Após
3 meses, cheguei ao final do calhamaço do Proust. E, quer saber? Não
acho que foi tempo perdido, apesar de não ter recuperado tempo
algum, embora estivesse Em busca do tempo perdido. Durante esses 90
dias, li o romance em 68 deles, 50 páginas por dia em média. Ao
final, 3500 páginas. Muitas vezes injuriado com o martelete do
narrador, que bombardeia detalhes e descobre facetas dos mínimos
fatos, confesso que, nos dois primeiros volumes, quase desisti. A
partir do terceiro, o estilo minucioso e insistente, mas elegante e
coerente, da narrativa, me pegou e a leitura tornou-se prazerosa, o
que não impedia de, às vezes, fazer uma leitura mais dinâmica
sobre alguns trechos. Terminei a empreitada diferente, um pouco menos
pobre. Sim, é como abrir uma picada, a leitura do romance Em busca
do tempo perdido, do Proust. Vamos derrubando os troncos e roçando
os arbustos. É cansativo, mas quando saímos do outro lado, somos um
pouco menos ignorantes sobre a mata.
Terminei
a leitura, fiz o textão, que divulguei e, de repente, senti algo me
cutucando: quantas vezes a Bíblia é maior que o Em busca do tempo
perdido? “Deve ser bem maior, pensei”. Ora, mas é fácil ver.
Peguei o exemplar que tenho aqui e vi que, em média, cada página
dela tem 40 linhas de 60 caracteres cada. Ela tem 2167 páginas. Isso
dá 5.200.000 caracteres. O Em busca do tempo perdido tem 7.400.000
caracteres. Isso significa que o catatau do Proust é 40% maior do
que a Bíblia! E que, se gastei 68 dias de 3 meses para lê-lo,
gastaria 50 dias de 2 meses e uma semana para a Bíblia (eis um dos
meus métodos de automotivação para leituras…).
Diabos!
Por que essa comparação entre o EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO e a
BÍBLIA? Se são como o dia e a noite, a água e o óleo. Aquele é
laico, esta é religiosa. Aquele tem apenas um narrador e seu
mundinho, ruminado em finíssimas partículas, durante uma curta vida
humana, no país da Revolução burguesa; esta tem pai, filho e
espírito e uma centena de assessores e pretende narrar uma vida
inteira da… Humanidade, no Planeta e Além. O primeiro tem um
estilo único e elegante, a segunda é uma miscelânea de personagens
e narrativas diversas. Aquele é inspirado pelo subconsciente de um
homem, esta é inspirada por um extra-humano, dizem os adeptos. Esta
e aquele são famosos, muita gente já ouviu falar deles, mas poucos
os leram. Ambos têm mais comentaristas do que leitores. Porém, a
Bíblia tem muito mais história, literal e literária.
Mas,
acontece que já li a Bíblia. Sim, de cabo a rabo, do Gênese ao
Apocalipse. Faz muito tempo. Querendo me catequizar, minha mulher
deixou uma Bíblia na cabeceira da nossa cama. Eu fazia de conta que
não via. Quando ia fazer limpeza, tinha aqueles 2 Kg de papel cheio
de quinas atrapalhando o trânsito do pano. Assim como o rato
cheirando o queijo da ratoeira, peguei certo dia o volume, pesei,
cheirei, folheei. Li a capa, a contracapa, os dados da editora, a
apresentação. Edição impecável. Quem gosta de ler, às vezes lê
um livro só por causa da sua edição impecável. Da mesma forma,
deixa de ler, quando a edição é mal feita.
Pensei:
quer saber? Vou ler essa bagaça. E li, inteirinha. Faz tempo, não
me recordo quanto tempo gastei. Mas li como um leitor desinteressado,
só por causa do desaforo. Não tomei nota alguma, exceto uns 4 ou 5
trechinhos convenientes, que tive o capricho de deixar anotados num
papelzinho, à guisa de marcador de página. Em poucos dias, a Bíblia
desapareceu da cabeceira da nossa cama. Minha mulher queria me
converter mas acho que o tiro saiu pela culatra. Desconfio que eu que
converti ela.
Quer
dizer, depois de adulto, ninguém admite uma mudança desse quilate.
O sujeito desacredita, perde a ilusão, muda de seita, mas fica na
moita, sendo que essa moita, em geral, é seu subconsciente. Não
estou falando daqueles velhos sacanas, que, às portas da morte, se
danam a rezar feito o capeta…, nem dos hipócritas. O fato é que
minha mulher descartou aquele exemplar profanado e arranjou outro.
Este, é uma obra-prima literária, um verdadeiro monumento
editorial, com notas de rodapé ocupando cerca de 20% de todas as
páginas, notas introdutórias a todos os capítulos, subtítulos,
tabelas, mapas . Tô falando da Bíblia de Jerusalém, edição de
2002 da Paulus, editora da Igreja Católica.
É
uma edição crítica. A primeira edição crítica que vi na vida
foi a de Macunaíma, da Telê Porto Ancona Lopes. Fiquei maravilhado.
A função dos textos de ficção é engabelar o leitor. E a das
edições críticas é desengabelá-lo. Confesso que me deu vontade
de ler novamente a Bíblia, nessa nova edição. Claro que, agora,
como leitor rigoroso e chato. Mais chato que rigoroso. E, depois,
produzir um textão provocador. Até porque, fiquei pensando, editar
a Bíblia com esse rigor literário e editorial é coisa de gente não
religiosa. Ou de gente religiosa, mas de absoluta honestidade
intelectual, coisa rara que precisa ser valorizada.
[Mas,
com uma Bíblia dessa, com tanta explicação, qual fiel que aguenta?
Não tem fé que suporta tanto esclarecimento. Eu acho que isso
explica a fuga de fiéis do catolicismo para o neopentecostalismo e o
crescimento de seitas conservadoras dentro da igreja católica.
Porque o populacho não quer esclarecimento; o populacho quer
milagre. Quanto mais obscuro e misterioso, melhor. O populacho quer,
literalmente, que as coisas caiam do céu. E, se não caírem, não
tem importância: Cristo vem aí (conforme avisa e ameaça a
penúltima linha do tijolão - Ap 22,20).].
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