De
longe vi a folha de papel sulfite, tamanho A4, pregada na banca. Não
pelo tamanho, mas é que só tinha ela naquele lado. Já fiquei
curioso, porque faz 40 anos que aquela lateral da banca é cinza
metálico puro. E faz 40 anos que vejo o casal-dono labutando nela,
eu tinha nenhum filho e um turbilhão de cabelos. Até hoje não sei
o nome dos donos da banca, embora sejamos velhos conhecidos. Fui
chegando mais perto, tinha coisa escrita, não era uma simples folha
em branco, como tive a impressão, logo que a vi de longe. Letras de
computador impressas numa impressora caseira. “VENDO TERRENO NO
MORUMBY, LOCALIZAÇÃO NOBRE. PERTO DO TÚMULO DO AIRTON SENNA. 16
MIL. TEL. (11) TAL TAL TAL”. Do outro lado da banca, outra A4 com
os mesmos dizeres. O anunciante está realmente querendo vender o
terreno. Tô sabendo sim que terreno de cemitério já virou ativo
imobiliário. Só num tô acostumado. Não frequento os veículos
publicitários onde tais anúncios são publicados. Não converso
sobre o assunto, quase todos meus amigos são meio imprevidentes e
digo mais: irresponsáveis! A descendência que se lasque com seus —
lá deles, meus amigos — corpos, de maneira que ignoro detalhes
óbvios do cerimonial da morte. E está claro que se o dono do tal
terreno perto do túmulo do Senna quiser me transferi-lo(me recuso a escrever "me o transferir") de graça,
eu não aceito. Mas fiquei curioso sobre o grau de proximidade do tal
terreno em relação aos ossos do exímio piloto. E encafifado com a
suposta preferência do público em ter seus restos perto dos restos
do Airton. Porque o anúncio não deixa dúvidas quanto a essa
preferência. Eu, se me importasse com meus restos, não gostaria de
ser enterrado perto do túmulo do ídolo. Ora, sabe-se que o túmulo
do piloto é objeto de muitas visitas diárias. Deve ser um vai-e-vem
danado. Quando eu morrer, quero que meus restos tenham sossego. Gente
sentando sobre minha lápide, caçoando do meu epitáfio; gente se
aliviando ali mesmo, na urgência de um banheiro inalcançável… No
dia de finados, então, deve ser um escarcéu, meu túmulo sob a
multidão incabível, meus entes queridos impedidos de se aproximar,
eu, ops, meus restos ali ao lado sem nenhuma lágrima, assistindo ao
vizinho famoso se banhar em ignaras lágrimas de prantos vários. No
dia seguinte, quando o coveiro for remover a parafernália de
oferendas sobre o túmulo do Airton, aquelas flores já fedendo, é
evidente que ele, o coveiro, vai usar a minha pedra como apoio para
aquela imundíça, até a chegada do caminhão de lixo. Bom, não
creio que os vendedores do terreno sejam os donos da banca. Acho que
estão ajudando algum amigo. Sei lá, alguém que desistiu de morrer.
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