quinta-feira, 16 de junho de 2016

O TORCEDOR SÉRIO

O TORCEDOR SÉRIO. Sabe aquele sujeito difícil, que fala baixo e pausado, de modo seguro e ponderado, a explicar postulados futebolísticos? Que, de maneira contida, sem emoção, discorre sobre o craque ou o time, como se ditasse uma sentença, alienado das exigências estilísticas de combinação entre forma e conteúdo? Eis o torcedor sério. Ele é puro, fanático, parcial, mas disfarça, tentando enganar a si próprio. É que, sendo torcedor, é passional. Mas esse torcedor sério admira a carrancuda forma racional de ser e imita-a, apesar de usar somente o coração. Sem malícia, confunde fé com razão. E dana-se a pontificar academicamente sobre aspectos banais do seu time, seu ídolo. Fala de táticas e esquemas de jogo com a clareza de um matemático e a sisudez de um filósofo. Descompreende a torcida alheia como se fosse um rabino. Ele está sempre pleno de certezas. Embasadas numa história própria, cheia de saudades. Em que o craque do passado é que era bom. Esse torcedor é bairrista, nacionalista, chauvinista. É um ser bem definido no tempo e no espaço. Mundo em que não há lugar para dúvida, nuance, aspecto, faceta ou pormenor. É fácil tornar-se amigo ou inimigo desse torcedor. Ele vira teu chapa ou teu desafeto com a espontaneidade de uma criança. Basta concordar ou discordar dele. Tal torcedor divide o mundo em dois: o da sua torcida e o da torcida adversária. E apenas intui que existe um terceiro mundo lá fora, que se esforça para ignorar. E crê ou descrê com a mesma fidelidade canina. A convivência com esse torcedor é fácil, porque ele é previsível. Mas chata, porque ele não entende a piada. A piada de verdade, sempre iconoclasta. Porque, para ele, iconoclasta carece de dicionário. Pois esse indivíduo gosta das coisas fáceis. Pois esse torcedor gosta do preto no branco, em que o bem e o mal estão muito bem definidos. Ele é capaz de identificar claramente o gênio — o craque —, e transformá-lo em ídolo, desde que devidamente alertado pelos comentaristas profissionais. Sendo que, de 4 em 4 anos, nas copas, os demais viventes todos se transformam em torcedores, muitos dos quais adotando o estilo sério. Enfim, tem gente mais chata do que um torcedor sério? E quê dizer de quem se põe a fazer análise psicológica de torcedor de futebol em plena copa do mundo?

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