quinta-feira, 12 de abril de 2018

OLHAI POR NÓIS.

Todo mundo já sabe que um sujeito indeterminado usou a fachada do Colégio como suporte de uma mensagem que expressa um pedido desesperado: “Olhai por nóis”. Não é notícia falsa não, passei lá hoje, vi, toquei, nem suja o dedo, é tinta boa.
Vermelha!
Pronto! Foram esses comunistas!!
Então fiquei pensando no vocativo da oração. “Deus, olhai por nóis”. O vocativo oculto da oração só pode ser Deus. E comunista nem acredita em Deus, que dirá pedir alguma coisa a Ele.
Mas algum delegado mais afoito, desses que passaram no concurso recentemente – é um pessoal bom, que sabe a norma culta direitinho —, pode alegar que o sujeito indeterminado está se dirigindo ao Secretário da Justiça. É! O desesperado pedido é visível de todas as janelas da Secretaria da Justiça. E, sabe como é, se comunista não gosta de Deus, ele é chegado num burocrata. Taí! é um comunista desesperado se dirigindo ao secretário que, certamente, é um sujeito entendido em leis. Lei dos homens, que comunista só acredita na Lei dos Homens.
Faz sentido, essa suspeita do delegado. Porque, nesse negócio de leis, nóis tamu lascadu. Sei lá, o delegado tem elementos para formar convicção… ó o perigo!
Continuei pensando. Pode ter sido, sim, os comunistas. Comunista nunca anda sozinho. E tá na cara e na frase que foi coisa de mais de um. Se fosse um só ele pediria “olhai por mim”. Fascista também costuma andar em bando, aliás, fascista só é fascista quando em bando, mas a tinta seria verdeamarela. E fascista frequenta a igreja por dentro, jamais deixaria de fazer ou escrever seu pedido no conforto do reservado. Não, fascista não foi. Se fascista, ainda que em bando, ele escreveria “olhai por mim”, coerente com a máxima meritocrata de cada um por si e Deus pra todos.
Porém, e se o sujeito indeterminado de caráter coletivo que obrou a frase, altas horas da madrugada, queria se dirigir ao bispo? Sim: “Bispo, olhai por nóis”. Não, não pode ser. Primeiro, porque a jurisdição do bispo fica alhures; segundo porque, nesse caso, o pedido seria feito diretamente ao bispo, eis que o bispo é gente boa, encontrável em carne e osso, junto e misturado no meio de nóis.
Agora uma terrível suspeita me assola. E se eles estavam querendo se dirigir ao arcebispo? Aí estaríamos no mato sem cachorro. Mas faz sentido, porque é o território do arcebispo. E a gente já sabe que o arcebispo não olha nem ora por nóis. Aliás, o arcebispo impreca por nóis. Na outra ditadura, o arcebispo era por nóis. Nesta, até o arcebispo é contra nóis.
Ó o perigo! No parágrafo anterior, me incluí no objeto da frase. Me intrometi no meio do “nóis”. Mas é seguro que não tem nada a ver. Isto porque os escrevinhadores de fachada estavam se dirigindo a Deus mesmo. E eu ainda não estou tão desesperado assim… Porque os caras que escreveram na fachada da Igreja-colégio estavam desesperados. À vista do intermediário-arcebispo hostil, resolveram se dirigir diretamente a Deus e, para isso, nada melhor que a fachada de uma igreja. Quanto à tinta vermelha, nada a ver com comunista. Tem a mesma motivação do vermelho das ciclovias do Haddad: visibilidade.

Não, não foram os comunistas. Esse “olhai” na segunda pessoa do plural do imperativo é inconfundível: é uma súplica direta ao Todo-Poderoso. É coisa de crente (assim, também livro minha barra). Além do mais, não cometeria eu a heresia junto a Ele de escandir esse “nóis” tão rasteiro, que reservo à Literatura. Numa situação nada oblíqua, tampouco átona, enquanto tão formal e tão urgente e tão fora de hora, não deixaria por menos que a escorreita norma culta. Ainda mais numa forma tão monumental. E em letras de fôrma.





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