no carro. Saiu cantando os pneus, com seu SUV de três toneladas e três mil e quinhentos cavalos; e blindado, a julgar pelo ronco do motor ao subir a rampa de acesso à rua. Fazer o quê?  Apesar de chato, sei alguma coisa de Sintaxe, com especialização em Trigonometria. Livre-pensar é só pensar, como dizia o Millôr. Se, mais que suspeitos, todos somos culpados, faz sentido a truculência da polícia, a pena de morte, o porte de armas, a ira contra os dos 'direitos humanos', a ausência de democracia... Certamente ele responderia que não tenho Salvação. E é verdade, porque Salvação é um conceito anti-humanista.

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