O
cachorro vinha pelo Caminho da Fé de cabeça baixa, mas trotando
rápido e reto, muito determinado. Parecia doido. Além dos pés,
tocava o chão com as duas mãos, como se fora dois cajados. Poucos
animais andam com as mãos abanando. Alguns inventam um pedaço de
pau para segurar. Mas há quem invente dois. Se um cajado já
atrapalha e pesa, imagina dois!
Trote
é corrida? Sim, trote é corrida, porque por frações de segundo o
irracional peregrino flutuava no ar, sem nenhuma parte do corpo a
tocar o chão. E essa condição é que diferencia a corrida da
caminhada. Entretanto, era uma corrida cadenciada, de quem não está
se esforçando muito e pretende ir longe.
O
caminho fazia uma curva, eu e minha nova parceira peregrina havíamos
sentado num murinho simpático para descansar e comer o resto de pão
de queijo que havia sobrado da véspera. Era rua de terra, nas
cercanias de Campos do Jordão, próximo ao Vale do Baú, que tem
esse nome porque uma das suas encostas tem como cumeeira a Pedra do
Baú, monumento natural que domina vasta região do sul de Minas e
partes da Mantiqueira paulista.
O
cachorro apontou na curva e, pela sua determinação, diagnostiquei
que poderia estar louco: de fé ou de raiva. Isso não é difícil
entre penitentes e ultramaratonistas.
Mas
o cachorro não estava uma coisa nem outra. Tanto que logo quebrou
sua concentração para se juntar a nós, nos cheirar e pedir
compartilhamento com a nossa comida. E ora cheirava um, ora cheirava
outra; e pedia e implorava.
Acontece
que toda essa comida consistia num único pão de queijo, que fora,
momentos antes, escrupulosamente dividido em duas partes iguais.
Sendo que esse pão de queijo era legítimo mineiro, de uma padaria
de Luminosa, distrito de Brazópolis, cuja receita havíamos
discutido e nos inteirado com o próprio padeiro, que vinha a ser
também o caixa e o balconista.
Sendo
que eram 10 horas e a fome já havia vencido o café da manhã,
consumido às cinco, 20 quilômetros atrás.
Eu
me considero um sujeito sensível. Menos perante olhares mortiços de
cães abandonados. (Não tenho pena de cães abandonados, pelo motivo
que vai ao final). De tal maneira que abocanhei logo minha metade,
livrando rápido minha consciência e jogando todo o peso sobre a da
minha parceira, que acabou sucumbindo e subdividindo sua metade com o
pedinte.
O
cão recebeu a comida da mulher, mas veio agradecer ao homem, que o
cão é o melhor amigo do homem, e não da mulher.
Agora
eu estava livre até para conversar com ele. Chegou, resvalou em
minhas pernas, era um vira-latas sem-vergonha da mais genuína
procedência. Estava limpo e bem cuidado, seu pelo transparecia o
brilho da saúde. Havia uma coleira, na coleira havia uma chapinha
metálica, na chapinha havia os números de dois telefones.
Claro
que não liguei para telefone nenhum, que não avisei dono de
cachorro nenhum. Só não arranquei a chapinha para pinchá-la no
mato porque fiquei com medo da reação da minha parceira. Mas
expliquei a ele, numa conversa de homem para cachorro, que a vida de
cachorro-sem-dono é muito, muito melhor; que ele, abelhudo como era,
não teria dificuldades para ser feliz; que deveria se mandar, ir
para bem longe, de preferência sair da área do prefixo DDD 012:
nenhum humano iria gastar um interurbano para avisar. E, se avisasse,
seu humano dono não iria gastar uma viagem para resgatá-lo.
Ele
concordou. Sim, tudo bem, ir para bem longe. Mas não junto com a
gente, para Aparecida!
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