sábado, 17 de outubro de 2015

Esposas de Cristo:



                            A MÍSTICA DA INDUMENTÁRIA.


     Foi nesta 6ª f, meio dia, e fazia 33ºC na calçada. O trem parou sozinho na estação Fradique Coutinho; quer dizer, o trem e nós, passageiros; dizem que aquele trem anda sozinho... antes de continuar quero dizer que, se eu fosse depender do meu inglês para minhas viagens internacionais, estava lascado, pois não entendo nem o locutor da linha amarela falando em inglês... As duas freiras entraram, pareciam dois urubus, todas de preto, somente as carinhas brancas de fora. E não sei se elas andavam quicando e meio corcundas ou se foi a minha má vontade... Duas mulheres, uma jovem, com um sorriso burocrático no rosto e algumas espinhas e a outra velha. Mulheres brancas é modo de dizer, eis que não existe gente branca no mundo. Analisando de relance, por cima, os passageiros do metrô, constatei que só existe duas cores de gente no mundo: os pardos e os pretos. Os pretos são pretos, não resta dúvida, ali mesmo havia dois homens pretos, acho que imigrantes africanos. Mas os demais éramos todos pardos, pardos de infinitas tonalidades, talvez os bebês suecos sejam da cor rosa, não sei, nunca vi um bebê sueco, mas ali no vagão todos éramos pardos, exceto os dois africanos.

     Em benefício das freiras, devo explicar que eu estava maleficamente predisposto quando elas entraram no vagão. Logo na calçada, ao sair do prédio onde moro, encontrei um padre com seu terno preto impecável, camisa branca, e a indefectível gola clerical, aquele colarinho que me lembra sufoco. Acho que ele ia a uma escola ao lado, mantida por uma seita conservadora da Igreja Católica. Cabelo, barba, tudo estava bem feito demais naquele padre. Aposto que estava cheiroso também. Em seguida, nas escadarias da estação Brigadeiro da linha verde do metrô, encontrei um judeu ortodoxo com um chapéu de feltro que me pareceu grande demais, não combinava com a cabeça pequena e o rosto fino e a pele pálida sob a barba rala; mas o preto da cabeça aos pés estava perfeito. Para atenuar, encontrei outro judeu ortodoxo na baldeação da Paulista-Consolação, que ganhou minha simpatia graças ao último botão de cima da camisa branca aberto no peito: mais jovem, mais ágil, menos doente; ainda mantinha o rosto arredondado dos jovens, apesar da terrível barba judaica... Quanto ao cheiro, não sei, mas sempre desconfiei desses judeus de preto sob nosso sol tropical... 

     Sobre as esposas de Cristo, tenho a dizer o seguinte: ouço gente dizendo por aí que Cristo vai voltar (eu, como homem de boa vontade, estou tranquilo...). Não, não encontrei nenhum bíblia com seu terno do Mappin nem aquelas mulheres bem-vestidinhas demais  que testemunharam algo e, em duplas, querem de todas as maneiras nos contar, entregando de porta em porta uma revistinha editada nos EUA (moro em apartamento); esses costumam atuar só após o expediente e mais na periferia e não era nem sábado nem domingo. Aliás, esse povo que anda vociferando Cristo a torto e a direito deve ser um povinho de muita má vontade para tanta preocupação... Acho besteira essa faina toda de mostrar serviço, eis que Cristo deve ser muito perspicaz para descobrir fácil a manha em vez da virtude. Perspicaz, inteligente e informado. Onipotente! Embora deva haver uma lacuna informativa nessa onipotência: creio que Cristo não está sabendo de tanta mulher a ele reservadas aqui na Terra. Talvez saiba, mas não acredita que seus semelhantes chegaram a tanto. Mas, se Cristo voltar, não tenho dúvidas: a primeira coisa que ele vai atualizar será o hábito das suas esposas.

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