sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

BEBÊ NA CICLOVIA.

     Antes de noticiar o acontecimento, aviso-lhes que a ciclovia da Rafael de Barros está quase pronta.  Sai da Praça Oswaldo Cruz e, lá embaixo,  vira à direita na Tutóia e esquerda na Manoel da Nóbrega, passando em frente ao Ginásio  e saindo em frente ao Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera.  Eu já fazia esse caminho e hoje fui surpreendido pela faixa vermelha, toda pintada. Só faltam as tartarugas e a sinalização.

     Na volta, ia subindo a Rafael de Barros. Uma ciclista vinha descendo. A faixa divisora das mãos de direção ainda não havia sido pintada. A ciclista vinha bem no meio da faixa toda. E se aproximava e nada de desviar para sua direita, para facilitar minha passagem no sentido contrário.  Eu pensei que era ciclista nova de rodagem, pouca prática,  já ia dando o desconto, quando ela tascou: “Contra-mão, bebê!”. E eu devolvi, na lata: “Mão dupla, vovó!” Mas antes, me passou pela cabeça um extenso pensamento.  Na hora, me lembrei das putas lá da avenida Liberdade, perto da João Mendes. Dia desses, sol alto, ia passando quando uma me convidou assim: “Vamos, bebê!”. Me lembrei que, na ocasião, eu não digerira bem aquele “bebê”, mas havia dado o desconto: havia pensado que ela queria dizer “baby”. Em inglês.  Baby em inglês não era tão mau.  Só que agora eu entendia: certas mulheres estavam chamando os homens de bebê, em bom português,  em situações em que caberia bem  um “otário” ou “mané”.

     A moça pedalava, mas o espírito ainda era o de motorista troglodita, querendo me jogar pra fora da faixa. E treplicou na bucha: “Vovó é a vovozinha!”. Ao que eu retruquei, igualmente rápido, não sem antes achar graça: “Vovozinha é a nona!”. Aí a moça perdeu um pouco o rebolado e me acusou de grosso, sem graça. Então eu, didaticamente, expliquei-lhe que sou de família italiana e chamava minhas vovozinhas de nonas. Ela então reclamou que eu a havia chamado de vovó. Eu então reclamei que ela havia me chamado de bebê. Ela então explicou que bebê é normal, quase carinhoso(nessa hora lembrei novamente das putas livres). Eu então expliquei-lhe que chamar um espécime da minha estirpe de bebê era ironia no  mau sentido. Ela então me questionou: “E me chamar de vovó, o que é?” E eu: “Ironia no bom sentido.”.


     Ela continuou calada.  Sabe você, meu confrade, a façanha que é conseguir calar uma mulher na via pública? Então eu continuei a desenvolver o meu raciocínio, com calma: você me chamou de bebê, querendo dizer, “não está vendo não, seu velho gagá!”. Eu te chamei de vovó, querendo dizer garota.  Mas vejo agora que você deve ter uns 33 anos, embora de longe pareça uma garota.  Aliás, sabia que o Raí, irmão do Sócrates, tinha 33 anos quando foi avô?,  arrematei, enquanto a moça em minha frente se transformava a olhos vistos numa doce criatura bem-humorada. É que ela tinha uns 45. Feliz, ela enfiou a bicicleta entre as pernas e saiu pedalando. E nem ligou quando gritei para ela ter cuidado com a mão dupla. 

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