quinta-feira, 3 de março de 2016

Carlos Drummond de Andrade.

SENTIMENTO DO MUNDO

     A última coisa que o Carlos Drummond de Andrade poderia ser era andarilho. Porque ele não balançava os braços; em termos de estilo e beleza o jeito de andar do C.D.A. era inversamente proporcional aos seus poemas. Em italiano não  c’è  poema, só poesia.  Balançar os braços ao andar é belo e proveitoso. Penso na monotonia ao andar, de um terceiro olho na ponta do dedo indicador do C.D.A., sempre o mesmo cenário do chão próximo. Outro dia num filme vi o C.D.A. sentado pensativo  num banco da praia de Copacabana (ou seria Ipanema?), imobilizado em bronze. Experimentei um sentimento de desconforto; se eu fosse herdeiro, pedia pra tirar aquela estátua, parece uma alma penada, chovia, ninguém na praia, só o C.D.A., impassível, sentado no banco, como se fora uma tarde morna e seca; se eu fosse herdeiro, pedia pra tirar.

     Elomar disse, num show no Sesc Pompéia há anos, que achava que nunca fizera uma música alegre, não tinha nada alegre, só música triste. C.D.A.  em bronze na praia em tarde de chuva é coisa triste. Sussuarana, de Heckel Tavares e Luiz Peixoto,  na voz de Inezita Barroso, sob o acompanhamento de Roberto Correa, na viola, é coisa triste (para mim, viola é sempre caipira, me nego a reconhecer aquela outra viola das orquestras). Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira, tem tristeza no nome. Penso que o homem verdadeiro é triste, que a alegria é uma brisa indecisa,  e que a felicidade é apenas o tema de uma canção comercial.

     A solidão e os descampados e as montanhas e os grandes rios são  tristes. As estradas secundárias são tristes, as estradinhas de terra, as estradas vicinais são tristes. O pôr do sol tingindo de vermelho as nuvens é coisa triste (os aviões vermelhos são portadores de tristes premonições).  A imensidão do mar numa praia deserta? Não respondo! O mar não é coisa minha, conheci o mar aos dezoito anos, nunca aceitarei um mangue, nunca comerei um camarão com naturalidade, sou homem de água doce.

     Preciso urgentemente escrever um poema, preciso urgentemente fazer uma caminhada. Daqui a pouco começo a ter dor de cabeça, preciso ver o mundo do cume de uma montanha, preciso cheirar o mundo do interior de uma mata, preciso urgentemente ver uma cobra. Faz tempo que não vejo uma cascavel, faz tempo que não enfrento uma jararaca, não vale o Instituto Butantã.

     Meu deus, meu coração pulsa firme; meu deus, preciso de um conhaque. Meu deus, preciso de dois conhaques... meu deus, os meus são sãos e me acomete a solidão. Meu deus, os meus são sãos e eu estou só, cadê a coerência? Deus, não fui feito para me submeter aos teus caprichos, cadê minha razão que me não vale. Razão, oh razão?

Nenhum comentário:

Postar um comentário