Bagre
tem a cabeça grande, mas oca. Vive misturado ao lodo do fundo do
poço. Gosta de águas turvas, barrentas. Engole a isca e não carece
de nenhuma habilidade para ser fisgado. Mas ferroa o pescador que o
agarra desprevenido. E não tem escamas, é liso feito um… bagre
ensaboado.
Bagre
é vacilão. E tem complexo de inferioridade em relação ao tubarão e à sardinha.
Linguagem figurada, a humanidade é composta de poucos tubarões, muitas sardinhas e muito, muito bagre.
Os
bagres têm pouco ou nenhum verniz cultural. Carregam apenas aquela
cultura básica, herdada da família e do meio. Mas, ao contrário do
que se possa imaginar, há muitos médicos, engenheiros, advogados,
professores bagres. Sabe aqueles caras que vão à faculdade só
pensando no diploma? Ou só pensando na profissão?
Em
geral, os bagres são pessoas fracassadas na vida. Não que não haja
muitos bagres bem-sucedidos sob os pontos de vista material e
afetivo, mas é que, em sua visão pequena, curta e egoísta, se
deixam dominar pela inveja e pela realidade imediata ou alheia, escolhendo sempre os parâmetros que lhes são desfavoráveis.
Sendo
que o bagre legítimo só conhece dois tipos de gente: os perdedores
e os vencedores.
O
ódio aos políticos de carreira e a inveja ao vizinho consumista ou
supostamente bem de vida se multiplicam em épocas de recessão braba
e desmoralização política. É natural que se revoltem, quando
essas duas condições se concatenam, na conjuntura.
Os
bagres gostam muito das expressões “bem de vida”,
“bem-sucedido”, “deu certo na vida”, “pessoa realizada”,
“conquistar a independência financeira”.
A real religião do bagre é a meritocracia. Que muitos confundem com regime político.
A real religião do bagre é a meritocracia. Que muitos confundem com regime político.
Há
bagres desde as mansões do Morumbi até os barracos de Guaianazes.
Há bagres em todo o espectro social. Mas, diria que há uma
proporção maior de bagres na Senzala, em comparação com a Casa
Grande. Creio que o fator determinante de tal diferença é o verniz
cultural. Como se sabe, o verniz cultural é aquela cultura
adquirida, que se sobrepõe e se imiscui àquela herdada ou
assimilada naturalmente.
O
sistema educacional formal — a escola — faz a diferença na maior
ou menor produção de bagres cidadãos.
E
a escola destinada aos integrantes da Senzala é deliberadamente
pobre e esquecida.
Pensando
bem, talvez seja preconceito meu achar que há essa distribuição
desigual de bagres entre os diversos segmentos da população. No
fundo, no fundo, esses vacilões distribuem-se igualmente, assim como
a inteligência ou a idiotice.
Há
tantos estúpidos entre os funcionários do Banco do Brasil ou da
Receita Federal quanto entre os subcontratados aqui da obra em
frente.
Assim
como deve haver tolos na mesma proporção entre as sacoleiras do Brás, os
marceneiros ou os diretores do Itaú ou do Grupo Votorantim. Ou
entre os donos de padarias e os acionistas das Casas Bahia.
Adicionalmente,
o consumo exacerbado (consumismo) forma um caldo de boa cultura
à proliferação de bagres.
Entretanto,
em épocas como a que estamos vivendo, de pequenos negócios
quebrando, gente perdendo o emprego a rodo, a insegurança atinge
mais os pequenos, os mais fracos. A baixa classe média e os
participantes da economia informal ficam mais alvoroçados, porque
mais preocupados. A bagraiada miúda pula miúdo.
Acho
que é por isso que temos a impressão de que há uma proporção
maior de bagres entre os trabalhadores informais, em comparação com
os com carteira assinada. Ou entre os micro e pequenos empresários,
em comparação com os grandes empresários.
O bagre é simplório, subalterno e subserviente. Tem baixa autoestima. Gosta de tudo que reduz e mistifica, como os hinos, os uniformes, as regras e os rituais.
O bagre é curto, grosso e maniqueísta. E quando se junta em bando, é fascista.
O bagre é simplório, subalterno e subserviente. Tem baixa autoestima. Gosta de tudo que reduz e mistifica, como os hinos, os uniformes, as regras e os rituais.
O bagre é curto, grosso e maniqueísta. E quando se junta em bando, é fascista.
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