MISÉRIA PÔCA É BOBAJI. Confesso que minha fé na Humanidade diminuiu depois que fui assaltado. Pouco, continuo andando por aí, em meio ao povo, só que agora vou mais de bicicleta do que a pé. Depois que levaram meu troco mediante uma faquinha de 12 cm apontada para minha barriga, passei a desentender menos aqueles que, infantilmente, desejam portar uma arma.
Digo-lhes, para os de fora, que a coisa aqui tá branca! Os
pretos brancos de fome e de raiva nas ruas. Mais de raiva que de fome. Aqui na
megalópole o que não falta é gente servindo refeições nas ruas (a caridade
aumenta na proporção da miséria). Só passa fome quem é mané. Aliás, sabiam que
esse “mané” jocoso não tem nada a ver com o Manuel português? Sim, é coisa de
personagem bíblico, conto numa crônica que integra o “A bíblia sagrada em
crônicas profanas”.
Frequento o centro expandido da cidade. Além dos rios,
costumo ultrapassar apenas as pontes Eusébio Matoso e das Bandeiras. Quase não
vou ao fundão das periferias, onde sempre foi feio. No Ibirapuera, há
concentração de moradores de rua na praça do obelisco. Na Paulista, há
concentrações no MASP/Trianon e nos viadutos com a Consolação. No centrão, é
uma concentração só, generalizada.
Segundo levantamento da prefeitura, a população de rua
aumentou 31% nos últimos dois anos. Em 2019, eram 24.344 pessoas; em 2021 são
31.884. São 12.438 pontos de concentração de gente de rua em 2021, contra 6.816
em 2019. Mas a novidade visual aqui, agora, são as barracas: temos, em 2021,
6.778 famílias vivendo em barracas. Onde eu ia escrever “miséria pouca é
bobagem”, escrevo Onde esse pessoal caga e toma banho?
A Praça Princesa Isabel é apenas um pornográfico detalhe. O
que é pior: passar fome ou não ter lugar pra cagar?
Agora, entre essa multidão de pobres miseráveis, 6% são
profissionais, não querem sair das ruas. Conheço ao menos um deles, folgado.
Construiu uma casa de lona sobre três eixos e seis rodas. Fica no meu caminho,
mas não vou dizer onde... ele e o cachorro.
O cachorro, sim, é uma boa arma de defesa. Os cachorros
espantam os bichos e os homens selvagens. É uma moda caipira que pegou na
cidade. Em quase todos os quintais há um ou vários cachorros escandalosos. Todo
mendigo esperto tem um cachorro ao lado. Ao contrário dos gatos, os cachorros
são cachorros.
Pela Florêncio de Abreu, no centro, vinha eu pensando (isso
porque ia atravessar a praça da Sé dali a pouco): meu deus!, só a compaixão
resolve esse problema. Como pode alguém pensar em armas, repressão,
competitividade num miserê desses? Em São Paulo já tivemos tantos truculentos e
truculências... e vejam no que deu: uma cidade conflagrada.
Uma conflagração pela miséria, não pelas armas!
Duas coisas me envergonham em São Paulo: a desigualdade social
e a sujeira dos rios.
Rio de nervoso quando lembro do prefeito Dória em seus
primeiros dias de mandato, vestido de gari na praça 14 bis, dando uma de
zelador da cidade. Era 2017, ouvi pela primeira vez o termo “zeladoria” da boca
de um administrador público. É batata! Nas bocas desses caras, o vocabulário
sempre vai na contramão da realidade.
O que pode fazer o mané-cidadão-comum-com teto? Pode, no
mínimo, não escolher a truculência, declarada de uns e camuflada de outros...
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