quinta-feira, 12 de maio de 2022

O CAIPIRA E O CAMELÔ

 

O CAIPIRA E O CAMELÔ. O camelô entra espalhafatoso em meu radar...; um furtivo foge afobado de fiscais após furtos a cidadãos finórios...; furto? Furtar não é quando se subtrai sutilmente? Se for, aquilo não foi furto não, aquilo foi bote.

 

Tal como o mais sonso gato, o jovem sonda o cidadão em seus mínimos gestos ao celular. Não é maldade, é sonsice e performance. Maldade é coisa de jararaca, gato é outra coisa: mão leve, olhar fixo e bote fulminante. O governo quer privatizar a Petrobrás para se isentar do aumento da gasolina.

 

E camelô não furta, camelô vende. Camelô não toma, camelô ganha: no grito, na arte e na manha. Sabe aquela estória do marido traído e do sofá? O marido pegou a mulher com outro no sofá. Aí privatizou o sofá. Camelô não vacila.

 

Camelô é instituição de cidade grande. Caipira é artesanato, camelô é arte e ardil. Gasolina uma ova: diesel, gás, até o querosene das lamparinas e dos aviões. Até velas!

 

Camelô já foi atração turística em São Paulo. Em esporádicas excursões a São Paulo, caipiras ficavam fascinados com aqueles seres extrovertidos e bem-dispostos a anunciarem improváveis produtos na via pública. Isso na década de 1950/60.

 

Dizem que o próprio Sílvio Santos ficou rico vendendo canetas nas ruas, lenda adequada a alguém que nunca deixou de ser camelô, ainda que furtivamente, surfando na superfície da superficialidade. Eu tenho uma relação de amor e ódio com os camelôs.

 

Ninguém mais usa o termo camelô, agora é ambulante ou sacoleiro. É um raro caso de nacionalização de um francesismo, que coerentemente guarda conformidade com a avacalhação da coisa. A atividade do camelô, com seus produtos e clientes típicos, dá um tratado sociológico.

 

O camelô vende produtos portáteis, baratos e cuja utilidade salta aos olhos. O produto oferecido pelo camelô não pode ser do tipo difícil, daquele que a gente vai descobrindo sua utilidade aos poucos, como um chinelo ou uma cumbuca ou uma mochila. Ou pode ser chinelo, cumbuca ou mochila descartáveis, com preços de descartáveis e aparências de duráveis.  

 

É bem ao contrário: o produto deve parecer muito útil de cara, assim como deve ser clara a grande vantagem da relação custo/benefício. O usuário deve descobrir em casa, aos poucos, que comprou gato por lebre e que a genialidade era apenas aparente.

 

O badulaque é um pequeno trambolho logo esquecido n’algum fundo de gaveta ou tão frágil que logo estraga e vai para o lixo. Odeio os camelôs no que eles têm de gananciosos alegres; eles ingenuamente acreditam que vão ganhar muito e fácil dinheiro com o genial produto.

 

Camelô nunca deve oferecer produto muito simples ou banal, que remeta o comprador à invariável banalidade da própria vida. Porque toda compra é uma fuga à mediocridade da existência. E camelô não vende produto de marca falceta. Esse é outro nicho do mercado...

 

Os próprios camelôs são os primeiros a se iludirem com as facilidades prometidas por suas pequenas engenhocas.  Mas gosto da informalidade, liberalidade e maleabilidade deles. Um camelô de verdade não briga: contorna, releva. Já os ambulantes brigam até com deus por um espaço de sobrevivência...

 

Quando vejo um camelô em atividade, torço pela venda; venda efetuada, desprezo o comprador e me comprazo com o sucesso do vendedor. O comprador está sempre à espreita de pequenas e oportunas vantagens. Sai do prejuízo por cima, sem desmoralização, porque na sua decisão de comprar estava implícito o cálculo do risco: se não prestar o prejuízo é pequeno.

 

O cliente de camelô é tão raso quanto os produtos que compra, é oportunista e gosta de levar vantagem; e ignora a engenharia social de que é vítima. O que não tem contorno e é prejuízo certo é o preço do gás. Mas aí não tem oportunismo ou ocasião ou fuga ou engenharia, é tudo preto no branco do previsível.

 

A solução é caipira: nunca comprar lebres que miam.   

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