sexta-feira, 1 de julho de 2022

O MONSTRO CRACOLÂNDIA

 

Leio no jornal que o Cracolândia se movimentou, foi para a Av. Rio Branco com a General Osório. Imagino que esse Cracolândia seja um bicho futurista de cem cabeças, mas um e único bicho. Ou, ao contrário, um bicho resgatado diretamente da era dos dinossauros.

 Imagino a mecânica dessa movimentação, desse deslocamento: cem pernas se deslocando, em sincronizado movimento, todas com a mesma direção e velocidade. Cem cabeças e cem pernas, é um bicho coletivo composto por indivíduos que não conseguem parar de pé por causa da perna única ou da falta da outra perna. Indivíduos insignificantes e invisíveis que, quando se juntam, adquirem personalidade única e poderosa.

Esse bicho com cara e cheiro e rosnado de monstro amedronta a população da vizinhança. Imagino o terror de moradores e comerciantes da Luz, Campos Elíseos, Santa Ifigênia, Centro Novo, Santa Cecília, Vila Buarque e até Barra Funda e Higienópolis. “O Cracolândia está esticando as pernas”. “O Cracolândia vem vindo pra cá, meu deus!”. Sem dar uma dentada, o Cracolândia destrói as vidas do pedaço onde ele para pra descansar.

Mas na Praça Princesa Isabel o Cracolândia não descansa mais. A Princesa Isabel é o risco no chão: daqui você não passa, ô Cracolândia! A Câmara deliberou e a prefeitura cercou; com cerca de homens da guarda municipal enquanto a cerca de aço não fica pronta. Mas a prova de que a prefeitura é poderosa e venceu a parada é que, na Praça Princesa Isabel o Cracolância não passa mais.

Acompanho com interesse literário as movimentações do Cracolância. É que moro aqui na encosta do espigão da Paulista, aonde o monstro não chega, estou seguro (mas não nego que tive um leve arrepio quando vi a barraca de lona preta instalada junto à parede do prédio novo ali da esquina e uma cordinha com roupas penduradas entre dois dos coqueiros que compõem o paisagismo frontal).

 As movimentações do Cracolândia me lembram o Ensaio sobre a nossa cegueira, do Saramago. No começo, eram poucas (minoritárias) as pessoas que zanzavam, cegas, pela cidade. Mas a epidemia se alastrou e, finalmente, todos ficaram cegos. Apenas uma mulher permaneceu com a visão normal. Essa mulher descreve a cidade degradada e as movimentações dos vários grupos de cegos, bem como a aleatória ocupação das casas, eis que perdeu todo o sentido a noção de espaço privado.

 A moral da história é que, se a gente não deixar de ser cego, mais dia menos dia cruzaremos o caminho do Cracolândia. Saibam que as águas do Dilúvio afogaram a todos, até aqueles que viviam nos mais altos cumes.

 

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