Sabe
aquele padre que nunca foi convidado para a festinha de aniversário
do bispo? Aquele cabo que nunca foi pescar com o tenente? Aquele
chefe de seção que nunca compartilhou uma cerveja com o
superintendente? Aquele escriturário do fórum que se sente obrigado
a chamar o juiz de excelência? Aquele deputado que em 20 anos no
Parlamento só fez 4 discursos, sendo o mais extenso de 5 minutos?
(e só aprovou dois projetos irrelevantes). Sabe aquele artesão que
pensa que é artista?
O
integrante do baixo clero se caracteriza por ocupar uma posição
subalterna numa estrutura de poder.
É o padre ou pastor, que está
acima dos fiéis, mas sabe da sua insignificância perante a
hierarquia eclesiástica. É o militar de baixa patente,
temido/admirado em sua comunidade civil, mas impotente dentro do
quartel. É o executivo das camadas intermediárias, chamado de
chefe ou supervisor ou gerente, que só executa normas, sem nenhuma
autonomia. É o funcionário público, admirado em casa por ter
passado no concurso, mas perdido nos meandros dos protocolos
burocráticos. É o deputado respeitado e temido em seu reduto e ignorado
dentro da Câmara. É o suposto intelectual que só reproduz e
só copia e é considerado a inteligência da família.
Mas
o integrante do baixo clero não é só isso. Para que pertença
realmente ao baixo clero, ele precisa ser medíocre. Não ter
capacidade intelectual para desenvolver antídotos pessoais à
irrelevância de sua existência. Para pertencer ao baixo clero, o
sujeito precisa ser, além de insignificante dentro da estrutura a
que pertence, um frustrado.
Entendido
portanto que ninguém da ralé, da base mais rasteira da pirâmide
social, pertence ao baixo clero. Esses assumem naturalmente a própria
pequenez, sem qualquer ilusão de poder, cientes da condição de rebanho; desenvolvem estratégicas próprias de sobrevivência e legitimação. O baixo clero se localiza, essencialmente, dentro da classe
média. A classe média baixa é um celeiro de baixo clero.
O
baixo clero, ainda que tosco, sente os terríveis efeitos da
arrogância dos superiores. E cozinha sua impotência, à espreita de
se vingar.
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