A MÍSTICA DA INDUMENTÁRIA.
Foi nesta 6ª
f, meio dia, e fazia 33ºC na calçada. O trem parou sozinho na estação Fradique
Coutinho; quer dizer, o trem e nós, passageiros; dizem que aquele trem anda
sozinho... antes de continuar quero dizer que, se eu fosse depender do meu
inglês para minhas viagens internacionais, estava lascado, pois não entendo nem
o locutor da linha amarela falando em inglês... As duas freiras entraram,
pareciam dois urubus, todas de preto, somente as carinhas brancas de fora. E
não sei se elas andavam quicando e meio corcundas ou se foi a minha má
vontade... Duas mulheres, uma jovem, com um sorriso burocrático no rosto e
algumas espinhas e a outra velha. Mulheres brancas é modo de dizer, eis que não
existe gente branca no mundo. Analisando de relance, por cima, os passageiros
do metrô, constatei que só existe duas cores de gente no mundo: os pardos e os
pretos. Os pretos são pretos, não resta dúvida, ali mesmo havia dois homens pretos,
acho que imigrantes africanos. Mas os demais éramos todos pardos, pardos de
infinitas tonalidades, talvez os bebês suecos sejam da cor rosa, não sei, nunca
vi um bebê sueco, mas ali no vagão todos éramos pardos, exceto os dois
africanos.
Em benefício
das freiras, devo explicar que eu estava maleficamente predisposto quando elas
entraram no vagão. Logo na calçada, ao sair do prédio onde moro, encontrei um
padre com seu terno preto impecável, camisa branca, e a indefectível gola
clerical, aquele colarinho que me lembra sufoco. Acho que ele ia a uma escola
ao lado, mantida por uma seita conservadora da Igreja Católica. Cabelo, barba,
tudo estava bem feito demais naquele padre. Aposto que estava cheiroso também. Em
seguida, nas escadarias da estação Brigadeiro da linha verde do metrô, encontrei
um judeu ortodoxo com um chapéu de feltro que me pareceu grande demais, não
combinava com a cabeça pequena e o rosto fino e a pele pálida sob a barba rala;
mas o preto da cabeça aos pés estava perfeito. Para atenuar, encontrei outro
judeu ortodoxo na baldeação da Paulista-Consolação, que ganhou minha simpatia
graças ao último botão de cima da camisa branca aberto no peito: mais jovem,
mais ágil, menos doente; ainda mantinha o rosto arredondado dos jovens, apesar
da terrível barba judaica... Quanto ao cheiro, não sei, mas sempre desconfiei
desses judeus de preto sob nosso sol tropical...
Sobre as
esposas de Cristo, tenho a dizer o seguinte: ouço gente dizendo por aí que
Cristo vai voltar (eu, como homem de boa vontade, estou tranquilo...). Não, não
encontrei nenhum bíblia com seu terno do Mappin nem aquelas mulheres
bem-vestidinhas demais que testemunharam
algo e, em duplas, querem de todas as maneiras nos contar, entregando de porta
em porta uma revistinha editada nos EUA (moro em apartamento); esses costumam
atuar só após o expediente e mais na periferia e não era nem sábado nem domingo.
Aliás, esse povo que anda vociferando Cristo a torto e a direito deve ser um
povinho de muita má vontade para tanta preocupação... Acho besteira essa faina
toda de mostrar serviço, eis que Cristo deve ser muito perspicaz para descobrir
fácil a manha em vez da virtude. Perspicaz, inteligente e informado.
Onipotente! Embora deva haver uma lacuna informativa nessa onipotência: creio
que Cristo não está sabendo de tanta mulher a ele reservadas aqui na Terra. Talvez
saiba, mas não acredita que seus semelhantes chegaram a tanto. Mas, se Cristo
voltar, não tenho dúvidas: a primeira coisa que ele vai atualizar será o hábito
das suas esposas.
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