NA
VIDA, TODO ACRÉSCIMO É BENFAZEJO. Não na retórica, em que todo
acréscimo será castigado. O avô vai buscar a neta na creche. Lá
está ela, na lateral do pátio, sobre um enorme pneu de carreta
deitado e cheio de terra, confabulando com três amigas. Ele chega. A
neta se encaminha para a saída. Ele demora entender o movimento
dela. Todo avô é demorado. Enquanto isso, uma das amigas lhe
pergunta se a amiga é sua filha. Ele diz que não, que é sua neta.
E, ao invés de parar por aí, acrescenta que é avô dela. Todo avô
é cheio de aposto. Então a amiga constata, admirada da casualidade:
— Ah,
eu também tenho um avô!
O
avô já havia constatado, à primeira olhada, que não tinha uma
neta, mas uma gata. Aliás, a cheche era um verdadeiro gatanil. Se
canil é onde tem muitos cães, gatanil é onde tem muitos gatos. Na
rua, a sós, o avô diz à neta que ela está uma gata muito
bonita. Todo avô é aderente. Ao que a neta lhe esclarece, didática
e peremptória:
— Não
é gata, é onça.
De
fato, era onça. A julgar apenas pelos bigodes, poderia ser gata. Mas
havia as pintas, era onça. Pintada. Pintada. Todo avô é tosco.
Sendo que havia um avô que tinha uma neta. E, a partir de hoje, há
um avô que tem duas netas. E que aposta nelas.
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