sexta-feira, 29 de abril de 2022

A MISÉRIA

 MISÉRIA PÔCA É BOBAJI. Confesso que minha fé na Humanidade diminuiu depois que fui assaltado. Pouco, continuo andando por aí, em meio ao povo, só que agora vou mais de bicicleta do que a pé. Depois que levaram meu troco mediante uma faquinha de 12 cm apontada para minha barriga, passei a desentender menos aqueles que, infantilmente, desejam portar uma arma.

Digo-lhes, para os de fora, que a coisa aqui tá branca! Os pretos brancos de fome e de raiva nas ruas. Mais de raiva que de fome. Aqui na megalópole o que não falta é gente servindo refeições nas ruas (a caridade aumenta na proporção da miséria). Só passa fome quem é mané. Aliás, sabiam que esse “mané” jocoso não tem nada a ver com o Manuel português? Sim, é coisa de personagem bíblico, conto numa crônica que integra o “A bíblia sagrada em crônicas profanas”.

Frequento o centro expandido da cidade. Além dos rios, costumo ultrapassar apenas as pontes Eusébio Matoso e das Bandeiras. Quase não vou ao fundão das periferias, onde sempre foi feio. No Ibirapuera, há concentração de moradores de rua na praça do obelisco. Na Paulista, há concentrações no MASP/Trianon e nos viadutos com a Consolação. No centrão, é uma concentração só, generalizada.

Segundo levantamento da prefeitura, a população de rua aumentou 31% nos últimos dois anos. Em 2019, eram 24.344 pessoas; em 2021 são 31.884. São 12.438 pontos de concentração de gente de rua em 2021, contra 6.816 em 2019. Mas a novidade visual aqui, agora, são as barracas: temos, em 2021, 6.778 famílias vivendo em barracas. Onde eu ia escrever “miséria pouca é bobagem”, escrevo Onde esse pessoal caga e toma banho?

A Praça Princesa Isabel é apenas um pornográfico detalhe. O que é pior: passar fome ou não ter lugar pra cagar?

Agora, entre essa multidão de pobres miseráveis, 6% são profissionais, não querem sair das ruas. Conheço ao menos um deles, folgado. Construiu uma casa de lona sobre três eixos e seis rodas. Fica no meu caminho, mas não vou dizer onde... ele e o cachorro.

O cachorro, sim, é uma boa arma de defesa. Os cachorros espantam os bichos e os homens selvagens. É uma moda caipira que pegou na cidade. Em quase todos os quintais há um ou vários cachorros escandalosos. Todo mendigo esperto tem um cachorro ao lado. Ao contrário dos gatos, os cachorros são cachorros.

Pela Florêncio de Abreu, no centro, vinha eu pensando (isso porque ia atravessar a praça da Sé dali a pouco): meu deus!, só a compaixão resolve esse problema. Como pode alguém pensar em armas, repressão, competitividade num miserê desses? Em São Paulo já tivemos tantos truculentos e truculências... e vejam no que deu: uma cidade conflagrada.

Uma conflagração pela miséria, não pelas armas!

Duas coisas me envergonham em São Paulo: a desigualdade social e a sujeira dos rios.

Rio de nervoso quando lembro do prefeito Dória em seus primeiros dias de mandato, vestido de gari na praça 14 bis, dando uma de zelador da cidade. Era 2017, ouvi pela primeira vez o termo “zeladoria” da boca de um administrador público. É batata! Nas bocas desses caras, o vocabulário sempre vai na contramão da realidade.

O que pode fazer o mané-cidadão-comum-com teto? Pode, no mínimo, não escolher a truculência, declarada de uns e camuflada de outros...

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