quinta-feira, 14 de junho de 2018
VIDA ETERNA.
— Faça um pedido — disse a figura em minha frente, na sala da minha casa, onde até então eu me encontrava sozinho.
— Hã!? — reagi assustado.
Antes que eu tomasse pé da nova situação, a figura continuou, rápida:
— O senhor tem direito a um pedido.
Era um tipo andrógino, vestido com uma roupa gozada, lembrava um anjo, lembrava um gênio, sei lá, não vi de onde ele saiu. Quando vi, estava dentro da minha casa, conversando comigo. Eu estava meio sonolento, só tive condições de dizer “O quê?”
— Posso realizar o seu maior desejo — confirmou a figura.
Olhei em volta, olhei pela janela, estiquei minha perna danada, era minha casa mesmo e eu estava acordado. Mas continuei na pasmaceira: “Que história é essa?” esbravejei na direção dela.
— Estou esperando — insistiu, paciente, a pessoa.
— Pela vida eterna! — respondi, agora firme, com voz segura, para não deixar dúvidas de que eu era o chefe do domicílio, eis que a titular-chefa não se encontrava e, para o efeito específico de expulsar um estranho intruso, eu poderia me investir provisoriamente na função de dono da casa.
— Pois não — respondeu o(a) sujeito(a).
— Pois não o quê? — inquiri, exasperado.
— O senhor terá vida eterna. Agora, por favor, escolha a idade em que gostaria de viver para sempre.
Então comecei a perceber que a coisa era séria. A andrógino me chamava de senhor, mas não parecia nada subserviente. Antes, parecia um robô, sem brechas para titubeios, depois que acordei de vez. E agora eu já estava bem acordado e a figura na sala da minha casa era incontornável. Impossível o diálogo. Então retomei a calma, ao menos na maneira de falar, e retruquei, querendo saber que história era aquela de vida eterna. Ela(e) respondeu que isso já era assunto encerrado. Agora eu devia dizer a elae qual a idade. “Idade de quê?”, perguntei. Elae explicou mais uma vez que eu devia escolher a idade com que viveria para sempre. Eu poderia ser uma eterna criança, um eterno adolescente, um eterno velho...
— Peraí — alterquei — eu nunca pensei na vida eterna, eu nem sou religioso.
— Não se trata daquela vida eterna prometida por Deus não — explicou elae — é essa nossa vidinha mesmo, com todos os percalços da idade que o senhor escolher.
— Se eu não quero nem aquela vida eterna prometida por Deus, lá no bem bom do Paraíso, imagina se vou querer essa aqui, em plena floração protofascista, sem contar essa movimentação toda pra reformar a Previdência…
— Já disse que isso é assunto vencido. O senhor afirmou, agora há pouco, em palavras bem pronunciadas, que desejava a vida eterna. O desejo lhe foi concedido. Agora é preciso escolher a idade, para concluir o procedimento. Se dentro de dois minutos o senhor não escolher, escolho eu — sentenciou Elae.
Bom, pra esse tipo de dilema, dois minutos é uma eternidade. Dá pra analisar e repassar uma vida inteira. Pouco antes de terminar o tempo, eu decidi escolher a idade de 61 anos, que é a idade em que o homem está no auge do seu vigor físico e intelectual. Mas aí lembrei da minha hérnia de disco numa das lombares e, considerando que essa minha tese poderia gerar alguma polêmica, resolvi escolher a idade de 40 anos para viver pra sempre, já que não tinha mais jeito.
Quando anunciei minha escolha, Elae me explicou que o tempo continuaria correndo, eu faria aniversário todo ano, etc., só que eu seria um eterno quarentão. Eu envelheceria só no calendário e nos virtuais registros cadastrais. Quanto à minha escolha — 40 anos — Elae me parabenizou, disse que era uma escolha sábia, que essa sim é a melhor idade, inclusive para as mulheres. Eu estava sem jeito, não sabia onde pôr a cara, me submeter àquela besteira... Então me virei resoluto em direção a Elae para chutar o pau da barraca, ela(e) havia desaparecido. E eu me sentia com o corpo e a mente de um sujeito de 40 anos e a experiência de um de 61 anos. Então pensei que aquilo poderia ser bom. E me sentei no sofá. E viajei no tempo. (CONTINUA EM "VIDA ETERNA II").
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