O CAIPIRA E O CAMELÔ. O camelô entra espalhafatoso em meu
radar...; um furtivo foge afobado de fiscais após furtos a cidadãos finórios...;
furto? Furtar não é quando se subtrai sutilmente? Se for, aquilo não foi furto
não, aquilo foi bote.
Tal como o mais sonso gato, o jovem sonda o cidadão em seus
mínimos gestos ao celular. Não é maldade, é sonsice e performance. Maldade é
coisa de jararaca, gato é outra coisa: mão leve, olhar fixo e bote fulminante.
O governo quer privatizar a Petrobrás para se isentar do aumento da gasolina.
E camelô não furta, camelô vende. Camelô não toma, camelô
ganha: no grito, na arte e na manha. Sabe aquela estória do marido traído e do
sofá? O marido pegou a mulher com outro no sofá. Aí privatizou o sofá. Camelô
não vacila.
Camelô é instituição de cidade grande. Caipira é artesanato,
camelô é arte e ardil. Gasolina uma ova: diesel, gás, até o querosene das
lamparinas e dos aviões. Até velas!
Camelô já foi atração turística em São Paulo. Em
esporádicas excursões a São Paulo, caipiras ficavam fascinados com aqueles seres
extrovertidos e bem-dispostos a anunciarem improváveis produtos na via pública.
Isso na década de 1950/60.
Dizem que o próprio Sílvio Santos ficou rico vendendo
canetas nas ruas, lenda adequada a alguém que nunca deixou de ser camelô, ainda
que furtivamente, surfando na superfície da superficialidade. Eu tenho uma
relação de amor e ódio com os camelôs.
Ninguém mais usa o termo camelô, agora é ambulante ou
sacoleiro. É um raro caso de nacionalização de um francesismo, que coerentemente
guarda conformidade com a avacalhação da coisa. A atividade do camelô, com seus
produtos e clientes típicos, dá um tratado sociológico.
O camelô vende produtos portáteis, baratos e cuja utilidade
salta aos olhos. O produto oferecido pelo camelô não pode ser do tipo difícil,
daquele que a gente vai descobrindo sua utilidade aos poucos, como um chinelo
ou uma cumbuca ou uma mochila. Ou pode ser chinelo, cumbuca ou mochila descartáveis,
com preços de descartáveis e aparências de duráveis.
É bem ao contrário: o produto deve parecer muito útil de
cara, assim como deve ser clara a grande vantagem da relação custo/benefício. O
usuário deve descobrir em casa, aos poucos, que comprou gato por lebre e que a
genialidade era apenas aparente.
O badulaque é um pequeno trambolho logo esquecido n’algum
fundo de gaveta ou tão frágil que logo estraga e vai para o lixo. Odeio os
camelôs no que eles têm de gananciosos alegres; eles ingenuamente acreditam que
vão ganhar muito e fácil dinheiro com o genial produto.
Camelô nunca deve oferecer produto muito simples ou banal,
que remeta o comprador à invariável banalidade da própria vida. Porque toda compra
é uma fuga à mediocridade da existência. E camelô não vende produto de marca falceta.
Esse é outro nicho do mercado...
Os próprios camelôs são os primeiros a se iludirem com as
facilidades prometidas por suas pequenas engenhocas. Mas gosto da informalidade, liberalidade e
maleabilidade deles. Um camelô de verdade não briga: contorna, releva. Já os
ambulantes brigam até com deus por um espaço de sobrevivência...
Quando vejo um camelô em atividade, torço pela venda; venda
efetuada, desprezo o comprador e me comprazo com o sucesso do vendedor. O
comprador está sempre à espreita de pequenas e oportunas vantagens. Sai do prejuízo
por cima, sem desmoralização, porque na sua decisão de comprar estava implícito
o cálculo do risco: se não prestar o prejuízo é pequeno.
O cliente de camelô é tão raso quanto os produtos que compra,
é oportunista e gosta de levar vantagem; e ignora a engenharia social de que é
vítima. O que não tem contorno e é prejuízo certo é o preço do gás. Mas aí não
tem oportunismo ou ocasião ou fuga ou engenharia, é tudo preto no branco do
previsível.
A solução é caipira: nunca comprar lebres que miam.
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