PREOCUPAÇÃO
DEMAIS COM A SAÚDE
Tem gente
que se preocupa demais com a saúde. Pepino com ovo faz mal, manga com leite faz
mal, melancia com pinga mata, tomar banho logo após o almoço é fatal... Berinjela
abaixa o colesterol, cocacola desentope pia, cenoura faz bem p’ras vistas,
acerola cura resfriado. Uma colher de azeite por dia, uma colher de mel por
dia, um copo de vinho após as refeições... dar três pulinhos ao amanhecer faz
bem p’ras nádegas, rezar um pai-nosso e três ave-marias todo dia antes de
dormir cura dor de estômago... aliás, cachaça com mel e arruda faz bem p'r'o
fígado, um ovo cru por dia, cem gramas de peixe cru por dia, chuchu com inhame
faz bem p'ra memória, amendoim e caldo de mocotó e ovo de codorna aumentam a
tesão, só coma açúcar integral e arroz integral e farinha integral e não coma
carne vermelha e não coma carne malpassada e semente de gergelim infecciona o
apêndice! E p'r'o pulmão tome mel com limão e p’ras pancadas passe erva
santa-maria amassada e p’ra dor nas cadeiras tome chá de cidreira.
Nunca li em
lugar algum que comer um prato de arroz com feijão duas vezes por dia faz bem
p'ra saúde. Aliás, em se tratando de saúde, os remédios e recomendações são
sempre específicos: isso é bom p’r'aquilo, nunca se visa o conjunto, como se o
funcionamento da pele fosse independente dos batimentos cardíacos ou do nível
de oxigênio no sangue. Como se o pâncreas e o duodeno não integrassem a mesma e
única máquina composta pelo fígado, rins e pulmões. Diz-se: fulano sofre do
coração, sicrano tem problema na cabeça, como se as peças e partes do nosso
corpo fossem independentes. Entre os profissionais da saúde, os generalistas
são menos valorizados, enquanto especialistas em cabeça ou cardiologistas são
endeusados. Em se tratando da saúde do nosso corpo, coisa perigosa é consultar
um especialista. Entregar-se às prescrições de um sujeito que entende demais de
uma parte do corpo e não só não entende, como despreza as demais partes desse
mesmo corpo é, no mínimo, arriscado.
Então para
você, que se preocupa demais não só com a própria saúde, mas com a minha e de
seus amigos em geral, pergunto: qual foi a última vez que o suor escorreu em
seu rosto a ponto de cair gotas no chão, sem ser na sauna ou ao lado de uma
fogueira? Quantas vezes seu coração atingiu 140 batimentos por minuto na última
semana, sem ser de susto ou de medo? Há quanto tempo você não sente uma dor
muscular decorrente de uma exigência maior do corpo? Você pulou quantas
refeições na última quinzena? Quantos jantares você preencheu com biscoitos no
último mês? Há quanto tempo você não dança ou não corre ou não pedala ou não
nada ou não bate uma bola? Quantas vezes você já andou na vida, assim, andar por andar, sem nenhuma
utilidade além do simples movimento? O balconista da farmácia te conhece, sabe
seu nome? Você tem em seu guarda-roupa um conjunto de ginástica? Quantos tênis
você já gastou na vida? Você conhece a praça mais próxima da sua casa?
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