quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

CRÔNICA de CACHORRO


O cachorro vinha pelo Caminho da Fé de cabeça baixa, mas trotando rápido e reto, muito determinado. Parecia doido. Além dos pés, tocava o chão com as duas mãos, como se fora dois cajados. Poucos animais andam com as mãos abanando. Alguns inventam um pedaço de pau para segurar. Mas há quem invente dois. Se um cajado já atrapalha e pesa, imagina dois!
Trote é corrida? Sim, trote é corrida, porque por frações de segundo o irracional peregrino flutuava no ar, sem nenhuma parte do corpo a tocar o chão. E essa condição é que diferencia a corrida da caminhada. Entretanto, era uma corrida cadenciada, de quem não está se esforçando muito e pretende ir longe.
O caminho fazia uma curva, eu e minha nova parceira peregrina havíamos sentado num murinho simpático para descansar e comer o resto de pão de queijo que havia sobrado da véspera. Era rua de terra, nas cercanias de Campos do Jordão, próximo ao Vale do Baú, que tem esse nome porque uma das suas encostas tem como cumeeira a Pedra do Baú, monumento natural que domina vasta região do sul de Minas e partes da Mantiqueira paulista.
O cachorro apontou na curva e, pela sua determinação, diagnostiquei que poderia estar louco: de fé ou de raiva. Isso não é difícil entre penitentes e ultramaratonistas.
Mas o cachorro não estava uma coisa nem outra. Tanto que logo quebrou sua concentração para se juntar a nós, nos cheirar e pedir compartilhamento com a nossa comida. E ora cheirava um, ora cheirava outra; e pedia e implorava.
Acontece que toda essa comida consistia num único pão de queijo, que fora, momentos antes, escrupulosamente dividido em duas partes iguais. Sendo que esse pão de queijo era legítimo mineiro, de uma padaria de Luminosa, distrito de Brazópolis, cuja receita havíamos discutido e nos inteirado com o próprio padeiro, que vinha a ser também o caixa e o balconista.

Sendo que eram 10 horas e a fome já havia vencido o café da manhã, consumido às cinco, 20 quilômetros atrás.
Eu me considero um sujeito sensível. Menos perante olhares mortiços de cães abandonados. (Não tenho pena de cães abandonados, pelo motivo que vai ao final). De tal maneira que abocanhei logo minha metade, livrando rápido minha consciência e jogando todo o peso sobre a da minha parceira, que acabou sucumbindo e subdividindo sua metade com o pedinte.
O cão recebeu a comida da mulher, mas veio agradecer ao homem, que o cão é o melhor amigo do homem, e não da mulher.
Agora eu estava livre até para conversar com ele. Chegou, resvalou em minhas pernas, era um vira-latas sem-vergonha da mais genuína procedência. Estava limpo e bem cuidado, seu pelo transparecia o brilho da saúde. Havia uma coleira, na coleira havia uma chapinha metálica, na chapinha havia os números de dois telefones.
Claro que não liguei para telefone nenhum, que não avisei dono de cachorro nenhum. Só não arranquei a chapinha para pinchá-la no mato porque fiquei com medo da reação da minha parceira. Mas expliquei a ele, numa conversa de homem para cachorro, que a vida de cachorro-sem-dono é muito, muito melhor; que ele, abelhudo como era, não teria dificuldades para ser feliz; que deveria se mandar, ir para bem longe, de preferência sair da área do prefixo DDD 012: nenhum humano iria gastar um interurbano para avisar. E, se avisasse, seu humano dono não iria gastar uma viagem para resgatá-lo.
Ele concordou. Sim, tudo bem, ir para bem longe. Mas não junto com a gente, para Aparecida!


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