segunda-feira, 12 de outubro de 2015

S A Ú D E



PREOCUPAÇÃO DEMAIS COM A SAÚDE

Tem gente que se preocupa demais com a saúde. Pepino com ovo faz mal, manga com leite faz mal, melancia com pinga mata, tomar banho logo após o almoço é fatal... Berinjela abaixa o colesterol, cocacola desentope pia, cenoura faz bem p’ras vistas, acerola cura resfriado. Uma colher de azeite por dia, uma colher de mel por dia, um copo de vinho após as refeições... dar três pulinhos ao amanhecer faz bem p’ras nádegas, rezar um pai-nosso e três ave-marias todo dia antes de dormir cura dor de estômago... aliás, cachaça com mel e arruda faz bem p'r'o fígado, um ovo cru por dia, cem gramas de peixe cru por dia, chuchu com inhame faz bem p'ra memória, amendoim e caldo de mocotó e ovo de codorna aumentam a tesão, só coma açúcar integral e arroz integral e farinha integral e não coma carne vermelha e não coma carne malpassada e semente de gergelim infecciona o apêndice! E p'r'o pulmão tome mel com limão e p’ras pancadas passe erva santa-maria amassada e p’ra dor nas cadeiras tome chá de cidreira.

Nunca li em lugar algum que comer um prato de arroz com feijão duas vezes por dia faz bem p'ra saúde. Aliás, em se tratando de saúde, os remédios e recomendações são sempre específicos: isso é bom p’r'aquilo, nunca se visa o conjunto, como se o funcionamento da pele fosse independente dos batimentos cardíacos ou do nível de oxigênio no sangue. Como se o pâncreas e o duodeno não integrassem a mesma e única máquina composta pelo fígado, rins e pulmões. Diz-se: fulano sofre do coração, sicrano tem problema na cabeça, como se as peças e partes do nosso corpo fossem independentes. Entre os profissionais da saúde, os generalistas são menos valorizados, enquanto especialistas em cabeça ou cardiologistas são endeusados. Em se tratando da saúde do nosso corpo, coisa perigosa é consultar um especialista. Entregar-se às prescrições de um sujeito que entende demais de uma parte do corpo e não só não entende, como despreza as demais partes desse mesmo corpo é, no mínimo, arriscado.

Então para você, que se preocupa demais não só com a própria saúde, mas com a minha e de seus amigos em geral, pergunto: qual foi a última vez que o suor escorreu em seu rosto a ponto de cair gotas no chão, sem ser na sauna ou ao lado de uma fogueira? Quantas vezes seu coração atingiu 140 batimentos por minuto na última semana, sem ser de susto ou de medo? Há quanto tempo você não sente uma dor muscular decorrente de uma exigência maior do corpo? Você pulou quantas refeições na última quinzena? Quantos jantares você preencheu com biscoitos no último mês? Há quanto tempo você não dança ou não corre ou não pedala ou não nada ou não bate uma bola? Quantas vezes você já andou na vida, assim, andar por andar, sem nenhuma utilidade além do simples movimento? O balconista da farmácia te conhece, sabe seu nome? Você tem em seu guarda-roupa um conjunto de ginástica? Quantos tênis você já gastou na vida? Você conhece a praça mais próxima da sua casa?

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