O
PRIMEIRO EBOOK QUE LI.
Devo
confessar a vocês que o primeiro livro digital (ebook) que li na
vida tem o seguinte título: “UM MILHÃO DE PASSOS PENSOS. No
Picadão de Cuyabá”, de um certo Roberto Buzzo. Foi publicado
neste mês. Ora, sou antigo, tenho mais de sessenta. Gosto de livro
de papel, com no mínimo 200 gramas de peso. E, de preferência, que
tenha mais de 150 páginas. E que esteja surrado, se obtido em
biblioteca ou sebo.
Mas,
enquanto autor, fujo do livro impresso. É tudo muito caro: edição,
diagramação, impressão. E, distribuição! A distribuição
(colocar o livro nos pontos de venda) é quase tudo. Escrever é
fácil, difícil é vender. Isso é assim para qualquer produto que
se queira vender, desde um alfinete até um avião, passando pelo
livro, que é uma mercadoria tanto quanto um sabonete.
Qualquer
campanha publicitária custa uma fortuna. E o retorno é incerto. E
tem coisa mais constrangedora do que um autor fazendo propaganda de
seu livro? Tem: um médico ou um hospital fazendo propaganda de seus
serviços.
Mas
o mais constrangedor do livro impresso é o estoque. Um livro de
21x14x1,5cm pesa cerca de 200 gramas. Duzentas unidades desse livro
ocupa no espaço da sua sala um espaço de 100(cem) litros e pesa
tanto quanto uma saca de batatas (40 kg).
É
quase inevitável que autores desconhecidos (em geral, de primeira
viagem) e metidos a besta (que bancam a publicação, praticamente a
única maneira de ver o livro publicado) passem pelo vexame de
tropeçar no trambolho na sala por largo tempo, alguns até o fim da
vida. Poucos mais pernósticos passam a vida a importunar pedestres
próximo a museus, tentando desovar o estoque.
Porque
o pretensioso manda imprimir 300 exemplares. Vende 100, com sorte e
muito esforço. E fica com os 200 atrapalhando o direito do seu
cônjuge de ir e vir.
O
livro digital (ebook) é uma beleza. Pesa 0,00, tem o volume de 0,00
e até na memória do seu smartphone quase não existe (o meu ocupa
meros 1300 Kb). E, num piscar de cliques, é colocado lá nas
prateleiras virtuais das maiores livrarias do mundo, ao lado dos
clássicos e dos best-sellers.
Quer
dizer, mais ou menos. Menos, menos. De fato, ele está lá, público,
à disposição de qualquer neozelandês, russo, francês. O diabo é
que ele está entre bilhões de bits, um grão de areia no deserto.
Seus
amigos e colegas e familiares não se interessam por ele, porque
santo de casa não faz milagre. E os demais mortais têm mais quê
fazer a perder tempo com as ideias de um desconhecido. Não, os
demais mortais jamais tomarão conhecimento da sua existência. Para
que o ebook saia desse biliardário anonimato, é preciso que um
conhecido o mostre.
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