quinta-feira, 14 de junho de 2018

VIDA ETERNA II.

(Continuação de "VIDA ETERNA")

Com 120 anos, eu era um homem absolutamente solitário. Todos os meus amigos e os filhos dos meus amigos já haviam falecido, meus tataranetos nem se aproximavam de mim (não precisava, eu tinha a saúde de um homem de 40 anos), por causa da minha ranhetice e da minha ignorância.
Sim, eu era um homem ignorante — no bom sentido, de desconhecer as novas tecnologias, os novos costumes, até o vocabulário, a literatura, a arte, a culinária. Eu continuava comendo arroz com feijão e ovo frito e dava um trabalhão danado pra encontrar esses ingredientes, eu morava só em minha casa, que parecia a toca de um animal pré-histórico, com móveis e eletrodomésticos e pratos e talheres só encontrados em museus. Aliás, meus tataranetos, tantos, eram tão estranhos, não via neles nenhum traço familiar.

Com 120 anos de idade, eu era o homem mais experiente do mundo. Eu era o homem mais sábio do mundo, aquela sabedoria real, que só o passar do tempo confere. E era essa sabedoria que impedia que eu aprendesse as novas maneiras e rotinas de se viver e manusear. Porque a aprendizagem depende do interesse, do entusiasmo. Aos 120 anos, eu não tinha nem uma coisa nem outra. Meu olhar batia num semblante e resvalava rápido na alma do interlocutor (lembrem-se de que eu não havia ultrapassado ainda nem o limiar da presbiopia). E o que eu via me desanimava, pela ausência de ineditismo. Eu já havia visto tudo. Eu já havia provado tudo (lembrem-se de que eu estava nessa vida quarentona e eterna há 59 anos, desde que, aos 61, me aparecera Elae, e tivera tempo e disposição para correr atrás de todos meus desejos).

Mulher, nem pensar, nenhuma mulher me suportava (sendo que, devo confessar, a recíproca era verdadeira. A velha mais apetitosa era criança, perto de mim).

Então, eu, aos 120 anos de idade, era um homem absolutamente anacrônico em plena forma. E havia o agravante de que eu não usava remédios nem ia ao médico. Pela simples razão — esqueceram? — de que meu corpo ainda não precisava. E isso era mais um fator de isolamento. Limitava minha sociabilidade(eis que a sociabilidade dos velhos se dá nas antessalas de consultórios e hospitais, ou idas a drogarias). Tudo bem, eu ainda tinha disposição para praticar esportes, muitos ainda em bases competitivas. Mas era impossível conviver com a infantilidade dos homens e mulheres de 35 anos ou aprender as regras das novas modalidades. E por mais que eu me refugiasse no sofá a ver TV, minha coluna vertebral continuava incólume, a sustentar minha saúde indestrutível. (os gadgets de então — microcomputadores e smartphones haviam desaparecido; a TV funcionava, parada no tempo — estavam fora do meu alcance, por incapacidade de aprender a manuseá-los).

Sei lá, estou aqui me beliscando, sonho tenho certeza de que não é. Acho que eu não devia ter comido tanto. Poderia ter esperado um pouco mais pra deitar, realizado os exercícios de relaxamento receitados pela fisioterapeuta(se não fosse tão preguiçoso). Poderia ter feito uma reza...

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