quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Rótulo de cerveja / polenta

TEM COISA MAIS MENTIROSA DO QUE RÓTULO DE CERVEJA?

     Tem, claro. Rótulo de vinho, de azeite, de panetone... Os rótulos de quase todos os produtos alimentícios industrializados mentem. Claro que mentem com a ajuda de publicitários, químicos de alimentos, advogados e... alguns burocratas dos órgãos controladores. Mas acontece que acabei de tomar uma cerveja em lata de 350 ml e...estava lendo o rótulo. Os rótulos mentem, quase todos, mas alguns mentem de forma mais caprichada, ou provocadora. E eu caio fácil nas provocações dos rótulos de alimentos. Certa feita, escrevi sobre o rótulo da colomba pascal. Era quase uma peça literária. Não o que escrevi, mas o rótulo. Mencionava familiares da época da Revolução Francesa, se não me falha a memória.

     Vamos à cerveja. Quase sempre há um brasão nos rótulos. Esse não foge à regra. Tem um brasão e uma data, do século XIX. Mas em 1877, na Alemanha – que não era Alemanha – ainda havia brasões e famílias que exibiam brasões? Pouco importa se a data e o brasão fazem alusão a duas distintas épocas históricas: a revolução industrial e respectivas famílias burguesas, por um lado, e o período feudal, por outro. Claro, a cerveja é puro malte. E é premium – sabe-se lá a que se refere esse premium. Costumo comprar essa cerveja porque sua gradação alcoólica é de 4,8% - a mais alta que encontro na prateleira. Acho que essa gradação deveria ser de, no mínimo, 10%, mas, enfim, não sou contumaz bebedor de cerveja, levo a menos pior. E não tenho a menor noção do que sejam cereais não-maltados, que o rótulo garante não haver na sua cerveja. Enfim, utilizam água pura e puro malte de cevada. Pura e puro são adjetivos infalíveis nos rótulos de alimentos. Água pura? H2O? Existe, na prática? A pureza é algo que não existe na prática. Mas faz um estrago danado na mente pura dos consumidores...puros.  


     Já que toquei no assunto, estou pensando em fabricar polenta. Claro, vou criar o rótulo antes. Que me importa que a polenta não tenha glamour.  Arranjo um sócio-investidor, desses que não entendem nada do negócio (só do retorno financeiro que ele possa dar), inundo a TV com comerciais de “alto nível”, contrato uma atriz cult, digo que é um remédio. Porque os rótulos criativos só funcionam bem com os produtos glamourosos, escrevo lá que minhas nonas antepassadas fabricavam polenta desde o Império Romano, suscito na imaginação do freguês um tacho de cobre, uma colher de pau, que me importa que a Europa ainda não conhecesse o milho, se apertado, declaro que tal império é o de Humberto Primo, que imperou sobre o norte da África – ou foi Mussolini? – dane-se, desde que não tirem meu rótulo de circulação, minhas incoerências serão notadas por dois ou três. Os milhões continuarão consumindo minhas alusões históricas e familiares e meus adjetivos e a memória falsa da minha bisavó.

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