sexta-feira, 15 de abril de 2022

CRÔNICA DA SEXTA FEIRA DA PAIXÃO

O domingo anterior ao domingo de páscoa é o domingo de ramos, sabiam? Nesse dia, minha irmã sempre leva uma folha de coqueiro pra benzer na missa mais próxima. Minha mãe guardava essa folhona pregada na parede do quarto, durante o ano todo. O episódio tem a ver com a unção de Betânia, narrado por João em Jo 12, 12. (vamos, gente, coragem! Tomem uma bíblia e consultem, é um dos maiores clássicos da literatura ocidental).

O domingo de páscoa, aquele que vêm logo depois da sexta feira da paixão, que, por sua vez, sempre vem 45 dias depois da terça feira gorda do carnaval (os 40 dias da quaresma entremeados), não tem dia fixo no calendário, todo mundo sabe. Isso explica porque, às vezes, o carnaval cai em março, contradizendo o samba.

Não tem dia fixo porque depende do equinócio de outono. O equinócio de outono, por sua vez, é um fenômeno mui concreto do movimento dos astros e planetas e da Terra deveras redonda (sempre recordando aos incautos que a contraposição entre Terra redonda e Terra plana é a representação simbólica do confronto entre a Física e a Metafísica).

A história de Jesus tem quatro narrativas (na Bíblia). São bem diferentes entre si, nos detalhes. É aquilo que os poetas repentistas chamam de 4 evangelhos. Aquele pequeno país do oriente médio, ali entre o Estreito de Bósforo e o futuro e artificial Canal de Suez, onde reinavam os Judeus, fora conquistado pelo Império Romano.

O povo era calejado nessa de ser dominado por impérios. No começo, foram dominados pelos egípcios, depois pelos persas, depois pelos gregos e, na sexta feira da paixão, o império da vez era o de Roma.

Os romanos eram espertos. Chegavam com as armas, dominavam tudo e, em seguida, entregavam o poder local aos fariseus locais. Fariseu é aquele que se alia incondicionalmente ao dominador superior para auferir benefícios pessoais.

Os fariseus judeus odiavam o Nazareno (Jesus, o homem de Nazaré) porque o tal era atrevido, apesar de analfabeto. Distribuía panfletos contra os sacerdotes em plena calçada em frente ao Templo.

Por fim, os fariseus, encorajados pelos saduceus (os aristocratas, que ficavam na moita), vendo que os nazarenos (Jesus e seus apóstolos) não desistiam nem desanimavam, pediram intervenção do ministério do trabalho.

Em Jerusalém, no tempo da sexta feira da paixão, havia duas autoridades: uma local e outra imperial. Herodes era a autoridade local, judeu, portanto; Pilatos era o procurador romano, a autoridade imperial.

Na quinta feira à tarde(Mt 26, 17-nota c), no tempo em que nesse dia ainda era feriado (antes de FHC, portanto), Jesus marcou encontro com seu pai, num parque chamado Getsêmani (foi ali que ele cunhou aquele bordão muito usado até hoje, o “Vigiai e orai”, consultem lá Mateus 26, 41 ou Marcos 14, 38).

Na saída do parque, uma multidão, encabeçada pelos sacerdotes, escribas e anciãos — a fina flor da burocracia judaica —, esperava Jesus para prendê-lo. Levaram-no preso ao Sinédrio, para ser julgado. Sinédrio era uma câmara legislativo-judiciária que fazia as leis e julgava os crimes locais (as leis e os crimes estratégicos, os romanos cuidavam...).

Julgaram e o condenaram à morte. Acontece que recentemente os romanos haviam acabado com essa festa do poder local condenar à morte. A pena capital era privativa dos próprios romanos, os reais donos do poder.

Como os locais — os compatriotas judeus — queriam ver Jesus morto, levaram-no ao procurador romano, Pilatos, e pediram que o condenasse (João, 18, 28).

Pilatos interrogou Jesus. Acabado o interrogatório, Pilatos saiu pra fora e disse aos judeus: “Não encontro nele nenhum motivo de condenação” (João, 18, 38). Já Lucas conta que Pilatos, não vendo crime na conduta de Jesus, enviou-o a Herodes, o rei local, só pra fazer média com os vassalos.

Mas Herodes, ele mesmo beneficiário do dízimo do Templo, e sabedor do desejo dos sacerdotes, devolveu o preso a Pilatos, acho que com um bilhetinho dizendo assim: cara, brigadu pela deferência, mas não tem jeito não, esse sujeito só matano (Lc 23, 8-12).

Foi então que Pilatos lavou as mãos. A multidão, insuflada pelos sacerdotes, queria ver a caveira de Jesus, ainda que, para isso, livrassem o safado do Barrabás. “Crucifica-o! Crucifica-o!!” (naquele tempo, os judeus executavam o condenado a pedradas, enquanto os romanos o penduravam pregado na cruz. Vale dizer que o poder de polícia e execução das penas cabia legalmente aos imperialistas). A tramoia é narrada por Mateus no capítulo 27, versículos 11 a 26.

Mateus diz que Jesus morreu ali pelas 3 horas da tarde da sexta feira (Mt 27, 45-50). Prenderam, condenaram e executaram o acusado em menos de 24 horas! Isso é o que chamo de burocracia escorreita! E interessada!!

Baixado o cadáver da cruz, apareceu um tal José, homem rico da cidade de Arimateia, e pediu o corpo de Jesus. Pilatos concedeu; Arimateia levou o corpo e o deixou num túmulo que havia acabado de construir. O corpo ficou lá sozinho a noite inteira e vai saber o que aconteceu nesse período... (Mt 27, 59-62).

Só no outro dia foi que os sacanas do Templo se lembraram de botar um guarda lá na frente para impedir qualquer tramoia ou fake News e poderem exibir o cadáver já fedendo após o terceiro dia, prazo em que o próprio Jesus havia dito que ressuscitaria; a exibição do cadáver pobre desmoralizaria os proféticos.

Acontece que, no terceiro dia, quando abriram o túmulo, encontraram-no vazio! Foi um quiproquó. Uns diziam que haviam roubado o corpo durante a primeira noite; outros diziam que ele havia subido aos céus.

A ferrenha guerra de narrativas durou uns 300 anos, até que o imperador Constantino falô chega. “Chega: o hómi subiu aos céus e ponto final!”.

E acaba império, começa império, estamos nessa até hoje.  

Frei Beto, em recente entrevista, disse que a forma eficaz de combater a pandemia de carolice que assola o país é usar a própria Bíblia para contra-argumentar. Cá entre nós, não tenho nenhuma pretensão de ser eficaz.

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