Poxa, cara! Por que essa cara feia agora!? Se eu fosse um desses melífluos que têm por aí, se eu lhe paparicasse, lhe levasse café na cama, lhe chamasse de querida, lhe presenteasse no ano novo, vá lá. Mas eu nunca lhe fiz nada disso, nunca lhe emprestei dinheiro, nunca lhe fiz nenhum favor, nunca lhe chamei de meu amor, nunca fui besta de alimentar esse seu gênio horrível, piorado com esse caminhão de complexos que você carrega. Eu realmente não entendo porque você agora reclama, fecha a cara, fica de mal. Eu até aceito que, às vezes, exagero. Poderia muito bem ao menos lembrar do nosso aniversário de casamento, paparicar a sua mãe, mandar entregar um buquê de flores de vez em quando. Mas é que sempre fui assim, sonso, sem graça e radical e faz tantos anos. Desde sempre, eu já era assim, eu sempre fui assim, sem açúcar e sem afeto. Fracasso o seu, de ter achado gosto em mim. Você não foi perspicaz, mas já lá se vão anos, por isso não entendo agora esse mau humor, essa reprovação. Lembra aquela vez, em casa de seus pais, ainda solteiros, quando chutei seu gato? Você, tão sagaz para tudo, até achou graça. Você devia ter sacado ali, naquela hora, que eu era caso perdido. Mas você até se sentou no meu colo, em seguida. Lembra que eu nunca sabia o nome daquele gato, que você fazia um beicinho lindo quando eu chamava seu gato de gato? Então, eu sou aquele, eu continuo aquele. Não entendo, cara, esse azedume de agora, só porque pendurei a toalha de mão no lugar do pano de prato. Porque se eu tivesse sido um sujeito atencioso, carinhoso, cumpridor dos mínimos detalhes da construtiva relação, preocupado em te agradar sempre e incondicionalmente, tivesse dito alguma vez que que você é linda, ao invés de dizer, como eu digo e você detesta da boca pra fora, que você é gostosa, aí sim eu entenderia esse gelo d’agora por causa desse meu chinelo no meio do corredor às 11 h da noite do dia dos namorados. Eu nunca alimentei esse seu gênio ruim, nunca fiz essa besteira, nunca fui tão imprudente. Se eu tivesse sido um boçal, você poderia me desprezar. Você não acha meio anacrônico agora esse seu rigor, meio fora de hora esse seu capricho? Eu nunca lhe dei motivos para me injuriar assim. Mas cara, saiba que, apesar de tudo, essa sua birra me dilacera o fígado. A benção, Chico Buarque de Holanda.
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