Vou
subindo para a Paulista, quando me deparo com uma tramoia simples.
Pulo por cima, como se fora uma mistura grossa. Olho de lado, para
não passar vergonha alheia. E saio de fino, para não fazer o que me
der na telha.
Um
pedestre contrário, de topete, engrossa o caldo. Um cachorro manso
mia como doido. Uma bandeira branca esgoela na janela.
Vou
comprar peixe na quinta feira. Uma barraca armada me estrangula o
cérebro. Um teto baixo me destampa e me tira do sério.
Um
homem grita, sorrindo e histérico. Duas moedas saltitam no asfalto.
A dona das bananas se gasta num barraco. Panelas tontas tinem nas
varandas.
É
de manhã, gatos cagam nas calçadas. Cães com cordas me atrapalham
a fé. Pilotando um carrinho de mão, ora estacionado à sombra de
uma timbaúba, três mulheres mansas vendem um Cristo editado.
Enfim,
chego na mais familiar das avenidas. Bandeiras tensas transam ao ar,
livres. Dois milhões de paulistas tropeçam nas titicas. As bancas
de jornais, outrora tão servis, agonizam nas manhãs. Na Oswaldo
Cruz, caixas pilotam ciclistas sonsos. Dezoito bolivianos se
esgueiram sob o sol.
No
cruzamento da Brigadeiro, um traseiro cínico dá um pinote. Uma
bandeira ingênua esverdeia na janela da quitinete. Um assobio
rombudo adormece o guarda. Um ônibus lépido venta nas guampas. Um
grito surdo limpa o asfalto.
É
hora do almoço. Um pequeno-burguês tilinta uma cadeia. Uma
bicicleta branca morre no canteiro. Uma luminária tosca se mantém
acesa. Um farol embandeirado tempera o dia. Um vendedor de cana corre
do guarda. Um guarda-roupa mora na Filosofia. Na mesma quadra, da
mesma calçada, jovens antenados passam ligados no piloto automático.
Caminho
com força e fome. Em frente à Fiesp, um busto arfa, condecorado.
Latões de plástico cantam o hino nacional. Uma guitarra gorda
desmaia sobre o palco. Uma viola caipira destila rock. Um cavaco
sutil emperra nas toupeiras. Uma antena ousada perece sob o céu. Um
porte pago entrega a camarilha.
Não
tem jeito. Mesinhas desesperadas se oferecem aos detritos. Artistas
brutos se acantonam nos escaninhos. Turistas ávidos se agarram aos
últimos nacos. Hotéis de luxo se enchem de mosquitos. Debaixo do
Masp, uma canela dúbia tromba num trejeito.
É
domingo. Um renato russo de graxa labora no dia do senhor. Um velho
dança. Um palhaço sério não se dá conta do ridículo. Crianças
trabalham bolhas. Tapetes congestionam o espaço etéreo. Teresas
lisas pendem pensas, rasgadas no Trianon.
Um
bando de brancos prega uma cultura racional. Uma seita sequestra a
Razão, enquanto o policial se distrai. Uma caixa de polícia corre
atrás de um crime de patinete. O mormaço-mantiqueira trepida na
artéria. Um estrangulamento pipoca o turno. Um simplório alegre
ultrapassa a veia. Um avanço de vida aguarda no semáforo.
Trabalhos
estacionam em frente ao Safra. Do outro lado, sob a marquise do
Conjunto Nacional, um traste tropical torneia a tosse. O chão treme.
O vento brota. Um homem odeia.
Enfim,
atravesso a tarde. Em casa, destilo o carma. Uma absurda normalidade
se atravanca nas travessas. Lá fora, um grito berra, um pivete
cresce. Um mal banal me escuta no quintal.
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