Xingar a mãe é pecado mortal ou pecado venial? E lembrar da vizinha com pensamentos libidinosos? Xingar a mãe fere o quarto mandamento, mas a mãe é mulher, então creio que é só um pecado venial. Mortal seria xingar o pai. Afinal a Igreja (e quase todas as demais religiões, me parece) considera a mulher muito menos importante do que o homem. Mas nem sempre ela, a Igreja, nos favorece. Por exemplo, o nono mandamento: nós homens não podemos desejar a mulher do próximo; mas as mulheres podem desejar o homem da próxima à vontade. Sim, o que não está escrito não é proibido; junte-se que há um regulamento específico para o sexo oposto (nós homens). Advogo uma constituinte para, dentre outros, revogar tal injustiça. Ou proibir pras mulheres também!
E matar passarinhos é o quê? Venial ou mortal? Acho que é venial, porque o padre Ramon sempre me perdoava, mediante apenas um padre-nosso e três ave-marias (mas o pecado de xingar a mãe ele nunca ficou sabendo que eu cometia, porque nunca confessei, tinha medo, achava que iria passar a tarde inteira ajoelhado e contrito rezando padre-nossos e ave-marias). Só que agora - com essa esquizofrenia próbicho de pagar plano de saúde pro cachorro, fazer enterro do gato, dar nome de gente pra bicharada, conversar com eles, chamá-los de benzinho, querido, chamar de eutanásia ao ato de matar bicho doente -, matar bicho deve ser pecado mortal, à luz do quinto mandamento, frangos e bois e porcos à parte.
Mas a radicalização do virtual é coisa do Cristo, sabiam? Antes, no tempo dos judeus, só era pecado agarrar a mulher do próximo, chegar às vias de fato. Então veio Cristo e disse: nãnãninanão! - Só de pensar você já tá pecando.(porque Cristo era um puro). Mas não precisava radicalizar assim. Veja bem, Meu Senhor: o pensamento não tem cerca. Se a mulher do próximo faz por merecer, fazer o quê? Sendo que esse cidadão libidinoso será incurso também nos pecados da Luxúria e da Inveja. E da Gula. Isso ainda que permaneça a vida inteira lá quietinho, no seu arroz-com-feijão, nunca um mexilhão acebolado, nenhuma bicada fora do cocho. Só que Cristo está mais atual que nunca: todos os conjuges consideram traição o sexo virtual, esse da internet, assim de longe, só pensado. O vilão é o desejo, minha gente!
E essa classificação dos pecados serve pra quê? Pra facilitar a vida do porteiro da morada eterna. Deve haver uma tabela com pontos: o nº de pontos de cada alma determina seu destino: o Céu, o Inferno ou o Purgatório. Mas essa política do catecismo católico sofreu um baque forte com o advento do grande poema do Dante, há uns 600 anos. É que, até então, a capacidade motivadora do Céu sobre o Inferno era inquestionável, uma disputa desigual assim como comparar Vila Mariana com Guaianazes. Aí Dante descreveu direitinho todo aquele mundo além da morte e muita gente descobriu que o Céu é o mais chato dos três tomos. Então saíram pecando consciente e adoidadamente, pra não amargarem aquela pasmaceira eterna.
Peraí. Sério que gostar muito de manjar de maizena com calda de caramelo, coco ralado e ameixa por cima é pecado? Gostar muito da transação carnal rica e variada? É sim. Explico: gostar muito é a mesma coisa que adorar, certo? E Deus não gosta que a gente adore nem odeie nada nem ninguém, exceto Ele. Para as coisas mundanas, devemos ter temperança. Só com Ele devemos ser fanáticos. Isso me lembra as aulas de catecismo, quando eu e meus colegas discutíamos com naturalidade quais os pecados mortais e os veniais, assim como fazíamos, nas aulas de português, com as orações subordinadas sindéticas e assindéticas. Porra, eu tenho temperança com Deus e fanatismo com os pudins...carajo!
* Esta crônica serviu para eu aprender que venial vem de vênia (desculpa, perdão) e não do verbo vender.
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