Antes de noticiar o acontecimento,
aviso-lhes que a ciclovia da Rafael de Barros está quase pronta. Sai da Praça Oswaldo Cruz e, lá embaixo, vira à direita na Tutóia e esquerda na Manoel
da Nóbrega, passando em frente ao Ginásio e saindo em frente ao Monumento às Bandeiras,
no Parque do Ibirapuera. Eu já fazia
esse caminho e hoje fui surpreendido pela faixa vermelha, toda pintada. Só
faltam as tartarugas e a sinalização.
Na volta, ia subindo a Rafael de Barros.
Uma ciclista vinha descendo. A faixa divisora das mãos de direção ainda não
havia sido pintada. A ciclista vinha bem no meio da faixa toda. E se aproximava
e nada de desviar para sua direita, para facilitar minha passagem no sentido
contrário. Eu pensei que era ciclista
nova de rodagem, pouca prática, já ia
dando o desconto, quando ela tascou: “Contra-mão, bebê!”. E eu devolvi, na
lata: “Mão dupla, vovó!” Mas antes, me passou pela cabeça um extenso
pensamento. Na hora, me lembrei das
putas lá da avenida Liberdade, perto da João Mendes. Dia desses, sol alto, ia
passando quando uma me convidou assim: “Vamos, bebê!”. Me lembrei que, na
ocasião, eu não digerira bem aquele “bebê”, mas havia dado o desconto: havia
pensado que ela queria dizer “baby”. Em inglês.
Baby em inglês não era tão mau.
Só que agora eu entendia: certas mulheres estavam chamando os homens de
bebê, em bom português, em situações em
que caberia bem um “otário” ou “mané”.
A moça pedalava, mas o espírito ainda era
o de motorista troglodita, querendo me jogar pra fora da faixa. E treplicou na
bucha: “Vovó é a vovozinha!”. Ao que eu retruquei, igualmente rápido, não sem
antes achar graça: “Vovozinha é a nona!”. Aí a moça perdeu um pouco o rebolado
e me acusou de grosso, sem graça. Então eu, didaticamente, expliquei-lhe que
sou de família italiana e chamava minhas vovozinhas de nonas. Ela então
reclamou que eu a havia chamado de vovó. Eu então reclamei que ela havia me
chamado de bebê. Ela então explicou que bebê é normal, quase carinhoso(nessa
hora lembrei novamente das putas livres). Eu então expliquei-lhe que chamar um
espécime da minha estirpe de bebê era ironia no
mau sentido. Ela então me questionou: “E me chamar de vovó, o que é?” E
eu: “Ironia no bom sentido.”.
Ela continuou calada. Sabe você, meu confrade, a façanha que é
conseguir calar uma mulher na via pública? Então eu continuei a desenvolver o
meu raciocínio, com calma: você me chamou de bebê, querendo dizer, “não está
vendo não, seu velho gagá!”. Eu te chamei de vovó, querendo dizer garota. Mas vejo agora que você deve ter uns 33 anos,
embora de longe pareça uma garota. Aliás, sabia que o Raí, irmão do Sócrates,
tinha 33 anos quando foi avô?, arrematei,
enquanto a moça em minha frente se transformava a olhos vistos numa doce
criatura bem-humorada. É que ela tinha uns 45. Feliz, ela enfiou a bicicleta
entre as pernas e saiu pedalando. E nem ligou quando gritei para ela ter
cuidado com a mão dupla.
Nenhum comentário:
Postar um comentário