domingo, 11 de agosto de 2019

AGRICULTURA TRISTE.


Vou subindo para a Paulista, quando me deparo com uma tramoia simples. Pulo por cima, como se fora uma mistura grossa. Olho de lado, para não passar vergonha alheia. E saio de fino, para não fazer o que me der na telha.
Um pedestre contrário, de topete, engrossa o caldo. Um cachorro manso mia como doido. Uma bandeira branca esgoela na janela.
Vou comprar peixe na quinta feira. Uma barraca armada me estrangula o cérebro. Um teto baixo me destampa e me tira do sério.
Um homem grita, sorrindo e histérico. Duas moedas saltitam no asfalto. A dona das bananas se gasta num barraco. Panelas tontas tinem nas varandas.
É de manhã, gatos cagam nas calçadas. Cães com cordas me atrapalham a fé. Pilotando um carrinho de mão, ora estacionado à sombra de uma timbaúba, três mulheres mansas vendem um Cristo editado.
Enfim, chego na mais familiar das avenidas. Bandeiras tensas transam ao ar, livres. Dois milhões de paulistas tropeçam nas titicas. As bancas de jornais, outrora tão servis, agonizam nas manhãs. Na Oswaldo Cruz, caixas pilotam ciclistas sonsos. Dezoito bolivianos se esgueiram sob o sol.
No cruzamento da Brigadeiro, um traseiro cínico dá um pinote. Uma bandeira ingênua esverdeia na janela da quitinete. Um assobio rombudo adormece o guarda. Um ônibus lépido venta nas guampas. Um grito surdo limpa o asfalto.
É hora do almoço. Um pequeno-burguês tilinta uma cadeia. Uma bicicleta branca morre no canteiro. Uma luminária tosca se mantém acesa. Um farol embandeirado tempera o dia. Um vendedor de cana corre do guarda. Um guarda-roupa mora na Filosofia. Na mesma quadra, da mesma calçada, jovens antenados passam ligados no piloto automático.
Caminho com força e fome. Em frente à Fiesp, um busto arfa, condecorado. Latões de plástico cantam o hino nacional. Uma guitarra gorda desmaia sobre o palco. Uma viola caipira destila rock. Um cavaco sutil emperra nas toupeiras. Uma antena ousada perece sob o céu. Um porte pago entrega a camarilha.
Não tem jeito. Mesinhas desesperadas se oferecem aos detritos. Artistas brutos se acantonam nos escaninhos. Turistas ávidos se agarram aos últimos nacos. Hotéis de luxo se enchem de mosquitos. Debaixo do Masp, uma canela dúbia tromba num trejeito.
É domingo. Um renato russo de graxa labora no dia do senhor. Um velho dança. Um palhaço sério não se dá conta do ridículo. Crianças trabalham bolhas. Tapetes congestionam o espaço etéreo. Teresas lisas pendem pensas, rasgadas no Trianon.
Um bando de brancos prega uma cultura racional. Uma seita sequestra a Razão, enquanto o policial se distrai. Uma caixa de polícia corre atrás de um crime de patinete. O mormaço-mantiqueira trepida na artéria. Um estrangulamento pipoca o turno. Um simplório alegre ultrapassa a veia. Um avanço de vida aguarda no semáforo.
Trabalhos estacionam em frente ao Safra. Do outro lado, sob a marquise do Conjunto Nacional, um traste tropical torneia a tosse. O chão treme. O vento brota. Um homem odeia.
Enfim, atravesso a tarde. Em casa, destilo o carma. Uma absurda normalidade se atravanca nas travessas. Lá fora, um grito berra, um pivete cresce. Um mal banal me escuta no quintal.


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