(Continuação de "VIDA ETERNA")
Com 120 anos, eu era
um homem absolutamente solitário. Todos os meus amigos e os filhos
dos meus amigos já haviam falecido, meus tataranetos nem se
aproximavam de mim (não precisava, eu tinha a saúde de um homem de
40 anos), por causa da minha ranhetice e da minha ignorância.
Sim, eu era um homem ignorante — no bom sentido, de
desconhecer as novas tecnologias, os novos costumes, até o
vocabulário, a literatura, a arte, a culinária. Eu continuava
comendo arroz com feijão e ovo frito e dava um trabalhão danado pra
encontrar esses ingredientes, eu morava só em minha casa, que
parecia a toca de um animal pré-histórico, com móveis e
eletrodomésticos e pratos e talheres só encontrados em museus.
Aliás, meus tataranetos, tantos, eram tão estranhos, não via neles
nenhum traço familiar.
Com 120 anos de idade, eu era o homem mais experiente do
mundo. Eu era o homem mais sábio do mundo, aquela sabedoria real,
que só o passar do tempo confere. E era essa sabedoria que impedia
que eu aprendesse as novas maneiras e rotinas de se viver e manusear.
Porque a aprendizagem depende do interesse, do entusiasmo. Aos 120
anos, eu não tinha nem uma coisa nem outra. Meu olhar batia num
semblante e resvalava rápido na alma do interlocutor (lembrem-se de
que eu não havia ultrapassado ainda nem o limiar da presbiopia). E o
que eu via me desanimava, pela ausência de ineditismo. Eu já havia
visto tudo. Eu já havia provado tudo (lembrem-se de que eu estava
nessa vida quarentona e eterna há 59 anos, desde que, aos 61, me
aparecera Elae, e tivera tempo e disposição para correr atrás de
todos meus desejos).
Mulher, nem pensar, nenhuma mulher me suportava (sendo que, devo
confessar, a recíproca era verdadeira. A velha mais apetitosa era
criança, perto de mim).
Então, eu, aos 120 anos de idade, era um homem absolutamente
anacrônico em plena forma. E havia o agravante de que eu não usava
remédios nem ia ao médico. Pela simples razão — esqueceram? —
de que meu corpo ainda não precisava. E isso era mais um fator de
isolamento. Limitava minha sociabilidade(eis que a sociabilidade dos
velhos se dá nas antessalas de consultórios e hospitais, ou idas a
drogarias). Tudo bem, eu ainda tinha disposição para praticar
esportes, muitos ainda em bases competitivas. Mas era impossível
conviver com a infantilidade dos homens e mulheres de 35 anos ou
aprender as regras das novas modalidades. E por mais que eu me
refugiasse no sofá a ver TV, minha coluna vertebral continuava
incólume, a sustentar minha saúde indestrutível. (os gadgets de
então — microcomputadores e smartphones haviam desaparecido; a TV
funcionava, parada no tempo — estavam fora do meu alcance, por
incapacidade de aprender a manuseá-los).
Sei lá, estou aqui me beliscando, sonho tenho certeza de que
não é. Acho que eu não devia ter comido tanto. Poderia ter
esperado um pouco mais pra deitar, realizado os exercícios de
relaxamento receitados pela fisioterapeuta(se não fosse tão
preguiçoso). Poderia ter feito uma reza...
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