CONTO DE 500 PALAVRAS SOBRE CANIBALISMO. A primeira coisa que o cara comeu dela foi o dedo seu vizinho, aquele dos anéis. Ainda bem que ela só usava um anel, senão ele teria tido um arranhão maior na garganta.
Infelizmente o anel ainda era metálico; se fosse de plástico,
como todo bom anel moderno, ele nem teria sentido. Só que ele, o anel, sendo de
plástico, sairia íntegro do outro lado, e íntegro permaneceria por séculos
atravancando nosso caminho. Sendo de lata, e de lata vagabunda, desintegra-se
já dentro do estômago, vantagem para o fiofó.
Sim, o dedo anular, vizinho ao mindinho.
Quando jovem, o cara comia a bola. Em seguida, ainda jovem,
passou a comer a bíblia. Depois, passou a comer o smartphone.
No episódio do anular, seu vizinho do mindinho, o sujeito
já estava na casa dos 30 anos. Comeu o dedo, avançou para a mão, o braço e o sovaco.
Mas o sovaco, sendo um oco, como o próprio nome sugere, não tem sustança de se
morder, então ele atravessou aquela depressão e se concentrou nos montes
frontais.
Sim, comeu um seio, depois o outro.
Aí sim, se engasgou feio, com tanto silicone. Mas engoliu.
Aí sim teve uma indigestão, com tanta matéria orgânica e
inorgânica no estômago. Mas pelo fiofó a coisa fluiu fácil, deixando no terreno
algo parecido com uma corda de naylon.
Dos montes frontais, ele subiu ao rosto, mas antes de
comer, lambeu. Foi a pió viaje! O rímel era do Cambodja, a base, de Bangladesh
e o batom, da Coreia do Norte, vermelho e amargo. Sem contar os pontiagudos
pingentes nas sobrancelhas e nariz, que lhe espetaram a língua.
A língua derreteu em sua boca, feito um sorvete.
As orelhas eram só cartilagem. Aquelas tenras partes baixas
das orelhas também foram transformadas em pelancas, por enormes anéis espaçadores.
Mais uma vez, a garganta sofreu, com a mistura de nervuras e metais. O estômago
nem tanto, que já estava quase acostumado com tantos corpos estranhos sobre o
corpo.
O cabelo ele comeu, mas não me perguntem como, nem o
resultado.
Do céu à terra, da cabeça aos pés. Pés e joelhos têm sua
graça. Os joelhos foram descobertos na década de 1960, com o advento da
minissaia. Antes, ninguém os comia, sequer se sabia da existência deles. Só as
canelas que são intragáveis, ou melhor, incomíveis.
As coxas entraram no mesmo pacote que as nádegas, cujo
conjunto chamamos bunda. A parte mais apetitosa foi a bunda. Ora, nem precisava
falar, isso é intuitivo. Porque na bunda, mesmo com silicone, ainda sobra muita
carne. E carne de traseiro, forjada no vai e vem da vida, não aquela coisa esponjosa
dos seios. A fome era tanta que ele confundiu essa parte com filé.
Tudo isso no lanche da tarde, num pic nic no parque. Ou
teria sido sobre os bancos do carro, num drive thru? Enfim, fome, fruta e
felicidade.
Só sei que, quando o cara deu por si, tinha comido a moça.
The End.
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