segunda-feira, 2 de abril de 2018

TRAGÉDIA NO METRÔ.


É um homem grandalhão, vi depois que ele se levantou feito doido, gritando disparado rumo à porta. Está sentado num banco do vagão do metrô, parado para embarque e desembarque na Estação São Bento. Absorto em seu celular. Há uns 50 celulares ligados neste momento, dentro do vagão, calculo. Feriadão, o trem está vazio, quer dizer, todos os bancos estão ocupados e ainda sobram umas dez pessoas em pé. Vazio diante da superlotação normal do dia a dia.
Um outro homem de pé, está parado. Parado é pouco, está imóvel. Daqui de onde estou sentado, parece uma estátua, tamanha a imobilidade do sujeito. Ao contrário do que se possa imaginar, não está nada absorto. Daqui a pouco, veremos que ele estava mais ativo do que qualquer outro, concentrado no momento que precede o bote.
A arte de dar o bote. É preciso uma compleição física e emocional adequada — natural, diria —, para aventurar-se na arte de dar o bote. O gato, por exemplo, a cascavel. Mas o homem não nasceu pra isso. Então, diferente do bote de um gato, o bote de um homem é fruto de seu inteiro querer, sem nenhuma ajuda da natureza.
O fato é que ninguém mais desembarcava nem embarcava, o condutor acionou a campainha para avisar que ia fechar as portas.
Três segundos. Menos, talvez.
De repente, aquele homem de pé parado em frente a porta meneou o corpo pra direita, avançou o polegar e o indicador em direção ao tijolinho eletrônico do absorto mais próximo e, como se impulsionado por uma mola, voltou à posição normal e deu o pinote — uma espécie de bote em zigue-zague —, no exato momento em que a porta se fechava na cara de outro homem que vinha em seu rastro.
O lesado deu com a cara na porta, impotente — absolutamente impotente —, a ver seu celular desaparecer nos meandros da estação, nas mãos o outro, a caminhar e sorrir tranquilamente.
Um artista! A precisão da complexa manobra, em absoluto acordo com a porta do trem e a inércia da vítima, a dança perfeita conforme a música alheia. Mais que um ladrão, um artista.
Dentro do trem, o homem grande e jovem, porte atlético, gritava e esmurrava a porta, furioso e impotente, e mais furioso ficava, à medida que seu bem azulava no mundo e o trem partia.
Gente, isso é um perigo! Não tem aneurisma que aguente. O corpo humano e suas veias e artérias e meandros e todo um sistema hidráulico de bombeamento e pressão… mas não é água cristalina que circula em nosso corpo, é sangue, temperado com uma carrada de hormônios pra controlar todas as vicissitudes da vida, todas as idas e vindas do amor e do ódio…
O fato é que um homem relaxado não está preparado para passar da felicidade à fúria em três segundos...



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