É
um homem grandalhão, vi depois que ele se levantou feito doido,
gritando disparado rumo à porta. Está sentado num banco do vagão
do metrô, parado para embarque e desembarque na Estação São
Bento. Absorto em seu celular. Há uns 50 celulares ligados neste
momento, dentro do vagão, calculo. Feriadão, o trem está vazio,
quer dizer, todos os bancos estão ocupados e ainda sobram umas dez pessoas em pé. Vazio diante da superlotação normal do dia a dia.
Um
outro homem de pé, está parado. Parado é pouco, está imóvel.
Daqui de onde estou sentado, parece uma estátua, tamanha a
imobilidade do sujeito. Ao contrário do que se possa imaginar, não
está nada absorto. Daqui a pouco, veremos que ele estava mais ativo
do que qualquer outro, concentrado no momento que precede o bote.
A
arte de dar o bote. É preciso uma compleição física e emocional
adequada — natural, diria —, para aventurar-se na arte de dar o
bote. O gato, por exemplo, a cascavel. Mas o homem não nasceu pra
isso. Então, diferente do bote de um gato, o bote de um homem é
fruto de seu inteiro querer, sem nenhuma ajuda da natureza.
O
fato é que ninguém mais desembarcava nem embarcava, o condutor
acionou a campainha para avisar que ia fechar as portas.
Três
segundos. Menos, talvez.
De
repente, aquele homem de pé parado em frente a porta meneou o corpo
pra direita, avançou o polegar e o indicador em direção ao
tijolinho eletrônico do absorto mais próximo e, como se
impulsionado por uma mola, voltou à posição normal e deu o pinote
— uma espécie de bote em zigue-zague —, no exato momento em que
a porta se fechava na cara de outro homem que vinha em seu rastro.
O
lesado deu com a cara na porta, impotente — absolutamente impotente
—, a ver seu celular desaparecer nos meandros da estação, nas
mãos o outro, a caminhar e sorrir tranquilamente.
Um
artista! A precisão da complexa manobra, em absoluto acordo com a
porta do trem e a inércia da vítima, a dança perfeita conforme a
música alheia. Mais que um ladrão, um artista.
Dentro
do trem, o homem grande e jovem, porte atlético, gritava e esmurrava
a porta, furioso e impotente, e mais furioso ficava, à medida que
seu bem azulava no mundo e o trem partia.
Gente,
isso é um perigo! Não tem aneurisma que aguente. O corpo humano e
suas veias e artérias e meandros e todo um sistema hidráulico de
bombeamento e pressão… mas não é água cristalina que circula em
nosso corpo, é sangue, temperado com uma carrada de hormônios pra controlar
todas as vicissitudes da vida, todas as idas e vindas do amor e do
ódio…
O
fato é que um homem relaxado não está preparado para passar da
felicidade à fúria em três segundos...
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