Ainda estava
escuro quando saí de Ouro Fino, em direção a Inconfidentes, com destino a Tocos
do Moji, pela vicinal do Caminho da Fé. Fui o primeiro a tomar café na pousada
Don Paolo, o pão de queijo ainda estava quente; e inaugurei, tal qual
aniversariante, os bolos de fubá e de aipim. Mas já clareava quando entrei na
zona rural, aquela penumbra em que todos os gatos são pardos. Só que não era gato, era homem! Um véio
barbudo que se materializou em minha frente, como se tivesse pingado do céu.
“Aonde você pensa que vai com esse cajado, moleque besta?”, atacou-me o velho.
Se o sujeito me chamou de moleque, imaginem a idade dele. Era um velho
ancestral, desses de 200 anos que a gente encontra por aí, nas ocasiões
adversas. Antes, é bom que se diga que não uso cajado ou bastão ou qualquer
outro amuleto nas mãos. Tenho-as livres para o que der e vier... e, na falta de
melhor proveito, balanço-as para ajudar na aeróbica da caminhada, ao contrário
do Drummond, que andava com as mãos vazias e paradas. Mas, às vezes, em horas
de maior carência, não resisto a um graveto ou a um arbusto ou a um fino galho
seco caído na beira da estrada. Cato-o e vou burilando-o; deixo-o do tamanho
adequado, tiro os excessos, eventuais galhos, casca, etc. e caminho algum tempo
imitando um peregrino convencional, porque a única função do cajado é remeter
seu usuário à idade média ou envelhecê-lo. A utilidade do cajado é psicológica
e a função prática imediata é midiática, no sentido de transformar o caminhante
num humilde ser de Deus e propagador da santa. Enfim, eu sou bípede; uma
terceira pata artificial não vai segurar o que as duas patas naturais não
segurarem. Não uso cajado. Mas o velho
me pegou nessa hora de exceção, quando empunhava o cajado a rigor. A minha
barba estava crescida e usava um chapéu de palha, desses usados pelos trabalhadores
da roça. Também usava calça comprida e camiseta de manga longa, de tal maneira
que, naquela semiescuridão, com aquele
cajado caprichado, eu era realmente um poderoso guerreiro da santa. Enfim, o
fato é que a minha figura impressionou o velho. Acho que ele viu em mim um
futuro concorrente...Esta deve ser a explicação dele ter me chamado de moleque,
apesar de ter apenas uns 30 anos a mais. Só que eu fiz do limão uma limonada.
Entortei a lança do velho. Retruquei jovial: “Bom-dia, véio misterioso das Geraes!
Aceita um pão de queijo?” Eu tinha pegado uns quatro lá na pousada e guardado
em minha pochete, ainda estavam mornos. Os olhos claros do velho, que ardiam em
chamas, esfriaram e adoçaram, como se tivessem recebido uma avalanche de açúcar
em neve. O fato é que ele inverteu o sentido da sua caminhada e passamos a
caminhar juntos, enquanto ele não parava de falar:
“Mininu, já fui carrero, pião domadô i tamém jagunço. Já dismontei
onça, jaguatirica sem par. Viado matero pulava dispoiz caía. Tamém já fui
rezadô. Rezava terço, era chamado na redondeza di dez légua. Num rezava missa
purquê Deus num dexava. Isso foi dispoiz di matá uns doze. De repente, virei o
‘spinhaçu. Num teve coroné qui desse jeito. As famia atingida qui mais mi
siguia. Invirti as vingança, fundei a paz. Mais inhantes, adotei bestas i burros.
Jumento nunca amuntei. Nunca quis graça cum jumento. Égua i cavalo tamém fiz,
mas pôco. Minha preferença era burro brabo. Ô besta, tanto faz. Dexava nus trinques,
na midida pra quarqué fia di fazendero amuntá. Nus entremeio, fui carrero,
adestrei boi. Tamém fui mestri carpina, pra mór di us carru i apetrecho. Fazia us
carru compreto i a arriata toda. Canga, canzil i tamém as necessidade di côro.
