Vira e mexe tasco em minhas arengas essa conversa de 1 rico para 900 pobres. Meus treze leitores devem se lembrar. Ontem mesmo, na crônica em que não fico nem volto, escrevi que se 1 tira demais, 900 tiram de menos, afirmando que é uma lei da Física. Creio que enfiei essa minha descoberta até nas crônicas profanas que escrevi sobre a Bíblia.
Sim, é uma descoberta minha, não aprendi isso com nenhum
economista ou sociólogo, tampouco ouvi de algum desses gurus que inventam
chistes vistosos para impressionar macacos de auditório.
Mas, apesar da lavra solitária, sem laboratórios e
assistentes e orientadores e bibliotecas, é uma relação — 1:900, 1 rico para
900 pobres — científica, estatística e cabalística. E matemática. E expressa
uma lei da Física, como já dito.
Conto como cheguei a ela.
Eu viajava de bicicleta pelo oeste do Estado de São Paulo,
em paralelo com o Rio Paraná, na direção norte-sul. Não me lembro se foi em
Nova Independência, onde pernoitei, ou se foi em Suzanápolis, onde pretendi
pernoitar mas não encontrei pousada, que um cidadão local que me guiava, ao
passar em frente a uma casa um pouco mais vistosa do que as demais, me informou
que ali morava ou morara um dos homens mais ricos do Brasil, segundo relação
anual de conhecida revista nacional.
Surpreso, perguntei se além dele, havia outros ricos na
cidade. Ele me respondeu que havia mais uns três. O resto era tudo arraia
miúda. Mas foi o que bastou para eu incluir a pergunta em minhas futuras
passagens pelas cerca de 25 cidadezinhas restantes no meu roteiro.
Eu entrava na cidadezinha, todas na faixa de 5 mil
habitantes, com exceção de Presidente Prudente e Sorocaba e mais umas duas,
escolhia um cidadão e sapecava-lhe a pergunta: “quantos ricos há aqui nesta
cidade?”. O sujeito ou a sujeita ficava inicialmente sem jeito, mas depois
gostava da brincadeira, pensava um pouco e afirmava: uns 3 ou 4. (porque nesse
universo, todo mundo sabe da vida de todo mundo).
O fato é que em nenhuma das cidadezinhas, meus informantes
se lembraram de mais de 6 ricos. Creio que nessa em que me informaram que havia
6 ricos, a população era de 5 mil habitantes, uma das maiores dessa faixa. A
maioria, na faixa de 2 a 4 mil habitantes, possuía “uns 3 ou 4” ricos, segundo
a lembrança de meus informantes.
Ao final da viagem, em casa, a bordo do meu reconfortante
PC — que sou antigo —, fui ao gugol e rapidamente levantei as respectivas
populações e alguns dados sociológicos. Em todas elas era assim: 3000
habitantes para 3 ou 4 ricos, 2500 para 2 ou 3, 4000 para 4 ou 5. Em duas ou
três, deu um resultado fora da curva: 5 mil habitantes com apenas 2 ricos
lembrados pelo informante. Fui ver e eram cidadezinhas de minifúndios, com uma
classe média numerosa. Ao contrário, numa das cidades, de 2 mil habitantes,
foi-me informada a existência de 4 ricos. Também fora da curva, fui ver e os 4
ricos eram os donos das 4 fazendas que sozinhas abarcavam praticamente 100% do
território do município. Não havia classe média, eram 4 ricos para 2 mil
pobres, a seco, sem qualquer amortecimento. Sim, amortecimento é uma boa
palavra, quando associada à Classe Média.
Fiz as contas, aparei as arestas, lixei, poli, pintei: 1:900;
um rico, novecentos pobres. E os pobres são menos pobres, quando os ricos são
menos ricos.
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