CÊ É PERIFÉRICO, MANÉ! O mundo está dividido em três grandes países: Oceania, o maior, composto pelo que antes eram EUA, Reino Unido e seus satélites; Eurásia, composto pelas antigas Rússia e Europa continental, e Lestásia, composto pelas ex-China, Japão, Coreia e Índia.
Isso era o escritor inglês George Orwell, em seu romance “1984”, publicado em 1948, início da guerra fria.
Acho que meu professor de Física no colégio, um dentista obtuso no interior, se inspirou no romance para nos dizer em 1973, auge da ditadura militar brasileira, com ares de premonitória sabedoria e teórica conspiração, que Mao Tsé-Tung e Leonid Brejnev não morreriam nunca, porque o Partido manteria o povo iludido de que continuavam vivos, eram imortais.
Como se sabe, Mao morreu em 1976 e Brejnev em 1982, a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas se desintegrou em 1991 e a República Popular da China já é a primeira potência econômica mundial em poder de compra, capitaneando uma mistura de socialismo com consumismo.
E para os novatos vai a dica de que Brejnev foi o secretário geral do Partido Comunista da URSS entre 1964 e 1982 e Mao comandou a China entre 1949 e 1976. Não era permitido falar Brejnev ou Mao em voz alta na via pública no Brasil em 1973, exceto para desacreditá-los, como fazia meu professor.
Talvez Orwell tenha se inspirado nas tretas entre Stalin e Trotsky, mas a distopia se passa na Oceania, sucessor dos EUA, onde havia uma língua em construção, criada pelo Ministério da Verdade, que quando estivesse finalmente completa impediria a expressão de qualquer opinião contrária ao regime.
Meu obtuso professor não poderia imaginar que o Ministério da Desburocratização criado pelos militares brasileiros já era a Novilíngua Orwelliana aplicada em seu duplipensar: um ministério da desburocratização para burocratizar!
Aquele desinformado teórico da conspiração em 1973 não poderia imaginar que justamente os plurais e democratas do bem EUA criariam as paraestatais Google, Facebook, Twitter, Amazon, após IBM, Apple e Microsoft, que se desdobrariam em Youtube, Instagran, Whatsapp e adjacências, como máquinas de vigilância e guerra.
Que justamente os paladinos do individualismo e da privacidade, os EUA, criariam e instalariam em todas as residências a Teletela!
Que os abertos e transparentes EUA combinariam algoritmo com sistemas massivos de notícias, para viabilizar o duplipensar “informação é ignorância”.
E para completar, como os EUA nunca tiveram um Big Brother, porque são e sempre foram humanistas-falíveis-mortais, inventaram um Big Brother de mentira que, mesmo assim, inunda as teletelas e hipnotiza a maioria dos cidadãos e cidadãs do país.
O engraçado é que a Lestásia, composta pela China, Japão e Índia, era o menor dos três impérios. Não sei se Orwell estava sendo irônico ou se errou feio. Mas a possibilidade da Rússia integrar toda a Europa e formar a Eurásia parece real demais, não acham?
Sei não, mas desconfio que os filhos de meus netos assistirão a filmes de uma Hollywood chinesa, tomarão uma Coca-cola coreana, enviarão seus filhos a uma Disneylândia tailandesa, farão compras anuais numa Miami vietnamita e colocarão seus filhos na escolinha de russo.
E farão turismo de inverno em Xangai ou Tianjin ou Moscou, de onde enviarão vídeos com batalhas de neve sob agasalhos alugados num Walmart mongol. Ah, e enviarão seus filhos mais espertos para estudarem em suas universidades.
Ah, e somente os profissionais do ramo saberão se é a Lestásia a inimiga da vez e a Eurásia a aliada ou vice-versa. Até porque a guerra é apenas um instrumento econômico para manter privilégios e desigualdades (no pesadelo distópico orwelliano, o país era dividido em classe alta (2%), classe média (13%) e classe baixa (85%). Essa ficção te lembra algum país real?).
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