quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A MOTA

     Nas cidades grandes havia paralelepípedo. Não havia asfalto no mundo. As estradas todas eram de terra, até as rodovias. Terra pura, sem qualquer material que atenuasse a formação de barro durante as chuvas. Um piso argiloso, inclinado e molhado escorrega que nem sabão. Vi o início do fim desse mundo. Assisti, em 1968, das janelas do ginásio onde fazia a primeira série, ao asfaltamento das ruas da praça da matriz.

     Era, portanto, o mundo da mota.  A mota reinava solitária no arsenal da prefeitura para construção e conservação de estradas.  Conhecida também por patrol, era um tratorzão de seis rodas e uma lâmina entre elas, que assumia infinitos ângulos de corte. Os pneus da frente esterçavam normalmente ou caíam de lado. O operador ficava numa cabine bem elevada.

     A mota aparecia na estrada umas duas vezes por ano. Vinha raspando direto, deixando o piso perfeito até a próxima chuva. Os buracos e valetas eram fechados pela terra raspada, sem qualquer compactação. O dia da mota era uma festa, a criançada – e até adultos – corria para ver a máquina trabalhando. Eu queria ser motorista de mota, quando crescesse.

     Numas férias escolares de janeiro, veio um menino da cidade passar uns dias num vizinho. Conviveu com a gente uns 15 dias. Não tirava o calçado nem pra jogar bola. Tínhamos de confrontar as biqueiras de suas congas com nossos dedões nus. Não matava passarinho porque era pecado, e portanto não sabia jogar pedra de estilingue. Mijava escondido, não mostrava o pinto nem pra nadar, que entrava na água de calção, coisa mais desinteligente.

     Nós relevávamos tudo, a mania de lavar as mãos antes de comer; a pronúncia cheia de esses e eles e erres; o uniforme completo do Palmeiras – camisa nº 10 – que ostentava perante nossas calças e camisas comuns de todos os dias nas peladas; seu medo de subir em árvores; seu vocabulário isento de qualquer palavrão. Eu perdoava até sua mania de lavar a boca após chupar manga. Até o dia que veio a mota.


     - Olha! Uma moto-niveladora! Exclamou o menino. Minha primeira surpresa positiva foi constatar que tínhamos um ponto em comum: a admiração pela máquina. Mas, em seguida, pensei que eu admirava a mota e ele, a moto-niveladora. Aquele palavrão para nomear minha ídola era demais. Eu podia aceitar que ele falasse pênis e vagina – embora risse -; podia aceitar que substituísse a “área suja” pela barreira, no futebol. Que dissesse que couve pertencia ao gênero feminino. Mas moto-niveladora ultrapassava os limites de qualquer tolerância. Menino mais besta!

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