sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

DONA FLORINDA E SEUS DOIS MARIDOS

     Antes quero dizer que esse caso aconteceu de verdade e não tem nada a ver com a Dona Flor da Sônia Braga/J.Amado nem com a mãe do Kiko, do Chaves/Bolaños. Nem com a Regina Casé do filme Eu, Tu, Eles, roteiro de Elena Soarez.

     Primeiro, porque Dona Florinda era alemã, assim como seus dois maridos.
Segundo, porque a alemã não devia ser tão ranzinza quanto a mexicana nem sensual como a carioca, ops, baiana, ops... (pois fiquem sabendo que a Sônia Braga é paranaense!).

     Bem, digamos, não tenho tanta certeza quanto ao tipo de mulher que era a minha dona Florinda – a alemã do sucedido que estou narrando. Mas acho que ela não era de se jogar fora não, porque...

     É o seguinte: a dona Florinda alemã era casada com Fred, que era irmão de Fritz. Sendo que os nomes todos são fictícios, eis que a história é verdadeira e eu não quero confusão pro meu lado.

     Sucedeu que o casamento se deu em inícios de 1914... começo do sec. XX, um tempo em que ainda era romântico ir pra guerra. Um tempo em que a infantaria ainda não sabia o que era tanque/blindado, um tempo em que não havia drones...

     Um tempo de guerra, em que os homens morriam feito gafanhotos... morriam por toda parte e de todo jeito; um tempo em que os homens jovens morriam por motivos banais como moscas pela pátria. Um tempo em que ser chamado às armas pela pátria era quase como receber a sentença capital.

     O fato é que o Fred foi convocado pelo exército alemão e encaminhado ao front. Quando o soldado ia para a zona quente da guerra, ele já encomendava a própria alma, assim como os parentes. Ele morria pelas balas/bombas inimigas ou amigas ou pelas bactérias. E quando escapava dessa troika, voltava quase sempre capenga...

     Diante do inevitável, dona Florinda já foi encomendando a alma do marido e ao mesmo tempo já foi providenciando sua substituição... quero dizer, isso é maledicência minha, não sei, mas o fato foi que ela logo se entendeu com o      Fritz, irmão do Fred, que voltara da guerra rápido, com um dedo estourado por um tiro “acidental” logo no início, antes de participar de qualquer batalha e não tendo ficado nem 4 horas dentro de uma infecta trincheira. (esse tipo de baixa só foi possível no começo da guerra, porque depois os profissionais militares ficaram espertos).

     Digo maledicência minha porque não levo em conta certos condicionantes, como a conjuntura da época, os tipos de famílias dos envolvidos, os costumes... Por exemplo, essa prática, vista em vários povos, do marido morto ser substituído pelo irmão junto à viúva. Também faço de conta que não fiquei sabendo do boato em que se dizia que o próprio Fred pediu ao irmão, na hora da partida, que ficasse em seu lugar no matrimônio...

     Além do mais, a dona Florinda tinha 21 anos e o Fritz tinha 23 e, nessa idade, não há tatu que aguente, como se diz lá na minha terra, não há quem cerque os hormônios morro abaixo ou morro acima. E, além do mais – alemães que eram – ambos haviam estudado vários filósofos e conheciam a dialética da vida. Sendo que o Fred, em meio à fuzilaria da frente de batalha, já estaria mortinho e enterrado...

     O certo é que a dona Florinda e o Fritz – o substituto – se casaram pensando que o Fred estava morto; era um tempo difícil, as comunicações se davam por cartas, que demoravam meses para serem entregues, isso quando não extraviavam... Era uma vida de incertezas em que, entretanto, se devia pensar rápido, sob pena de apanhar um estilhaço bem distribuído ou levar um tiro mal endereçado ou apodrecer isolado num desvão de mundo.

     Contudo, o Fred estava vivo. Tanto que voltou e...

     Três anos depois o Fred bateu na porta do antigo lar. Voltou inteiro, apesar das inúmeras batalhas em que participou. Claro, todo arranhado, principalmente a alma... mas inteiro, com todos os dedos, todos os ossos e todos os membros !

     Bom, houve um certo embaraço, sim, não nego, porque, apesar do racionalismo alemão, do sangue nórdico e da guerra de trincheiras, convenhamos que é uma situação embaraçosa universal.

     O tempo estava ensolarado, mas fazia frio. O Fred do lado de fora, a porta aberta, Florinda e Fritz do lado de dentro da casa. De repente, bateu um cansaço da guerra e da vida no casal que, sem palavras, desmoronou em duas cadeiras que estavam próximas à mesa de jantar ali ao lado, como cães desapontados que procuram seu canto com o rabo entre as pernas.

     Estavam tristes? Estavam alegres com a volta do irmão/marido? Estavam perplexos. E a perplexidade cansa, daí porque sentaram em volta da mesa sem palavras.

     Já o Fred estava cansado de verdade. Caminhara muito até chegar ali, o país se desorganizava, não havia trens nem estradas para civis ou desativados. Além disso, carregava uma mochila pesada. E a voz estava fraca por causa dos ventos gelados que sofrera no caminho. E afinal aquela era a sua casa... Então ele entrou e também se sentou em volta da mesma mesa em que estava o casal e isso foi a salvação da lavoura.

     Porque não há problema que não se enfrente, quando os problemáticos se sentam em volta da mesma mesa ao mesmo tempo.


     Sim, claro, passaram a conviver os três, que tinha pra todo mundo... essa dona Florinda !! Tempos depois emigraram para o Brasil, trabalharam, economizaram dinheiro, fundaram uma pequena metalúrgica, morreram de velhos.

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