segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

"JÁ FUI ASSALTADO"

Finalmente, fui assaltado. Após 47 anos morando e andando pelo centro da megalópole, fui assaltado. Agora já posso aderir à campanha “Já fui assaltado”, da Jovem Pan. Há uns 20 anos, a Jovem Pan distribuiu mais de um milhão de adesivos “Já fui assaltado”. As “pessoas de bem” colavam no vidro do carro.

 Na ocasião, escrevi a crônica “Nunca fui assaltado”. Mas venho por meio desta atualizar aquele meu produto. Ele (ela, a crônica) caducou. Neste 24 de janeiro de 2022, me tornei um cidadão que já foi assaltado.

Calma, conto direitinho.

Mas algum preâmbulo é necessário.

Eu facilitei. Não, eu provoquei. Pior, eu abusei.

Tudo bem que tem gente forte que reza pra mim. Meu santo é forte, meu zóio é forte, minha fé é forte. Mas tudo tem um limite. Vai vendo.

Com minha mochila cargueira nas costas, me dirigi à zona cerealista, como faço com certa frequência. São 6 Km, sendo metade carregado(17 Kg), é um bom treinamento para outras travessias.

Moro do lado oposto à zona do mercadão, devo atravessar o centro velho integralmente, passando pela região do Parque D.Pedro. Posso ir pela muvuca propriamente dita do parque ou ir pelo viaduto da Rangel Pestana.

Fui pelo viaduto.

Mas, ao invés de ir pela ciclovia que tem ali, que é bem visível e passa muita gente a pé ou de bicicleta, fui pela passarela de pedestres, aquela faixa lateral e rebaixada, separada da pista por um muro. E como se não bastasse o abuso, fui pela faixa do lado oposto. Tanto que os dois assaltantes tiveram que atravessar na frente dos carros para me abordarem.

Fui pelo viaduto para fugir da miséria misturada com sujeira que há na muvuca do parque. Bem feito pra mim!

Logo que entrei na passarela, pensei que aquilo era um desperdício. Para quê construir uma passagem de pedestre num viaduto? Nenhum pedestre de bom senso vai querer atravessar um viaduto de mais de 500 metros de extensão, se há alternativa própria. Na Itália, as autoestradas não têm acostamentos. Nenhum ciclista se aventura lá, até porque é proibido (entretanto, há boas estradas mais calmas para os mesmos destinos). Aquele desperdício só podia ser obra da Maluf.

Quando vi os dois homens pulando o muro em minha direção, já saquei logo, não minha arma, mas meu desconfiômetro. Eram dois homens pequenos e magros, mas não eram pivetes. O comandante da operação, que estava com a faca, tinha uns 40 anos e seu auxiliar uns 30. Era uma peixeira vagabunda com lâmina de 15 cm e cabo de madeira branca não tratada, a faca mais barata da feira, muito comum nas cozinhas de pobre.

“Dá o celular!”, “Dá o celular!”, “Dá o celular!”.

É isso, gente. A moeda corrente agora se chama celular. Notei na hora o advento da nova moeda. Eu estava calmo, meus batimentos cardíacos não se alteraram na hora nem depois, apesar da peixeira a 30 cm da minha barriga.

Eu disse: eu não tenho celular, mas tenho dinheiro na carteira. E já enfiei a mão no bolso para tirar a carteira, coisa que não devia ter feito, penso agora.

Mas o moço da faca era gente boa, eu acho que aquele senhor quase raquítico não teria coragem de enfiá-la em mim, caso eu reagisse. Pediu que eu abaixasse, para não ser visto pelos carros que passavam. Dei a carteira para o comandante, que a repassou ao cabo, que se distanciou uns 4 metros, colocou-a no chão, ao mesmo tempo que o superior comandava o subordinado: só tire o dinheiro, deixe os documentos.

Não falei que o homem da faca era gente boa!? Tenho certeza que aquele cidadão tem medo do fogo do Inferno. Que comparece regularmente a uma dessas lojas neopentecostais comuns no pedaço e até contribui com o dízimo.

“Só leve o dinheiro, deixe os documentos”. O cara tem empatia, essa virtude tão necessária e tão rara entre as “pessoas de bem”.

Nunca considerei tão bem empregados os 150 reais de moeda sonante que acabava de gastar.

Mas, encerrada a treta, me assaltou, aí sim, um medo de ser assaltado novamente na outra metade do viaduto que eu ainda tinha de vencer. Porque temo pela sorte de alguém sem celular e sem dinheiro naquelas vias públicas.

Enfim, fiz as compras e, imediatamente, entrei na primeira agência da Caixa para reabastecer minha carteira. Tá lôco, sô! Minha arma é minha grana.

E agora, perco ou não perco a fé? A exemplo da Jovem Pan, também eu abandono aquele território?

 

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