terça-feira, 3 de abril de 2018

A REVOLTA DOS BAGRES.

Bagre tem a cabeça grande, mas oca. Vive misturado ao lodo do fundo do poço. Gosta de águas turvas, barrentas. Engole a isca e não carece de nenhuma habilidade para ser fisgado. Mas ferroa o pescador que o agarra desprevenido. E não tem escamas, é liso feito um… bagre ensaboado.
Bagre é vacilão. E tem complexo de inferioridade em relação ao tubarão e à sardinha.
Linguagem figurada, a humanidade é composta de poucos tubarões, muitas sardinhas e muito, muito bagre. 
Os bagres têm pouco ou nenhum verniz cultural. Carregam apenas aquela cultura básica, herdada da família e do meio. Mas, ao contrário do que se possa imaginar, há muitos médicos, engenheiros, advogados, professores bagres. Sabe aqueles caras que vão à faculdade só pensando no diploma? Ou só pensando na profissão?
Em geral, os bagres são pessoas fracassadas na vida. Não que não haja muitos bagres bem-sucedidos sob os pontos de vista material e afetivo, mas é que, em sua visão pequena, curta e egoísta, se deixam dominar pela inveja e pela realidade imediata ou alheia, escolhendo sempre os parâmetros que lhes são desfavoráveis.

Sendo que o bagre legítimo só conhece dois tipos de gente: os perdedores e os vencedores.
O ódio aos políticos de carreira e a inveja ao vizinho consumista ou supostamente bem de vida se multiplicam em épocas de recessão braba e desmoralização política. É natural que se revoltem, quando essas duas condições se concatenam, na conjuntura.
Os bagres gostam muito das expressões “bem de vida”, “bem-sucedido”, “deu certo na vida”, “pessoa realizada”, “conquistar a independência financeira”.
A real religião do bagre é a meritocracia. Que muitos confundem com regime político.
Há bagres desde as mansões do Morumbi até os barracos de Guaianazes. Há bagres em todo o espectro social. Mas, diria que há uma proporção maior de bagres na Senzala, em comparação com a Casa Grande. Creio que o fator determinante de tal diferença é o verniz cultural. Como se sabe, o verniz cultural é aquela cultura adquirida, que se sobrepõe e se imiscui àquela herdada ou assimilada naturalmente.
O sistema educacional formal — a escola — faz a diferença na maior ou menor produção de bagres cidadãos.
E a escola destinada aos integrantes da Senzala é deliberadamente pobre e esquecida.
Pensando bem, talvez seja preconceito meu achar que há essa distribuição desigual de bagres entre os diversos segmentos da população. No fundo, no fundo, esses vacilões distribuem-se igualmente, assim como a inteligência ou a idiotice.
Há tantos estúpidos entre os funcionários do Banco do Brasil ou da Receita Federal quanto entre os subcontratados aqui da obra em frente.
Assim como deve haver tolos na mesma proporção entre as sacoleiras do Brás, os marceneiros ou os diretores do Itaú ou do Grupo Votorantim. Ou entre os donos de padarias e os acionistas das Casas Bahia.
Adicionalmente, o consumo exacerbado (consumismo) forma um caldo de  boa cultura à proliferação de bagres.
Entretanto, em épocas como a que estamos vivendo, de pequenos negócios quebrando, gente perdendo o emprego a rodo, a insegurança atinge mais os pequenos, os mais fracos. A baixa classe média e os participantes da economia informal ficam mais alvoroçados, porque mais preocupados. A bagraiada miúda pula miúdo. 
Acho que é por isso que temos a impressão de que há uma proporção maior de bagres entre os trabalhadores informais, em comparação com os com carteira assinada. Ou entre os micro e pequenos empresários, em comparação com os grandes empresários.

O bagre é simplório, subalterno e subserviente. Tem baixa autoestima.  Gosta de tudo que reduz e mistifica, como os hinos, os uniformes, as regras e os rituais.

O bagre é curto, grosso e maniqueísta. E quando se junta em bando, é fascista.





Nenhum comentário:

Postar um comentário