As corda i as cabeçada. Só num fazia as fucinheira di ferro, qui ia nus nariz dus
bixo. Num gostava daquela judiação, mas era o jeito. Minhas junta di boi só
trabaiava nu grito. Num usava pau nem ferrão. Mininu ajudante qui num bestasse,
qui devorvia prus pai. Batesse em mim mas num batesse nus boi. Era mestre em
madêra e côro: mais pur conta das necessidade das minhas profissão. Tamém
fabricava umas violinha di cabaça i crina i umas pinga, coisa não ferventada...
I pescava, sô! Ô nossinhora! Mas nadica di rede ô cipó. Cumigo
era na lealdade, eu i us pêxe. Qué dizê: eu i minhas varinha i meus anzor i
minhas isca. Qui pêxe é bixo ladino. Traíra nunca pesquei, purquê num gostava i
tamém purquê num gosto di pesca di lagoa, gosto di barranco seco. Prefiro um mandi-chorão. Tive muié i fio. Duas
muié i quatru fio cum cada uma. Qué dizê: uma dispoiz da otra, qui morreu. Dispoiz
a minha úrtima muié tamém morreu, dispoiz foi morrenu us fio, num sobrô nenhum,
só eu nu mundo. Dus meus irmão eu já tinha pirdido notícia inhantis di casá, tio i otros parenti
nunca cunheci, di modus qui só sobrô essa minha carcaça nu mundo... eu i Deus.
Dispoiz di matá doze, inhantis eu virei benzedô, dispoiz foi qui virei rezadô nus conformi da
religião. Si bestá, inda hoje disfio umas reza braba boa, tenho receita pra
toda obra... Sendo tamém qui trabaiava cum erva i raiz i arguns pertence di
bixo, mercadoria morta. Di coisa fabricada di cidade, só tive revórve i
cartuxera. Tá veno aquela tapéra lá longe nu buracu inhantes da curva du ribêru? É lá qui ninguém
chega. É lá qui mi desanuncio. Tem dono pra mór di quê? Tem dono, mas axa mió
num mexê cumigo. Tamém num faço motivo. In minha boca num entra musquito i sô
respeitadô. Tô venu qui ocê anda feito um penachu. Só pode sê, pra mi acumpanhá. Vô cheganu. Num
arrepara num cunvidá, mas sô sistemáticu. Visita mi tira o disassussegu. Só,
vivo menos disinfiliz. Brigadu pelas broa. U sinhô é bixaredo di bão pra andá.
É mémo um redomão xadreiz. Quarqué hora nóis cruza otra veiz. Si Deus quizé e a
vige Maria ajudá. ”
De repente, me
dei conta de que eu caminhava absorto e calado e só a voz do velho destilava
sua história. E que em nenhum momento fui inquirido a revelar qualquer
informação sobre a minha pessoa. Aquilo não fora um diálogo; mais parecera uma
transversal a confrontar duas paralelas de distintos tempos, diferentes eras. E realmente nada me lembra ver o velho se
afastando em direção a sua tapera. Andei uns 10 metros e parei. Havia uma
biquinha que escorria do barranco. Lavei o rosto. A essa altura, o dia já ia
claro, apurei a vista, não vi tapera nenhuma em todo o vale lá embaixo e nenhum
sinal do velho na invernada limpa que escorria morro abaixo e subia morro
acima, do outro lado. Antes havia encontrado um menino com cara de velho
petrificado na entrada da cidade. Que havia visto concretamente, lá fincado
para quem quisesse e quem não quisesse. Agora esse velho que caía do céu, comia meus pães de queijo, depois
evaporava. Olhei minha mão direita e ela segurava um cajado. Que arremessei
longe, senão não cumpria as oito léguas do dia.
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