VIDA E LITERATURA
Já ouvi alguém dizer que o
populacho é romântico. O pai do Chico disse que o brasileiro pensa com o
coração, ao invés de usar o cérebro. A toda hora encontramos pessoas
impulsivas, afoitas. Os crimes passionais acontecem todos os dias. Me parece
que boa parte das pessoas - talvez a maioria -, quando livres, apenas reagem,
como os animais: comem, quando estão com fome; bebem, quando estão com sede;
compram, quando o objeto lhes aparece na frente ou quando veem o vizinho
usando. Parece, realmente, que o populacho é romântico. E quem é o populacho?
O populacho somos todos nós, em
algum momento, uns mais outros menos. O populacho somos todos, intelectualmente
imaturos. Porque - ainda bem - a imaturidade intelectual é democraticamente
distribuída entre todas as classes sociais e entre todos os níveis de
escolaridade e entre todos os povos orientais ou ocidentais, nortistas ou
sulistas, brancos, pretos ou amarelos.
Vejamos como a literatura trata
dessa questão (é muita pretensão minha. Reformulemos para "Vejamos alguns
aspectos literários ligados ao tema", ou, como sugeriria um
doutor-orientador para uma tese de pós graduação: "Práticas românticas
catalogadas entre os moradores do bairro x, à vista da literatura de José de
Alencar em Iracema e O Guarani").
Iracema era uma nativa da região
que hoje se chama Ceará. Era uma índia, como a chamavam os estrangeiros em
meados do séc. XIX, quando a obra foi escrita, e até hoje, e desde que europeus
aportaram nesta porção escanteada da Terra, no séc.XV. Uma denominação muito
imprópria, mas, o que interessa agora é que ela era virgem, tinha os lábios da
cor vermelha e de gosto doce como o mel...e também eram úmidos, os cabelos eram
negros como a asa da graúna e compridos como o talhe da palmeira, a pele era
alva e pura como um foco de algodão, o colo tinha linhas suaves e delicadas...
o escritor não comparou o vermelho a nada, não sei porquê. Ou seja, era o sonho
de mulher de todo homem romântico de todos os tempos. Em O Guarani, romance da
mesma época, o "índio" Peri, da tribo dos guaranis, era valente,
corajoso, forte e...subserviente. Sim, a subserviência era uma virtude naquela
época e hoje também, segundo o receituário de todos os catecismos. Ceci, a
mocinha europeia, era linda, sonhadora; para os escritores daquela época, toda
moça casadoira era linda, todo moço casadoiro era valente, o mocinho sempre
atirava primeiro, apesar de ter sacado por último...
Essa ideia de mocinho e bandido
dos filmes de Roliúde e das novelas da Globo e de toda a subliteratura
encontrada aos cestos nas bancas e na porta da frente das livrarias é
tipicamente romântica. O maniqueísmo da divisão das pessoas em boas ou más, a
proliferação de vilões ou bandidos, o amor, o ódio, - são produtos ou ideias
tipicamente românticos, de pessoas que pensam com o coração. Ah, sim, o
individualismo também é uma ideia romântica. Não sei porque me veio agora um
objeto de comparação: um cesto de bacuri vazio.
Se os românticos
são comandados pelo coração, agem emocionalmente. Popularmente, são conhecidos
por impulsivos, emotivos, “estourados”, “que não pensam direito”, etc. Citei
José de Alencar, romancista cearense de meados do séc. XIX, expoente do
romantismo brasileiro na literatura, com seus “Iracema” e “O Guarani”, em que
os personagens são idealizados – há heróis e vilões bem definidos, estes são
sempre muito maus, aqueles são sempre muito bons -, as coisas funcionam na base
do tudo ou nada, não há meio termo, não há nuances, não há dialética, tudo é
simplificado, esquematizado, pré-concebido, há muito inconformismo, traição,
paixão, amor e ódio, as soluções são caseiras, a sociedade é um ajuntamento de
indivíduos sem liga. Chutei que, ainda hoje, grande parte da população, talvez
a maioria, age segundo padrões românticos e que isso está democraticamente
distribuído entre ricos e pobres, cultos e ignorantes, orientais e ocidentais.
Agora, faço o contraponto.
Tomo os realistas e o realismo como motivos de especulação. É assim que me vem
à lembrança o “chato” Machado de Assis, maior expoente do realismo literário
brasileiro que sucedeu ao romantismo, na segunda metade do séc. XIX. Em seu
famoso “Dom Casmurro”, cujo título é o apelido do narrador já velho, este, após
acusar sua mulher Capitu de traição com seu amigo Escobar, sem nunca ter
certeza, e perdê-la; após perder o filho, após perder amigos e referências,
tinha tudo para ser eternamente infeliz; entretanto... após explicitar
todas as dramáticas mudanças que resultaram em sua vida atual, constata
que “(...) vida diferente não quer dizer vida pior; é outra
coisa. A certos respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos
encantos que lhe achei; mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez
molesta, e, de memória, conservo alguma recordação doce e feiticeira. Em
verdade, pouco apareço e menos falo. Distrações raras. O mais do tempo é gasto
em hortar, jardinar e ler; como bem e não durmo mal.” .
Enfim, o realista pensa com
o cérebro. Se, na literatura, isso passou a acontecer há 150 anos, na vida real
a coisa ainda está embolada, com ligeira vantagem romântica, segundo meu
olhômetro otimista. Contudo, não é verdade que o romantismo desapareceu da
literatura – ele continua com a mesma intensidade, vide a proliferação do
maniqueísmo entre personagens e enredos nas ficções impressas, televisivas e
cinematrográficas; ele apenas perdeu prestígio acadêmico. Da mesma
forma, as atitudes e o pensamento românticos perderam prestígio entre os “bem-pensantes”, mas,
são cada vez mais cultivados pelo sistema econômico e seu motor, que é o
consumismo – totalmente dependente dos impulsos dos
cidadãos-consumidores.
Parece que associo
romantismo a consumismo. Assim, nada mais conflitante que consumismo e
realismo. O realista, como o nome diz, tenta se aproximar da realidade. Nessa
busca, ele, muitas vezes, descamba para o pessimismo. Brás Cubas, o personagem
de Machado, encerra sua narrativa dizendo que não teve filhos, que não
transmitiu a nenhuma criatura o legado da nossa miséria. O realista bem
sucedido consegue ver os prós e os contras de toda proposta e isso tende ao
imobilismo, ou seja, à carência de iniciativa. Em verdade, um realista nunca
casaria... nunca teria filhos, nunca iniciaria um empreendimento, nunca se
engajaria numa revolução. Parece que um mundo de realistas seria bem
“atrasado”. Porém, com certeza, num mundo de realistas não haveria guerras. Nem
festas! Será que a solução está nesses tipos ecléticos pós-modernos que estão a
zanzar pelos meandros da cidade?
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