Meu avô paterno, que era italiano misturado com caipira, dizia pênis para penalty. Sim, para a penalidade máxima, ele era juiz de futebol. O beck derrubava o center forward na área e ele gritava, para toda a torcida ouvir: pênis!! Ninguém achava graça nem desgraça, porque ninguém sabia o que era pênis. Aliás, todo mundo sabia: pênis era penalty em caipirês. Center forward é invenção minha, mas beck é de verdade. Naquele tempo não havia zagueiro, havia beck (se o beck fosse grande, era becão). O gol era defendido pelo goalkeeper, mas só no rádio. Entre nós, já era goleiro. E o nono devia achar melhor a forma inglesa de rigore, que era o penalty em sua língua.
Fica claro, então, que no futebol brasileiro não existe
penalty; existe penalidade máxima. Creio que não há na vida uma situação em que
os participantes mais sentem a relatividade das coisas do que na hora do
penalty. Para o goleiro, aqueles 7,32 de largura pelos 2,44 metros de altura
são mais amplos do que o perfil de um transatlântico. Para o chutador, aquele
retângulo em sua frente, formado pelos três paus, parece uma minúscula arapuca retangular
apoiada no planeta, no máximo um golzinho de futebol de salão.
Mas, ao contrário do que possa parecer, na hora do penalty
a vantagem é toda de quem defende. Enquanto o goleiro não tem obrigação de
defender, o chutador tem obrigação de marcar, daí porque aquela frase famosa,
feita não sei por quem: o penalty é tão importante que devia ser batido pelo
presidente do clube. Para o goleiro, tudo que vier além do normal é lucro; para
o atacante, é prejuízo.
Mas, e na vida? Se no jogo, quem defende só tem a ganhar, e
quem ataca só tem a perder, na vida me parece o contrário, daí porque cunharam
a expressão: fulano está na defensiva. Subentende-se que quem está na defensiva
está batendo em retirada, sem razão. Há outra expressão, a propósito: a melhor
defesa é o ataque. Quem ataca tem a seu favor, no mínimo, o reconhecimento da
coragem, além de reafirmar a própria razão. E quem ataca escolhe a hora, o
terreno e a natureza da contenda.
Mas é evidente que a cobrança do penalty, na vida, equivale
à execução da pena capital. O goleiro é o condenado e o chutador é o carrasco.
Também nessa analogia estrita, quem defende está em desvantagem: não ganha
nunca!
Já sobre a barreira, aquele deprimente muro humano de
contenção, agravado agora por mais um jogador deitado atrás, escrevo outra
hora. Por enquanto, adianto-lhes que ela não consta nas regras do jogo. É coisa
praticada nas brechas da lei, de gente que não gosta de gols, que quer manter o
jogo no zero a zero.
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