segunda-feira, 3 de setembro de 2018

NETAS


NA VIDA, TODO ACRÉSCIMO É BENFAZEJO. Não na retórica, em que todo acréscimo será castigado. O avô vai buscar a neta na creche. Lá está ela, na lateral do pátio, sobre um enorme pneu de carreta deitado e cheio de terra, confabulando com três amigas. Ele chega. A neta se encaminha para a saída. Ele demora entender o movimento dela. Todo avô é demorado. Enquanto isso, uma das amigas lhe pergunta se a amiga é sua filha. Ele diz que não, que é sua neta. E, ao invés de parar por aí, acrescenta que é avô dela. Todo avô é cheio de aposto. Então a amiga constata, admirada da casualidade:
Ah, eu também tenho um avô!
O avô já havia constatado, à primeira olhada, que não tinha uma neta, mas uma gata. Aliás, a cheche era um verdadeiro gatanil. Se canil é onde tem muitos cães, gatanil é onde tem muitos gatos. Na rua, a sós, o avô diz à neta que ela está uma gata muito bonita. Todo avô é aderente. Ao que a neta lhe esclarece, didática e peremptória:
Não é gata, é onça.
De fato, era onça. A julgar apenas pelos bigodes, poderia ser gata. Mas havia as pintas, era onça. Pintada. Pintada. Todo avô é tosco. Sendo que havia um avô que tinha uma neta. E, a partir de hoje, há um avô que tem duas netas. E que aposta nelas.

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