Todo
mundo já sabe que um sujeito indeterminado usou a fachada do Colégio
como suporte de uma mensagem que expressa um pedido desesperado:
“Olhai por nóis”. Não é notícia falsa não, passei lá hoje,
vi, toquei, nem suja o dedo, é tinta boa.
Vermelha!
Pronto!
Foram esses comunistas!!
Então
fiquei pensando no vocativo da oração. “Deus, olhai por nóis”.
O vocativo oculto da oração só pode ser Deus. E comunista nem
acredita em Deus, que dirá pedir alguma coisa a Ele.
Mas
algum delegado mais afoito, desses que passaram no concurso
recentemente – é um pessoal bom, que sabe a norma culta direitinho
—, pode alegar que o sujeito indeterminado está se dirigindo ao
Secretário da Justiça. É! O desesperado pedido é visível de
todas as janelas da Secretaria da Justiça. E, sabe como é, se
comunista não gosta de Deus, ele é chegado num burocrata. Taí! é
um comunista desesperado se dirigindo ao secretário que, certamente,
é um sujeito entendido em leis. Lei dos homens, que comunista só
acredita na Lei dos Homens.
Faz
sentido, essa suspeita do delegado. Porque, nesse negócio de leis,
nóis tamu lascadu. Sei lá, o delegado tem elementos para formar
convicção… ó o perigo!
Continuei
pensando. Pode ter sido, sim, os comunistas. Comunista nunca anda
sozinho. E tá na cara e na frase que foi coisa de mais de um. Se
fosse um só ele pediria “olhai por mim”. Fascista também
costuma andar em bando, aliás, fascista só é fascista quando em
bando, mas a tinta seria verdeamarela. E fascista frequenta a igreja
por dentro, jamais deixaria de fazer ou escrever seu pedido no
conforto do reservado. Não, fascista não foi. Se fascista, ainda
que em bando, ele escreveria “olhai por mim”, coerente com a
máxima meritocrata de cada um por si e Deus pra todos.
Porém,
e se o sujeito indeterminado de caráter coletivo que obrou a frase,
altas horas da madrugada, queria se dirigir ao bispo? Sim: “Bispo,
olhai por nóis”. Não, não pode ser. Primeiro, porque a
jurisdição do bispo fica alhures; segundo porque, nesse caso, o
pedido seria feito diretamente ao bispo, eis que o bispo é gente
boa, encontrável em carne e osso, junto e misturado no meio de nóis.
Agora
uma terrível suspeita me assola. E se eles estavam querendo se
dirigir ao arcebispo? Aí estaríamos no mato sem cachorro. Mas faz
sentido, porque é o território do arcebispo. E a gente já sabe que
o arcebispo não olha nem ora por nóis. Aliás, o arcebispo impreca
por nóis. Na outra ditadura, o arcebispo era por nóis. Nesta, até
o arcebispo é contra nóis.
Ó
o perigo! No parágrafo anterior, me incluí no objeto da frase. Me
intrometi no meio do “nóis”. Mas é seguro que não tem nada a
ver. Isto porque os escrevinhadores de fachada estavam se dirigindo a
Deus mesmo. E eu ainda não estou tão desesperado assim… Porque os
caras que escreveram na fachada da Igreja-colégio estavam
desesperados. À vista do intermediário-arcebispo hostil, resolveram
se dirigir diretamente a Deus e, para isso, nada melhor que a fachada
de uma igreja. Quanto à tinta vermelha, nada a ver com comunista.
Tem a mesma motivação do vermelho das ciclovias do Haddad:
visibilidade.
Não,
não foram os comunistas. Esse “olhai” na segunda pessoa do
plural do imperativo é inconfundível: é uma súplica direta ao
Todo-Poderoso. É coisa de crente (assim, também livro minha
barra). Além do mais, não cometeria eu a heresia junto a Ele de
escandir esse “nóis” tão rasteiro, que reservo à Literatura.
Numa situação nada oblíqua, tampouco átona, enquanto tão formal
e tão urgente e tão fora de hora, não deixaria por menos que a
escorreita norma culta. Ainda mais numa forma tão monumental. E em
letras de fôrma.
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